6º Mundial: Margarida finaliza Saulo, fatura dois ouros e vira o novo rei do Jiu-Jitsu

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Margarida vencendo Saulo na final do peso

Após dois vice-campeonatos no Mundial 2000, o fenômeno do Jiu-Jitsu brasileiro,
Fernando “Margarida” Pontes, voltou com tudo neste 6º  Mundial e, após vencer Rodrigo Comprido e Saulo Ribeiro (duas vezes), faturou peso e absoluto e mostrou porque já merecia a coroa de número 1 do esporte. Outros grandes destaques desta edição foram Ricardo Vieira, Vitor Shaolin e Ronaldo Jacaré. O irmão de Leozinho estreou na preta tirando a invencibilidade do pentacampeão Robinho; já Shaolin, subiu para os médios e, após finalizar seus primeiros adversários, faturou o ouro de virada em cima de Fernando Tererê. 

Na faixa roxa Ronaldo Jacaré deu show faturando peso e absoluto ao finalizar 10 de seus 11 adversários. Só vencendo por pontos Fabricio Werdum na final do absoluto por um elástico placar de 14 x 0.      

Texto Luciano Andrade e Marcelo Alonso

Fotos Marcelo Alonso

No alto do pódio do absoluto ao lado de Saulo, Comprido e Pé de Pano

MARGARIDA 13  X 8 COMPRIDO: A MELHOR LUTA DO MUNDIAL

A trajetória do grande nome deste Mundial 2001 começou no sábado. Em seus dois primeiros combates, “Margá” (Brazilian Top Team) pegou duas pedreiras do Jiu-Jitsu paulista e velhos conhecidos do lutador do Brazilian Top Team: Paulo Streckert e Adriano Maciel. Ambos não foram páreo para o campeão e, após alguns minutos de intensa movimentação, acabaram tendo o mesmo destino da maioria dos atletas que já cruzaram com Margarida: foram finalizados. 

Na mesma chave, quem vinha tendo desempenho à altura era o forte Léo Dalla (Big Brothers), que em sua primeira luta o discípulo de Jorge Pereira finalizou Cachorrinho com uma chave de pé. Na segunda eliminou Nilton Cadan com uma omoplata. Na sequência, porém Dalla não foi páreo para Margarida, que o finalizou com um armlock.

Enquanto isso, do outro lado da chave, o campeão mundial absoluto de 2000, Rodrigo Comprido eliminava Cássio Werneck (9×2), chegando à semifinal para lutar contra Margarida. Nessa que foi considerada a melhor luta desse 6º mundial. 

Comprido abriu o placar, mas logo permitiu que Margarida virasse para 7×2 (passagem de guarda e montada) e passasse a mandar no placar. “Eu tinha feito uma estratégia e na hora que a gente caiu pra baixo, ali eu parei. O cara caiu montado e acabou com a minha estratégia. Estava com sete pontos de desvantagem e tendo que correr atrás” , reconheceu Comprido após a luta. Na sequência, Margá foi logo abrindo para 9×2 e ficando tranquilo no placar. A partir daí a cada 2 pontos que Comprido tirava de diferença, Margarida fazia mais 2, mantendo sempre 5 ou 7 pontos de vantagem. E, numa luta super movimentada e cheia de lances de muita técnica, essa diferença se manteve até o final com a vitória de Margarida por 13×8. Vale lembrar que a melhor chance de finalização veio para Comprido, com um estrangulamento pelas costas.

Comprido não só perdeu a posição como, na ânsia de finalizar, não aproveitou para fazer os 4 pontos. Margarida desentalou Comprido de sua garganta, pois havia perdido os dois combates travados entre ambos anteriormente (todos na faixa preta). “Ele foi melhor hoje. Mas não tem problema, teremos muitos campeonatos para lutar”. declarou o campeão mundial absoluto de 2000.

