MTL: A liga que confrontou os maiores times do Brasil

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A Mo Team League (MTL) foi um daqueles projetos que pareciam destinados a transformar definitivamente o MMA brasileiro. Inspirada na extinta International Fight League (IFL), dos Estados Unidos, a competição apostou em um conceito inédito no país: substituir o tradicional confronto entre atletas por disputas entre equipes, cada uma liderada por quatro grandes nomes do esporte nacional: Wanderlei Silva, Pedro Rizzo, Murilo Bustamante e Rogério Minotouro.

Realizada entre 2007 e 2008, ao final da era Pride, a MTL teve apenas três edições. O projeto nasceu da iniciativa da empresária Mônica Marchetti, uma das maiores produtoras de soja do país. Apaixonada pelo esporte após acompanhar inúmeros eventos ao lado do filho, ela acreditava que o MMA brasileiro possuía atletas de nível mundial, mas ainda carecia de organização e valorização profissional.

Para transformar a ideia em realidade, uniu forças com o tetracampeão mundial de jiu-jítsu Fábio Gurgel e com a Reunion, empresa responsável por grandes eventos esportivos no Brasil. Inspirados pelo sucesso da IFL, desenvolveram um formato próprio. Em vez de equipes com nomes de animais, como acontecia na organização americana, cada time recebeu o nome de uma força da natureza: Wild Fire, Tsunami, Avalanche e Hurricane.
Em apenas um mês foram realizados o sorteio dos atletas, a formação das equipes e toda a organização do evento inaugural, realizado no tradicional Club Athletico Paulistano, em São Paulo, que pela primeira vez abria suas portas para uma competição de MMA.

Texto e Fotos Marcelo Alonso

1º FASE: WANDERLEI x BUSTAMANTE

A primeira edição da Mo Team League, realizada em 11 de agosto de 2007, colocou frente a frente duas das maiores estrelas do MMA brasileiro: Murilo Bustamante, líder da BTT e Wanderlei Silva, maior ícone da rival Chute Boxe.

O ambiente era de decisão desde o início. Cerca de dois mil espectadores lotaram o Club Athletico Paulistano para assistir ao primeiro duelo entre equipes da história do MMA nacional.

A Wild Fire abriu vantagem logo na categoria até 70 kg. Luciano Azevedo utilizou toda sua experiência para superar Ocimar Costa em uma luta bastante equilibrada. Depois de dominar boa parte do combate, Luciano encaixou um triângulo no terceiro round, colocando a equipe de Bustamante na frente.

Os Hurricanes responderam imediatamente. Flávio Álvaro derrotou Gerson Conceição por decisão dividida, empatando o confronto em 1 a 1.

Na terceira luta, Wanderlei viu sua equipe virar o placar. Rafael “Sapo” venceu Silmar Rodrigo após três rounds muito disputados, colocando os Hurricanes em vantagem por 2 a 1.

A reação da Wild Fire começou justamente no clássico entre Brazilian Top Team e Chute Boxe. Alexandre Cacareco mostrou enorme superioridade diante de Rafael Monteiro, levou rapidamente a luta para o solo e finalizou com uma kimura ainda no primeiro round, empatando novamente a disputa.

No confronto BTT x Chute Boxe que incendiou a 1º fase Cacareco finalizou Rafael com facilidade

A decisão ficou para os pesos-pesados.

Joaquim Mamute entrou no ringue em busca de revanche contra André Mussi, que o havia derrotado meses antes na final do torneio do XFC. Desta vez, porém, o representante da Wild Fire dominou completamente o combate. Após controlar praticamente toda a luta no chão, conquistou a posição norte-sul e finalizou o adversário no segundo round, garantindo a vitória da equipe de Murilo Bustamante por 3 a 2.

MINOTOURO VENCE RIZZO E GARANTE VAGA NA FINAL

Com a classificação da Wild Fire assegurada, restava definir seu adversário na decisão da temporada.

A segunda edição da Mo Team League aconteceu em 29 de setembro de 2007, novamente em São Paulo, colocando frente a frente a equipe Avalanche, comandada por Rogério Minotouro, e o Tsunami, liderado por Pedro Rizzo.

Assim como havia ocorrido na estreia, o confronto foi extremamente equilibrado e só teve definição no último combate da noite, demonstrando que o formato por equipes aumentava significativamente a emoção do evento.

Um dos grandes destaques foi o então promissor Junior “Cigano” dos Santos. Ainda muito antes de conquistar o cinturão do UFC, Cigano confirmou seu enorme potencial ao nocautear Jair Gonçalves, consolidando-se como uma das maiores promessas dos pesos-pesados brasileiros.

Na 2o edição Cigano nocauteou Jair Sorriso e definiu o placar em favor do time de Minotouro 3 x 2

Outro atleta que brilhou foi Sergio Moraes, que precisou de apenas um round para finalizar André Chatuba com um triângulo. Leonardo Santos também teve atuação destacada ao superar Rafael Bastos em uma das lutas tecnicamente mais refinadas da noite.
A Avalanche ainda contou com a importante vitória de Fábio Maldonado sobre Vitor Miranda, enquanto Maurício Alonso marcou o único ponto do Tsunami ao derrotar Júlio César de Almeida.

Ao final das cinco lutas válidas pela disputa entre equipes, a Avalanche venceu por 3 a 2, repetindo exatamente o placar da primeira etapa e garantindo classificação para enfrentar a Wild Fire na decisão da temporada.

O resultado criou o cenário que talvez fosse o mais simbólico possível para a organização. De um lado estaria Murilo Bustamante, líder da Wild Fire e um dos fundadores da Brazilian Top Team. Do outro, Rogério Minotouro, que havia deixado a BTT poucos meses antes ao lado do irmão Rodrigo Minotauro.

