Leonardo Picciani defende integração entre projetos sociais e alto rendimento como base do esporte no Brasil

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Ex-ministro do Esporte é faixa-preta de jiu-jitsu - Foto: Divulgação

O esporte, especialmente as artes marciais, ocupa um lugar central na trajetória pessoal e política de Leonardo Picciani. Ex-ministro do Esporte durante os Jogos Olímpicos do Rio, ele associa a prática esportiva a valores formativos e à construção de políticas públicas que conectem base social e alto rendimento, um modelo que, segundo ele, se consolidou de forma espontânea no país.

Picciani começou cedo nas modalidades de combate. “Eu sempre pratiquei esporte, desde criança. Comecei criança praticando esporte de luta, judô, depois o jiu-jitsu”, afirma o faixa-preta de jiu-jitsu. Ao longo dos anos, diversificou a rotina com ciclismo e, atualmente, mantém treinos voltados à saúde.

Ex-ministro do Esporte é faixa-preta de jiu-jitsu – Foto: Divulgação

Ele aponta o impacto direto das lutas na formação pessoal: “Os esportes de artes marciais trazem muitos ensinamentos, muitos valores que são muito importantes para a vida. Primeiro, valores de respeito. Sobretudo aprender a lidar com vitória, aprender a lidar com a derrota, aprender a cair e levantar”.

A experiência no Ministério do Esporte, assumido a menos de três meses da abertura da Olimpíada de 2016, é tratada como um ponto fora da curva na carreira. “Foi uma surpresa, porque eu assumi o ministério faltando 87 dias para o início dos Jogos”, lembra.

Mesmo em meio à instabilidade política do período, ele destaca o resultado do evento: “Foi a oportunidade de estar no momento crucial da realização de um evento que é um evento da humanidade, representando o governo do meu país. Os Jogos Olímpicos foram um grande sucesso”.

Ao avaliar o legado olímpico, Picciani aponta ganhos estruturais e simbólicos, mas também críticas ao período posterior. “Trouxe não só o legado material, mas trouxe um legado imaterial, que foi aproximar ainda mais o brasileiro do esporte”, diz.

Em seguida, faz uma ressalva: “O maior equívoco foi, sem dúvida nenhuma, o período entre 2019 e 2023, quando o governo federal à época optou pela extinção do Ministério do Esporte. Isso eu considero um erro gravíssimo”.

Na discussão sobre modelos esportivos, o ex-ministro rejeita fórmulas importadas e defende uma construção baseada na realidade brasileira. Para ele, o país encontrou um caminho próprio ao combinar inclusão social com formação de atletas. “A gente precisa levar o esporte para cada rincão, para cada canto do Brasil; e, a partir daí, dar a oportunidade de avanço a quem tem talento para seguir”, afirma.

Esse modelo, segundo Picciani, passa pela ampliação do acesso e pela diversidade de modalidades. Ele usa o futebol como exemplo de capilaridade: “O futebol é uma modalidade que está universalizada. Se a gente universalizar outras modalidades, nós vamos ter muito mais talento”. Para isso, aponta a importância de competições regionais e da estrutura descentralizada, que permite a descoberta de atletas fora dos grandes centros.

As artes marciais aparecem, nesse contexto, como ferramenta estratégica. Além do potencial competitivo, ele destaca o papel social das lutas na formação de jovens. “O esporte é uma ferramenta que pode vir associada à educação, à saúde, à segurança pública”, afirma. E completa: “Você ocupa o tempo do jovem, não permite que ele tenha tempo livre para buscar coisas erradas”.

Picciani também relaciona o esporte a temas contemporâneos, como saúde mental e uso excessivo de tecnologia. “O mundo hoje briga contra a hiperconexão e o esporte é uma oportunidade. O tempo que o garoto está ali treinando, ele não está no celular”, diz.

Ao longo da entrevista, o ex-ministro ratificou a ideia de que o esporte atravessa diferentes áreas da vida pública. “O esporte atravessa segurança, educação, economia, saúde mental. É uma transversalidade”, resume. Para ele, a consolidação desse papel depende menos de modelos prontos e mais da capacidade de ampliar o acesso e integrar iniciativas, do projeto social à formação de atletas de elite.