Depois de perder para Comprido em 2000, Margarida o eliminou na melhor luta da competição


Na chave oposta, Saulo Ribeiro (Gracie Humaitá) também fazia das suas,
finalizando o paulista Marcos Scheffer, o “Boto” , passando por Leandro Borgo
(Alliance) (2×0), Pé de Pano (WO) e se habilitando para fazer uma grande final de absoluto no dia seguinte, na luta que seria a última do campeonato. Mas antes a história iria continuar na categoria meio-pesado, onde ambos os atletas (Saulo e Margarida) estavam inscritos, prometendo mais uma final para o dia seguinte…

No domingo tivemos outras grandes lutas proporcionadas pelos dois. Saulo passou várias feras e Margarida não fez por menos, continuou dando seu show. Na categoria, o paulista teve sua luta mais tensa no Mundial, contra “Jamelão” (Alliance). Apesar de ter dominado o combate do início ao fim, Margarida teve que enfrentar a catimba do adversário, que evitou muito a luta em seus minutos iniciais após discordar da atuação do árbitro, que deixou de lhe dar dois pontos no início da luta. Após a birra inicial, o atleta da Alliance resolveu entrar no combate, fazendo um esperto jogo de meia-guarda, mas não conseguindo virar o resultado favorável ao adversário. Outro que não conseguiu parar o paulista foi Roberto “Gordo” (B. Gracie), que acabou perdendo por 9×2. Da última vez em que haviam se enfrentado (Brasileiro 2000), Gordo havia sido finalizado com uma kimura na meia-guarda. E agora a cena final deste filme, ou pelo menos para a cena final desta categoria…. Fernando Pontes x Saulo Ribeiro na final do meio-pesado. Esse seria o primeiro e mais incrível capítulo deste combate de titãs. Saulo entrava com sua invencibilidade em Mundiais. Além de campeão das últimas quatro edições do evento, Saulo também lutara em 1996, quando abriu para seu companheiro Renato Barreto na semifinal da categoria leve (73kg), terminado com a terceira colocação (oficial) neste que foi o primeiro Mundial da Arte Suave. Já Margarida entrava como (ao lado de Pé de Pano) o grande nome do Jiu-Jitsu esportivo na atualidade.

FINALIZANDO UM INVICTO 

Saulo, para variar, começou na frente no placar (2×0) com uma queda dando a impressão de que manteria a vantagem até o final da luta. Margarida, após tentar, sem sucesso, se movimentar no chão, resolveu aceitar novamente o combate em pé, onde, com duas boas quedas, virou o placar (4×2) e, a partir daí, não mais perdeu o controle do jogo. Forçando o ritmo, Margá passou a guarda e botou o joelho na barriga, fazendo 9×2 e tirando todas as chances de um já cansado Saulo. E foi a falta de ritmo do aluno de Royler que precipitou o fim da luta. Já sem gás para reagir, Saulo não conseguiu defender um forte estrangulamento lateral de Margarida aos 7 minutos e meio de luta e acabou finalizado. A torcida da Gracie Humaitá calou. “Calma que tem outra”, sussurrou Saulo ao ouvido do radiante atleta da Top Team. Após a festa de Margarida o campeonato seguiu com as outras finais, guardando o segundo capítulo do duelo Saulo x Margarida para o final do evento.

Margarida venceu Saulo na final

SAULO X MARGARIDA 2 


Ao contrário da primeira luta, onde ambos os lutadores entraram para fazer uma luta franca, desta vez o atleta da Gracie Humaitá entrou para fazer uma luta mais tática, tentando conter o Ímpeto de Margarida e lhe dar o troco da final do meio-pesado. A tática era botar para baixo e administrar o resultado, tentando conseguir bons momentos para passar a guarda e mandar no placar. Só que mais uma vez Margarida mostrou que evoluiu bastante no Judô e abriu o placar com uma queda (2×0). Após o golpe, a luta voltou para o alto e rolou assim durante 90% do tempo, se tornando até certo ponto monótona para o público que tinha visto o show anterior. No final, o combate voltou para o chão com Margarida dando blitz para passar a guarda, mas o tempo acabou. Margarida 2×0 Saulo. Ao término do combate, Saulo levantou o braço de Margarida, reconhecendo: “Ele é o número 1”.  “Eu decidi lutar tem umas três semanas porque acho que é um evento que ninguém pode ficar de fora, acho que o evento número 1 do mundo é o Campeonato Mundialde Jiu-Jitsu. Com relação ao Margarida hoje realmente ele foi bem superior ao resto do pessoal e com certeza seria uma injustiça se eu fosse campeão porque hoje não me apresentei no meu melhor dia. Acho que foi mais que merecida a vitória dele”, me disse Saulo na saída do tatame. De quebra, o paulista ainda ganhou uma Scooter de um dos patrocinadores do evento (Koral Kimonos), dando uma voltinha no tatame com a “Ninja” 

