AJP Tour: Abu Dhabi investe no jiu-jitsu brasileiro

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ADXC 3 aconteceu no último final de semana, em Balneário Camboriú-SC - Divulgação

O interesse de Abu Dhabi pelo jiu jitsu brasileiro não é novidade. Desde o fim dos anos 90, a cidade, que é reconhecida mundialmente como uma potência econômica e por investimentos em infraestrutura, atrai os holofotes do mundo das artes marciais através de megaeventos de lutas. No entanto, de uma década para cá, os investimentos na modalidade cresceram significantemente, e a chegada de players como a Abu Dhabi Jiu Jitsu Pro (AJP), o Abu Dhabi Extreme Championship (ADXC) e, mais recentemente, a plataforma de transmissão online TX7 colocaram a capital dos Emirados Árabes como uma das referências do jiu jitsu internacional na atualidade.

ADXC 3 aconteceu no último final de semana, em Balneário Camboriú-SC – Divulgação

Hoje, Abu Dhabi, através da AJP, organiza dezenas de competições mensalmente em todos os continentes, e impacta diretamente a vida de milhares de atletas, professores, empreendedores e marcas ligadas ao jiu jitsu no mundo inteiro. A expertise na realização de megaeventos e a valorização dos atletas financeiramente se tornaram marcas registradas da entidade, e tem feito com que os lutadores deixem de lado o amadorismo das federações mais tradicionais em prol do profissionalismo e das perspectivas futuras oferecidas pelos eventos árabes.

“O que Abu Dhabi faz pelo jiu jitsu internacional é incrível. Além de valorizarem os atletas financeiramente, com premiações em dinheiro, bolsas, eles nos colocam como os protagonistas do evento, as grandes estrelas. E acho que é assim que deve ser mesmo. Toda a estrutura é incrível, passa uma imagem mais profissional do nosso esporte e aproxima marcas e empresários também que querem investir e patrocinar atletas”, analisa o faixa preta Jonnatas Gracie, um dos grandes talentos da atualidade.

Neste cenário, o Brasil se tornou um parceiro estratégico para Abu Dhabi. Somente em 2024, serão nove competições produzidas pela AJP no país, entre elas o Grand Slam e o South America Continental Pro, duas das principais do calendário internacional. Além disso, foi o primeiro país a receber uma filial da ADMA (Abu Dhabi Martial Arts Academy), academia de lutas referência, no Oriente Médio, e também a sediar uma edição do ADXC fora dos Emirados Árabes Unidos, dia 2 de março, em Balneário Camboriú, Santa Catarina. O evento fez parte da BC Fight Week, projeto idealizado pelos árabes em parceria com a prefeitura da cidade catarinense, que promoveu uma semana de lutas, com campeonatos internacionais de jiu jitsu, grappling e MMA, apresentações de projetos sociais e seminários com estrelas do esporte.

“Foi um prazer realizar o ADXC 3 no Brasil, garantimos aos fãs um evento repleto de lutas emocionantes com os melhores lutadores de Jiu-Jitsu do Brasil e do mundo. Esta etapa reflete o nosso reconhecimento da importância da cooperação entre o UAE e o Brasil no campo dos esportes, advindo da paixão e excelência compartilhadas pelo Jiu-Jitsu”, afirma Tareq Al Bahri, Gerente Geral da International Vision Sports Management (IVSM).

Mais visibilidade, mais patrocínio

Os eventos promovidos por Abu Dhabi proporcionam uma visibilidade significativa não só para professores e atletas, mas também para as marcas ligadas ao esporte. Algumas empresas têm buscado associar suas imagens aos valores, profissionalismo e credibilidade dos eventos árabes por meio de patrocínios e parcerias. Essa estratégia não apenas promove as marcas, mas também destaca o compromisso com os princípios fundamentais do Jiu-Jitsu, como disciplina e respeito, estabelecendo conexões duradouras com a comunidade do esporte. Esse é o caso da Brazil Combat, tradicional fabricante de quimonos e acessórios de Jiu Jitsu.

“É fundamental para nós termos eventos dessa qualidade e dessa grandeza como os organizados pela AJP. Dão uma visibilidade internacional para os atletas e consequentemente às marcas que os apoiam, agregando valor aos produtos e aos negócios. Além disso , nos obriga também a estarmos buscando sempre o aperfeiçoamento para seguir no nível exigido pelo mercado. Sem dúvidas, todos ganham”, afirma Fabrício Brito, dono da Brazil Combat, uma das mais tradicionais empresas de equipamentos de jiu jitsu do Brasil.