Mais do que uma disputa pelo primeiro título da história da MTL, a decisão colocaria frente a frente antigos companheiros de equipe em um momento de enorme transformação do MMA brasileiro.

BUSTAMANTE VENCE MINOTOURO NA FINAL POR 4 X 1

Realizada em 10 de novembro de 2007, no Club Athletico Paulistano, em São Paulo, a final colocou a Wild Fire, de Murilo Bustamante, diante da Avalanche, liderada por Rogério Minotouro. Poucos meses antes, Rogério e Rodrigo Minotauro haviam deixado a BTT para seguir novos caminhos. Embora a separação tivesse sido anunciada de forma amigável, ainda havia um evidente desconforto entre os antigos parceiros.

Na coletiva de imprensa que antecedeu a decisão, Minotouro admitiu que seria estranho enfrentar atletas com quem dividira anos de treinamentos e conquistas.
“É muito estranho estar do outro lado do ringue tendo como adversários parceiros de treinos como Murilo, Cacareco e Gerson.”

Bustamante, por sua vez, ainda demonstrava certo distanciamento dos ex-companheiros. O clima entre os capitães evidenciava que, além do título, havia um forte componente emocional naquela decisão.

As lutas preliminares já deram o tom da noite. Juliano Belgine conquistou o nocaute mais rápido do evento ao derrotar Rafael Motta em apenas 15 segundos, enquanto Cassiano Tytschyo venceu Marcelo Grilo em uma disputa bastante equilibrada.

Quando começaram os confrontos entre as equipes, a Wild Fire mostrou por que chegava à decisão como favorita. Luciano Azevedo abriu o placar ao superar Rafael Manteiga após uma luta intensa, utilizando seu eficiente jogo de quedas e controle no solo para conquistar a vitória na decisão dos juízes.

Minotauro entrega o prêmio a Sergio Moraes

A Avalanche reagiu imediatamente. A grande revelação da competição, Sergio Moraes, confirmou sua excelente fase ao derrotar Gerson Conceição. Com um jogo de solo extremamente eficiente, o futuro atleta do UFC neutralizou completamente a trocação do adversário e empatou o confronto em 1 a 1.

A terceira luta acabou sendo uma das mais equilibradas de toda a temporada. Silmar Rodrigo e Júlio César Field protagonizaram três rounds muito disputados. Depois de dominar o segundo assalto com boas quedas e uma sequência de golpes que quase encerrou a luta, Silmar administrou a vantagem construída e recolocou a Wild Fire à frente no placar.

Com a equipe vencendo por 2 a 1, cabia a Alexandre Cacareco disputar o combate que poderia definir o campeonato. Diante do perigoso boxeador Fábio Maldonado, Cacareco repetiu a estratégia que marcou toda sua campanha na MTL. Ignorou completamente a trocação, encurtou rapidamente a distância e levou a luta para o chão. Apenas 27 segundos depois, uma chave de joelho obrigava Maldonado a desistir, garantindo matematicamente o primeiro título da história da Mo Team League para a equipe de Murilo Bustamante.

Embora o campeonato já estivesse decidido, ainda faltava um dos confrontos mais aguardados da noite. Joaquim Mamute entrou no ringue diante de Junior Cigano carregando duas motivações especiais. Meses antes havia sido derrotado pelo próprio Cigano na final do XFC e já havia iniciado sua campanha de recuperação ao vencer André Mussi na primeira etapa da MTL, também em revanche por uma derrota anterior.
Mais uma vez, Mamute mostrou enorme capacidade de superação. Considerado azarão diante do futuro campeão do UFC, conseguiu levar a luta para o chão logo nos primeiros instantes. Cigano ainda inverteu a posição, mas acabou surpreendido por uma chave de braço aplicada com perfeição pelo atleta da Wild Fire, sendo obrigado a desistir antes mesmo do fim do primeiro round.

A vitória transformou um triunfo apertado em uma goleada por 4 a 1, coroando a campanha dominante da equipe de Murilo Bustamante ao longo de toda a competição.
Ao final da noite, atletas e comissão técnica comemoraram o título abrindo garrafas de champanhe no centro do ringue. Além do prestígio esportivo, cada integrante da equipe campeã recebeu uma premiação de 11 mil dólares, enquanto os vice-campeões ficaram com 2,8 mil dólares por atleta — bolsas consideradas bastante acima da média praticada no MMA brasileiro naquele período.

Joaquim Mamute fechou o placar de 4 a 1 ao finalizar Junior Cigano (Avalanche) com uma chave de braço

Empolgada com o sucesso da primeira temporada, a idealizadora da liga, Mônica Marchetti, anunciou novos investimentos para 2008 e revelou uma parceria com Alessandro Renner para ampliar o projeto. Embora a MTL ainda realizasse mais uma edição, a liga acabaria encerrando suas atividades pouco tempo depois.

Mesmo com vida curta, a Mo Team League deixou um legado importante para o MMA nacional. Em uma época marcada pela hegemonia do Pride FC e pela intensa rivalidade entre academias como Brazilian Top Team, Chute Boxe e Ruas Vale Tudo, a organização conseguiu reunir alguns dos maiores nomes da história do esporte em uma competição por equipes, valorizando atletas, oferecendo premiações inéditas para o mercado brasileiro e apresentando um formato que jamais voltou a ser desenvolvido com a mesma ambição. Quase vinte anos depois, a MTL continua sendo lembrada como um dos projetos mais ousados e inovadores da história do MMA brasileiro.