RICARDO VIEIRA TIRA INVENCIBILIDADE DE ROBINHO 

Além de Saulo, o único atleta que havia lutado em todas as edições do Mundial e jamais perdera era Robson Moura (Nova União), o “Robinho”, dono da categoria pluma por anos a fio. Ex-dono, diga-se de passagem. Após vencer bem seus primeiros oponentes, Robinho e Ricardo Vieira (Alliance), irmão de “Leozinho”, se pegaram na semifinal, na verdade uma decisão antecipada da categoria. A luta foi muito dura e só foi decidida nos cinco segundos finais. Apesar do maior ímpeto de “Ricardinho”, Robinho conseguiu mais precisão em seus golpes, fato que lhe colocou sempre no comando do placar, mesmo que sua vantagem estivesse sempre em risco. A partir da segunda metade da luta ficou claro que Ricardinho estava mais bem preparado fisicamente e apresentava um ritmo superior, obrigando o atleta da Nova União a amarrar por cima em determinados momentos para manter sua vantagem. Com 2×0 no placar (e perdendo nas vantagens por 5×4), jogando por cima e a luta caminhando para os seus 15 segundos finais, a vitória parecia certa para Robinho. Só que na sua derradeira tentativa de passagem a luta foi para fora da área de combate, forçando o juiz a recomeçá-la em pé. Faltando dez segundos, Ricardinho entra voando nas pernas de um desconcentrado Robinho e empatando a luta em 2×2. Assim que o juiz “Cabelinho” solta os dedos para dar a pontuação, o mesário sopra o apito, decretando o fim da contenda. Com uma vantagem de diferença, Ricardinho está classificado para a final, que seria contra outra atleta da Nova União, Daniel “Beleza”, do Ceará. A final foi muito dura e Ricardinho acabou vencendo novamente por apenas uma vantagem de diferença (2×1) numa luta igual nos pontos, ou na falta deles (0x0). Só que diferente da semifinal, o atleta da Alliance esteve sempre à frente no placar, não tendo corrido nenhum risco de perder a luta, visto o adversário ter trabalhado o tempo inteiro de guarda aberta, visando apenas a defesa e, portanto, levando pouco perigo no decorrer da luta. “Eu tenho um título na azul, um na roxa e dois na marrom. Esse meu primeiro ano de preta foi o melhor da minha vida. Hoje é aniversário do meu pai, e eu queria dedicar essa medalha pra ele. Eu praticamente não tinha esperança de ganhar, claro que a gente vem pra competir, mas por ser o primeiro campeonato não tinha esta expectativa. Mas lutei com fé e a minha equipe, meus irmãos Léo e Leandro, e o Rodrigo (Comprido) me passaram segurança. Todos os meus amigos diziam que eu era o melhor e provei que no momento estou sendo o melhor”, declarou radiante o novo campeão mundial, carrasco do maior nome da categoria nos últimos anos.

PAIXÃO E SHAOLIN 

Depois da categoria absoluto, que rolou com um show de finalizações, e de Margarida, estrela maior do show, as melhores lutas rolaram nos pesos pena e médio, respectivamente, tendo seus campeões se apresentado como os outros grandes nomes do evento. Fredson Paixão (Oswaldo Alves) finalizou quase todo mundo, mostrando porque era realmente o grande favorito para vencer a categoria pena. Após detonar nomes como Pablo Rodrigo e Yuki Nakai (este último vítima da famosa “mão de vaca” de Fredson logo no primeiro minuto de luta), Paixão finalizou o outro favorito da categoria (Marcos Barbosa) rapidamente. Barbosa caiu com um estrangulamento pelas costas, classificando Fredson para a final. Esta seria contra o outro Fredson, o Alves (aluno de Royler), que teve que suar bem mais o kimono para chegar lá , fazendo luta duríssima contra Reinaldo Ribeiro (aluno de Castello Branco). Conhecendo bem o jogo do xará, Alves fez uma boa luta, dando pinta de que iria ganhar. Só que Paixão tirou uma raspagem da cartola e acabou vencendo mais essa (2×0), se sagrando campeão mundial e dando o troco do ano anterior, quando perdeu para Alves por pontos. É a terceira luta entre os dois na faixa preta. Paixão ganhou as duas últimas por pontos. “Desde o ano passado, quando perdi o Mundial, que venho treinando, treinando… basicamente não saía da academia. Voltei pra ganhar. Sofri muito, mas consegui. Meu objetivo era o Mundial e consegui, graças a Deus”.