Benefícios além dos tatames

Os eventos de Abu Dhabi vão além da competição esportiva, desempenhando um papel vital no intercâmbio cultural. Recentemente, jovens do Complexo da Maré, no Rio de Janeiro, participaram do World Pro, em Abu Dhabi, proporcionando uma oportunidade única de troca de conhecimento e experiências. Esse intercâmbio não apenas eleva o nível técnico dos atletas brasileiros, mas também enriquece a diversidade no cenário global do Jiu-Jitsu.

“Fomos segundo ano consecutivo, foi um sonho realizado. Levei 36 jovens de comunidade. Era algo muito distante da nossa realidade, mas com muito trabalho conseguimos. Foi muito enriquecedor não só pelos resultados mas por toda a experiência, os contatos feitos. Estamos inclusive negociando um apoio para o nosso projeto a partir dessa ida para Abu Dhabi”, conta Douglas Gentil, faixa preta e líder do projeto social Maré Top Team.

Outro benefício é na economia local. Os eventos organizados pela AJP impulsionam o turismo nacional, atraindo visitantes interessados na atmosfera única dessas competições de classe mundial. O jiu jitsu, assim, se consolida como um veículo não apenas esportivo, mas cultural e turístico, promovendo conexões além das fronteiras. Esse é o caso de Balneário Camboriú, que recebeu a BC Fight Week na última semana, com a realização do South America Continental, do ADXC e do UAE Warriors, entre os dias 1 e 3 de março.

“A gente já está saindo na fase de alta temporada aqui em Balneário, então a vinda desses eventos para cá são muito importantes para a cidade porque movimenta a rede hoteleira. Hoje, estamos com quase 80% de ocupação, o que é muito bom para esse período”, revela Thiago Velasques, secretário de turismo de Balneário Camboriú.

Mais de mil professores brasileiros vivem no UAE

Além de abrir oportunidades dentro do Brasil, a relação entre Emirados Árabes e o jiu jitsu também possibilita que professores brasileiros levem uma vida mais confortável fora do país através da arte suave. Isto porque, os Emirados Árabes tem um projeto que inclui a prática da modalidade em todas as bases do exército militar, nas polícias, escolas e academias. E, os responsáveis pelas aulas são majoritariamente brasileiros.

A empresa responsável por fazer a seleção e a distribuição dos professores é a Palm Sports. Segundo a companhia, atualmente, mais de 900 brasileiros integram o quadro de funcionários e dão aulas na região. O salário inicial é de 15 mil dirham (aproximadamente R$ 20 mil), e para concorrer às vagas, os candidatos devem se cadastrar no site da própria empresa. Entre os pré-requisitos principais estão o diploma de faixa preta e um bom conhecimento da língua inglesa.

“Todos os professores que se cadastram no nosso site e demonstram interesse em fazer parte do projeto participam da entrevista. Mas ela é feita presencialmente em nosso escritório, em Abu Dhabi. Então muitas vezes acaba sendo um empecilho para alguns. Mas a principal dificuldade que observo é o inglês. Vejo que muitos não se preparam realmente para essa oportunidade. Muitos são capacitados tecnicamente para a vaga porém sem conseguir se comunicar fica muito difícil. Como você irá reportar um problema para os superiores, como irá resolver alguma questão em sua aula com os alunos? Por isso o conselho que dou é esse. Estudem inglês”, aconselha Pedro Damasceno, responsável pelo recrutamento da Palm Sports.

De Niterói, Rio de Janeiro, Pedro chegou a Abu Dhabi em 2009 como um dos primeiros professores contratados pelo projeto. Hoje, ocupa um cargo executivo além de ser comentarista do World Pro na Abu Dhabi Sport TV.

“Esse projeto mudou a minha vida, por isso posso falar com propriedade para os professores que sonham em fazer parte. Estudem, se preparem, invistam no sonhos e vocês. Ninguém vai aprender a falar inglês de uma hora para outra, é difícil, então se você tem esse desejo de vir para cá, comece a se preparar para isso. Não basta ser bom de jiu jitsu”.