SHAOLIN VENCE TERERÊ NO MÉDIO 


Já Vitor Shaolin (N. União), que iria fazer um trabalho para perder 8kg e lutar no pena para enfrentar Royler Gracie, acabou, no final das contas, indo parar no médio. Por quê? Primeiro porque Royler anunciou na imprensa que não iria lutar o Mundial e, segundo, porque na sua categoria normal (leve), sua equipe contava com mais dois atletas de ponta, com chances de faturar o título (Léo Santos e Rodrigo “Feijão”). Então nada mais lógico do que o mais pesado dos três (Shaolin) subir para o médio, aliás como grande favorito da categoria ao lado de Fernando Tererê (Alliance). E não deu outra. Se por um lado, Tererê foi ganhando de todo mundo por pontos, inclusive Bruno Severiano (Gracie Ipanema – 5×0), dando o troco da final do último Panamericano (quando perdeu por 2×1 nas vantagens), o discípulo de Pederneiras foi finalizando seus oponentes. Na sua primeira participação demorou pouco mais de 2 minutos para finalizar o forte Leandro Borgo com um rápido e preciso estrangulamento pelas costas. Na segunda luta, Shaolin eliminou o talento de Manaus, Rodrigo Pinheiro. Rolavam pouco mais de quatro minutos de luta e Shaolin, que vencia por 6×0, partia para seu terceiro ou quarto ataque de estrangulamento pelas costas, quando, pelo mesmo número de vezes, Pinheiro fugia do tatame para escapar da má situação. Numa atitude correta e rara entre juízes, o paulista Jorge “Macaco” Patino não pensou duas vezes e mandou o manauara mais cedo para casa (desclassificação). Na semifinal, a vítima foi Bruno Fernandes (Barra Gracie), que também não passou dos dez minutos regulamentares de luta, rodando num estrangulamento de gola. Final
Shaolin x Tererê. 

Tererê, que já havia perdido de quimono para o atleta da Nova União em duas ocasiões, nas duas jogando por cima, desta vez partiu para o seu fortíssimo jogo de meia-guarda, complicando Shaolin. Apesar de estar sempre na vantagem, o atleta da Nova União não conseguia se livrar das pernas de Tererê, correndo o risco de ser raspado e ficar atrás no placar. E foi o que aconteceu aos 7 minutos e meio de luta. Tererê consegui inverter e fazer 2×0, porém recebeu o troco logo em seguida. Sabendo que não poderia deixar Tererê se ajeitar por cima, Vitor logo explodiu tentando inverter. Tererê ainda conseguiu ficar em pé, mas Shaolin botou para baixo, empatou em 2×2, abriu mais duas vantagens de meia-guarda e acabou levando para casa seu terceiro título seguido na faixa preta. 

Shaolin venceu Terere na final do peso médio

FEITOSA LEVA O BI NOS LEVES


Após ter terminado em segundo lugar na categoria leve nos últimos três anos (uma derrota para Leonardo Vieira e duas para Shaolin), Márcio Feitosa (B. Gracie) deu a volta por cima e, com a categoria de sempre, conseguiu impor mais uma vez seu jogo preciso e eficiente aos adversários. Na verdade, Márcio não teve nem que lutar a final, pois seu adversário, Léo Santos (N.União), deslocou o ombro em sua semifinal e não teve condições de luta. Nesta semifinal, Santos venceu Gustavo Corrêa por 4×0 em combate muito duro. A luta mais difícil de Feitosa foi a semifinal contra Rodrigo “Feijão” que, mesmo vencendo em vantagens (3×1), acabou perdendo graças a uma queda aplica pelo aluno da Barra Gracie, que então venceu por 2×0 (pontos). Além de Shaolin, atual campeão da categoria, a grande ausência neste peso foi a do casca-grossa “Leozinho” (Alliance), que se tivesse lutado com certeza iria para a disputa do título, pra não falar da falta que fez ao espetáculo em si, pois de todas as feras da categoria é o que tem o jogo mais bonito de se ver. Outro feito digno de nota foi a luta eliminatória na qual Feitosa fez 47 X 0 em Yamashiro, recorde em competições de Jiu-Jitsu. O recorde anterior era de Shaolin, que no Estadual do Rio, em 1999, venceu “Cabelinho” (Barra Gracie) por 36X0. Royler Gracie já havia colocado 64 pontos em cima de Léo Dalla no I Desafio da Praia de Copacabana, mas esta luta estava programada para 30 minutos, tendo durado cerca de 27 (Royler ainda finalizou Dalla com um estrangulamento pelas costas).

KIKI PULA DA ROXA PRA PRETA E LEVA PRATA


No peso galo, tradicionalmente dominado pelo manauara Omar Salum (que não disputou o Mundial) quem se deu bem foram os atletas da academia Nova União. Bernardo “Pitéu” (aluno de João Roque) e Arlisson “Kiki” Mello passaram o carro em seus oponentes e fecharam a categoria, fazendo uma bonita “luta” na final. Pitéu ficou em primeiro e Kiki em segundo. A curiosidade foi que até um mês antes do Mundial, Kiki era faixa roxa. Foi promovido para a marrom, faixa na qual ficou menos de um mês, pois acabou sendo promovido à preta em virtude do que vinha apresentado nos treinos de academia. Seus professores acharam que ele teria condição de levar o caneco, pagaram pra ver e se deram bem.

COMPRIDO E GURGEL FECHAM NO PESADO


No pesado, foi a vez da Alliance dar as cartas com as feras Fabio Gurgel e Rodrigo Comprido. Ambos mostraram consistência nas lutas preliminares e fecharam a categoria. A luta mais parelha de Comprido nas primeiras fases foi a que o confrontou com André “Marola” (N. União). Comprido venceu por 3×1 nas vantagens, após um 0x0 em pontos. Já Gurgel teve trabalho para vencer o paulista Fábio Leopoldo (uma vantagem de diferença). Na final, Gurgel e Comprido fizeram uma luta demonstração para a Sportv. Após uma dezena de posições acrobáticas e vários pontos para cada atleta, Gurgel levou a melhor, se recuperando da derrota para Margarida no Pan 2001 e mostrando que ainda é o dono da categoria até 91kg. “Esse é meu último mundial, me preparei pra me despedir. Graças a Deus consegui chegar ao meu quarto título mundial e ainda deixar o Comprido no meu lugar pra seguir a trilha do peso pesado. Acho que o Campeonato Mundial se supera a cada ano. Esse ano pela primeira vez a gente não teve o apoio da secretaria de esportes do Rio, mas o Carlinhos está de parabéns por ter conseguido, com um pouco de sacrifício dos atletas, que tiveram que pagar uma inscrição às vezes pesada, realizar um campeonato melhor do que o do ano passado. Estou muito feliz de ter participado do meu sexto Mundial. Acho que sou o único faixa preta a disputar os 6 mundiais, fico muito orgulhoso e feliz de ter saído campeão dessa última etapa”, declarou emocionado o tetracampeão.

MÉDIO LEVA OURO NO SUPER PESADO

super-pesado foi a vez de um atleta do médio dominar. Fernando “Boi” Marques (N. União) passou por oponentes muito duros (e bem mais pesados), como Felipe Moreno (Alliance), e caiu de cara contra o tarimbado Daniel Simões (B.
Gracie) na final. A luta foi pau a pau até quase o seu finalzinho, quando Boi (atual campeão brasileiro de Wrestling no Estilo Livre e Greco-Romano) conseguiu uma rápida inversão, completando o movimento com uma típica técnica de Wrestling e abriu 2×0. Depois, após amarrar um pouquinho o combate, Boi partiu pra dentro e conseguiu a passagem, fazendo 5×0 e selando de vez sua sorte no Mundial, visto que Simões foi vítima de um ataque de cãibras que acabou com toda e qualquer possibilidade sua de reação. Ano passado, em seu primeiro ano de preta, Boi lutou no médio, mas acabou perdendo na semifinal para Tererê (5×0), terminando em terceiro. Esse ano escalou duas posições no pódio. “É a primeira vez que sou campeão, sou de Goiânia e treino apenas com meus alunos. Estava três categorias abaixo (sou médio e joguei no superpesado), achei que ia me dar melhor e consegui. Esta vitória vai para o meu filho Leon, que acabou de nascer e está com quarenta dias”


2X CORLETA X PÉ DE PANO

O duelo começou no dia anterior nas eliminatórias do absoluto. Após finalizar Walter Broca com um kata gatami Pe de Pano lutou com o aluno de Flávio Behring Marcio Corleta na segunda fase da categoria. Com uma grave entorse no pé, “Pé de Pano” quase bateu quando Corleta lhe encaixou uma chave no pé machucado, mas teve garra para sair da posição, partir para dentro e finalizar. Venceu a luta, mas agravou o problema no pé e resolveu retirar-se na disputa (enfrentaria Saulo Ribeiro na semifinal da categoria). “Meus adversários já estão até comentando que vão atacar diretamente o pé machucado, mas ainda tenho que ver com o doutor se vai dar pra continuar. Está doendo muito, mas vou tentar continuar”, disse o guerreiro. Pois bem, Pé de Pano tratou de cuidar do pé machucado e, corajosamente, resolveu voltar para lutar a categoria no dia seguinte (domingo). Só que não deu. Recém-chegado à faixa preta depois de papar tudo na marrom, Corleta veio com disposição para dar o troco ao fenômeno da Barra, atacou bastante (inclusive dando vários e perigosos botes no pé machucado do atleta da Barra Gracie) e acabou levando uma apertadíssima vitória por pontos, quebrando a invencibilidade de Pé de Pano na faixa preta. Na final, Corleta mostrou toda a técnica, que o vinha consagrando na faixa marrom, finalizando o duríssimo aluno de Cláudio França, Garth Taylor (pegou no armlock). “Ontem na luta com o Pé-de-Pano eu estava ganhando a luta, dei mole e ele conseguiu me pegar. Hoje, consegui lutar com ele de novo e ganhar para fazer essa final com o Garth, que é muito duro. Já tinha sido duas vezes vice-campeão mundial, estava esperando essa hora há três anos e ela chegou”, declarou Márcio.

 

Pé de Chumbo e Alex Negão sobram na Marrom

 

Na faixa marrom um dos grandes destaques foi o atleta da Top Team Alex “Negão” Paz, que venceu com sobras tanto no pesadíssimo como no absoluto, finalizando vários adversários. “Estou muito emocionado e dedico esta vitória ao Libório e ao Murilo, que ficaram no meu pé o tempo todo para eu treinar porque sou meio preguiçoso. Nenhum Mundial treinei tanto quanto agora e dedico isso também a uma pessoa muito especial que sempre me ajudou que é a minha mãe”., declarou emocionado o faixa marrom.
Também tivemos outros bons destaques na faixa. Délson “Pé de Chumbo” Heleno foi um deles. Mostrando que é atualmente o dono da categoria médio marrom, o aluno de “Bita” mostrou total superioridade sobres seus oponentes e venceu de novo em sua categoria, inclusive mantendo-se invicto neste peso. 

DEMIAN PERDE OURO NO CARA OU COROA


Outro favorito que acabou ficando sem titulo foi Demian Maia. Respaldado por sua grande atuação no brasileiro de equipes de 2000, quando finalizou nomes como Bruno Bastos, Demian terminou em segundo no meio pesado, perdendo na final para Marcel Louzada de maneira inusitada, no cara ou coroa. Com apenas alguns segundos de luta os dois acertaram uma cabeçada um no outro. Devido ao corte e grande sangramento causado pelo choque ambos ficaram impossibilitados de seguir no combate, decidindo o vencedor no cara ou coroa. Entre os demais destaques podemos citar ainda os atletas da
Nova União Bruno Sena e Rafael “Fofite”, que venceram uma luta cada e fecharam o peso galo, repetindo o feito da academia na faixa preta com Kiki e Pitéu. Nos penas quem se deu bem foi o atleta da UGF Rafael “Batata” Nogueira, que venceu a final do peso por pontos e mostrando que já pode subir para a faixa preta. Vale lembrar que os treinos de Wrestling na UGF foram de grande ajuda para a movimentação que Batata imprimiu em suas lutas, assim como serviram para Boi e Shaolin na faixa preta (nos movimentos de inversão). No pluma, Alexandre Lima fez luta dura e polêmica contra Ricardo “Ratinho” Brandão e venceu por apenas uma vantagem de diferença, levando o ouro.

Demian perdeu o ouro para Marcel Louzada no cara ou coroa após uma cabeçada

RONALDO JACARÉ VENCE WERDUM E MAIS 10 NA FAIXA ROXA


Ronaldo “Jacaré”, atleta humilde de Manaus foi disparado, a grande sensação da faixa roxa neste campeonato. Sem exageros, pode-se dizer que ele foi o segundo grande nome deste Mundial após o paulista Margarida. Jacaré fez 11 lutas ao longo do evento, faturando peso (médio) e absoluto. No peso, ele simplesmente finalizou todos os seus combates (seis no
total) e no absoluto finalizou quatro das cinco que fez. 

Sua luta mais impressionante foi na semifinal, quando encaixou um estrangulamento em pleno ar em seu oponente, que acabou apagando. Apesar de neste momento o ginásio já estar vazio em função do horário, o frisson foi grande na plateia. Aluno do Sensei Henrique, Jacaré entrou mais uma vez representando a equipe de Oswaldo Alves que, por tradição, já havia passado vários alunos seus direto da faixa roxa à preta (Sérgio Penha, Fabrício, Paulo
Caruso, Ricardo Azambuja, Paschoal Duarte, Fredson Paixão, etc), Jacaré bem que poderia repetir o feito, mas seu mestre garantiu que não: “O Jacaré ainda vai lutar de roxa no Brasileiro deste ano, depois disso ele vai passar para a faixa marrom, apesar da pressão que venho recebendo para dar-lhe a faixa preta”, declarou o mestre. Após a luta Jacaré fez um desabafo, denunciando um boicote da Federação Amazonense de jiu-jitsu. “Eles deram 20 passagens para atletas sem expressão que tem conchavo com a Federação. Ano passado venci peso e absoluto e mesmo assim tive que pagar a passagem do meu bolso. Não só eu, mas a maioria dos atletas que conseguiram medalhas. Isto é uma sacanagem”, bradou revoltado o campeão.

Com dois ouros Jacaré protestou contra politicagens da federação do amazonas

Além de Jacaré, podemos destacar o faixa roxa americano Kendall Goo e o atleta Michel, que faturou a categoria mais disputada de roxa (pena), deixando todos os favoritos para trás (Pedro Brandão, Marcelino Freitas e “Celsinho”). Sua luta mais difícil foi contra Pedro Brandão (Barra Gracie), quando venceu por 3×1 nas vantagens, após um empate de 2×2 nos pontos. Na final, bateu o atleta Mário Reis (Winner Behring) por 5×2. O detalhe é que a luta foi uma revanche do ano anterior, quando Mário foi campeão na faixa azul, tendo finalizado Michel num de seus combates. No meio-pesado, o vencedor foi Roger Gracie, enquanto no pesado os lutadores Emyr Bussade e Pedro Damasceno fecharam o caixão para a Brazilian Top Team. Pedro ganhou a faixa marrom no pódio. 

FEIMININO GANHA MAIS ESPAÇO


Mais uma vez elas vieram com tudo. Divididas em duas graduações (faixa azul e roxa marrom e preta), elas lotaram todas as categorias e mostraram muita técnica e evolução. Na faixa azul, a grande surpresa da competição foi a americana Erika Montoya, que venceu o peso leve com bonitas finalizações. Na final, ela enfrentou e finalizou uma das favoritas ao título, a atleta Priscila Prandini (Maromba). Destaque também para a jovem revelação Cristiane Yukai (Bonsai), de apenas 14 anos, que ficou com o terceiro lugar na categoria.
A paulista Polyana Lago confirmou sua boa fase e venceu no peso médio, enfrentando muita dureza pela frente. Na final, ela mostrou que estava realmente preparada para vencer. Contra a atleta Lívia Borges, ela não deu chance alguma: passou e montou duas vezes, vencendo por 14×0. No peso Pluma, a amazonense Andreza Façanha (Equipe 3) deu show, surpreendendo na semifinal, uma das favoritas ao título, Kyra Gracie (Soca), sobrinha de Renzo e neta de Robson Gracie que também vinha tendo atuação destacada no evento. Na final, Andreza passou por Camila para garantir o tão sonhado ouro. O peso pena ficou com CJ Mc Lue e em terceiro lugar tivemos a japonesa Aika Sato. Entre as mais pesadas (acima 66kg), a campeã panamericana Mirela Cortez e a campeã mundial Luzia Fernandes se enfrentaram numa emocionante final. Melhor para Luzia, que aplicou um seoi nague na adversária, passou a guarda e finalizou de forma brilhante. De quebra, ainda recebeu a faixa roxa. Parabéns para Polyana, que também ganhou a faixa roxa. Mesmo sem a presença das estrelas Leka Vieira, Janaína Ventura e Daniela Paiva, o feminino faixas roxa, marrom e preta foi um festival de lutas excelentes.

Kyra Gracie em seu primeiro mundial de azul


No médio, a campeã mundial de 2000/faixa azul, Juliana Vieira (Nova União), enfrentou a campeã mundial na roxa, Renata Pimentel. Apesar da guarda fortíssima de Renata, Juliana, nos segundos finais.  conseguiu finalmente passar a guarda, garantindo assim sua vitória nessa categoria muito disputada.


já no peso leve, apesar da excelente atuação de Bianca Bastos, ela acabou sendo finalizada por sua adversária, que ficou com o ouro. No pluma Ana Natasha lutou muito, mas venceu por apenas uma vantagem sua luta final. No pena, já era de se esperar: as faixas pretas Letícia Ribeiro (Gracie) e Bianca fizeram uma grande final. A favorita Letícia Ribeiro acabou sendo finalizada pela duríssima Bianca Andrade com um lindo armlock.

OS GRINGOS CADA VEZ MELHORES 

No ano passado, BJ Penn deu show e garantiu o primeiro “ouro gringo” na faixa preta, sendo eleito como um dos destaques do último Mundial. O sucesso nos tatames levou o havaiano a trilhar caminho do profissionalismo. Após vencer com sobras duas lutas no Ultimate Fighting, se consagrando como o novo fenômeno do peso leve, B) decidiu não vir ao Mundial deste ano.


Sem seu maior expoente na faixa preta, os americanos não conseguiram repetir o feito do ano passado, mas chegaram bem perto. Mostrando grande evolução, Garth Taylor (Cláudio França) venceu dois oponentes, só perdendo na final para Márcio Corleta e garantindo uma medalha de prata para os EUA.


Na faixa roxa super-pesado os americanos dominaram os quatro lugares do pódio. A final da categoria foi uma das melhores do evento, quando o havaiano Kendal Goo venceu o duríssimo Rhadi “The Machine” Ferguson e garantiu o lugar mais alto do pódio e a faixa marrom dada pelo orgulhoso mestre Relson Gracie.


Na faixa azul, o grande destaque foi o norueguês John Olav Einemo – aquele que eliminou Rolls Gracie Jr. e Rigan Machado no ADCC 2001. Após perder de cara na categoria, Einemo soltou os bichos no absoluto, onde finalizou cinco das seis lutas que fez, garantindo a medalha de ouro e a faixa roxa dada no pódio pelo mestre Marcelo “Yogui” (Barra Gracie).
Apesar de não conseguir medalhas, a equipe francesa liderada por Alain Nagera, presidente da Federação Francesa, considerou que houve uma grande evolução em relação aos anos anteriores. “Nosso faixa preta só perdeu de 8×0 para o Jamelão e uma das nossas representantes no feminino só perdeu para a campeã Mundial. Para nos e muito difícil. Temos que lutar contra o oponente e os juízes, que sofrem muita pressão da torcida”, desabafou Alain.

O Japão desta vez esteve representado por 20 atletas provenientes de 4 academias diferentes. O número 1 da terra do Sol Nascente, Yuki Nakai, começou bem vencendo por larga margem de pontos o duro Maurício Villardo (Gracie Humaitá), mas acabou batendo na luta seguinte para o campeão Fredson “Rei da Mão de Vaca” Paixão. “Tudo que posso dizer é que ele é muito superior a mim”, reconheceu o humilde presidente da Confederação Japonesa de Jiu-Jitsu, que hoje já conta com quase 10 mil atletas filiados. Neste Mundial dois atletas japoneses conseguiram a medalha de bronze: Shiyoda (galo faixa roxa) e Aika Sato (feminino pena azul), chamando a atenção do árbitro “Sonequinha”. “Estou muito impressionado com o nível técnico de vários atletas do Nakai”, reconheceu o faixa preta. Aliás, se depender do Yuki Nakai, a delegação japonesa será ainda maior no ano que vem: “Sempre digo aos meus alunos no Japão que a única maneira de testar seu jiu-Jitsu de verdade é vindo lutar no Brasil”, revelou Yuki, admitindo que seu maior objetivo é conseguir o ouro num Campeonato Mundial.