Ebenezer nocauteia Rei Zulú e mais dois em torneio de Vale-Tudo em Belém

Após defender uma tentativa de queda Ebenezer derrubou Zulú com uma joelhada

Imagine que você é um lutador de 93kg e é convidado a participar de um torneio de Vale-Tudo sem limite de peso e nem regras (Valendo cotovelada, tiro de meta e pisão) e só receberá o prêmio se vencer as três lutas. Adicione a esta receita explosiva um laudo médico dando conta de que seu menisco acaba de se romper no último treino antes da viagem. Para piorar ao chegar em Belém, local do evento, você ainda cai do pior lado da chave tendo que enfrentar os dois lutadores mais pesados, que tem o apoio da torcida local e, na final, o lendário Rei Zulú.    

Ebenezer Braga em ação – Fotos Marcelo Alonso

   Na atual conjuntura do MMA onde lutadores profissionais são regidos por regras com vistas a proteger sua integridade, o caso acima parece até ficção, mas de fato aconteceu há 26 anos e o protagonista desta história chama-se Ebenezer Fontes Braga.

Se não tivesse testemunhado os bastidores daquele 2º Free Style de Belém, realizado pelos empresários Jael e Mario Rosseti no dia 30 de agosto de 1996 no ginásio da Escola Superior de Educação Física de Belém, certamente não acreditaria. “Aquilo foi coisa de doido mesmo”, reconhece hoje Ebenezer. “Tive que tomar uma infiltração no joelho pra viajar. Quando cheguei em Belém os outros 7 lutadores do torneio fizeram uma reunião para sugerir uma mudança contratual com o dono do evento. Ao invés de 10 mil para o campeão, eles queriam 8 mil para o campeão e 2 mil para o vice. Eu bati o pé que estava lá para o tudo ou nada e como todos tinham assinado o contrato não houve mudança”, lembra o primeiro atleta de Cristo do Vale-Tudo brasileiro.   

Vale contextualizar que em 1996, enquanto os eventos de Vale-Tudo estavam escassos no Rio de Janeiro, onde a grande mídia travava uma verdadeira cruzada contra o Jiu-Jitsu e o Vale-Tudo, Belém do Pará vinha se transformando numa espécie de capital nacional do esporte. Ao contrário do Rio, na capital onde Carlos Gracie conheceu Mitsuyo Maeda no inicio do século, a grande imprensa dava ampla cobertura ao esporte, o que acabou levando a uma febre local com diversos eventos por mês. Todos sempre lotados e com muitos patrocinadores o que, aliás, permitiu aos irmãos Jael e Mario disponibilizassem um prêmio muito superior aos padrões nacionais, naquele momento. 

Depois do sucesso da 1º edição com super lutas entre locais, os irmãos empresários Jael e Mario Rosseti decidiram  trazer lutadores de todo o Brasil. Do Maranhão vieram Rei Zulu (1,90/105kg) e Claudionor Fontinelli (1,70m/73kg), menor atleta do torneio. Do Rio, Ebenezer Braga (1,91m/93kg) e Egídio Sombra da Noite(1,89m/84kg). De Belém, Silvio Pantera Negra (1,88/98kg) e Francisco Nonato (1,88m/100kg) e Bira (1,87m/90kg) .

Ebenezer abriu o torneio enfrentando o representante do Jiu-Jitsu, Nonato, que lhe aplicou um knock down logo no inicio da luta, seguido de uma saraivada de socos que derrubaram o representante da Budokan fora do ringue. “Acordei quando cai no chão. Aproveitei que tinha um monte de fios para me recuperar”, lembra Ebenezer, que ao retornar ao ringue conseguiu nocautear Nonato com uma sequência de socos e joelhadas. 

Na segunda luta, Ebenezer enfrentou a promessa local Pantera Negra, que vinha de um nocaute rápido, fazendo a luta mais sangrenta e longa do evento. Depois de 3 rounds onde levou vantagem em pé e no chão, o carioca saiu vencedor na decisão.

Enquanto isso, na outra chave o veterano Rei Zulu, com seus sarados 54 anos, usava toda sua experiência para dominar no chão o boxer carioca Egídio Sombra da Noite, pegando na sequência o conterrâneo Fontenelle que havia vencido o local Bira de 90kg na decisão.

Zulu x Fontenelle

CLASSICO DAVI VS GOLIAS LEVANTA A GALERA 

O clássico David vs Golias nesta segunda semifinal levantou a torcida. Muito popular após travar uma guerra de 30 minutos com o ídolo local Parazinho num outro evento de Vale-Tudo, o pequeno Fontenelle resistiu as investidas iniciais de Zulu, usando sua velocidade. Como de praxe o veterano arrancava gargalhadas do público fazendo suas caretas enquanto buscava encurralar o peso leve. Fontenelle chegou a levantar a galera desequilibrando Zulu com ótimos low kicks mas, numa destas investidas, acabou sendo grampeado pelo peso pesado que o finalizou com uma guilhotina.

No intervalo para a grande final os promotores do evento homenagearam Carlos Gracie Jr., que vinha revolucionando o Jiu-Jitsu com sua CBJJ, tendo acabado de realizar a primeira edição do mundial; e o mestre Oswaldo Alves, grande ícone do Jiu-Jitsu amazonense. Além do ex-lutador Torpedo, que recebeu uma placa das mãos de Rei Zulú, que já o havia enfrentado nos anos 70.

“SENHOR EU NÃO CONSIGO ENXERGAR E NÃO SINTO O JOELHO”

Logo após a série de homenagens fui ao banheiro, que era usado por Ebenezer como vestiário e me deparei com uma cena que nunca mais esquecerei. Debaixo do chuveiro o representante da Budokan, a poucos minutos de voltar ao ringue pela terceira vez, orava alto: “Senhor eu Não sinto mais meu joelho, não consigo mais enxergar direito, não tenho mais força física, me ajude a vencer esta luta o mais rápido possível”.

Sai do banheiro em silêncio ouvindo aquele mantra ser repetido mais algumas vezes me posicionei a beira do ringue. Dali a poucos minutos o announcer do evento chamou os dois lutadores para a grande final. “O Zulú pegou o lado mais fácil da chave e não se desgastou, enquanto eu fiz duas guerras de 39 minutos. Ele sabia que eu estava morto e começou tentando uma baiana, eu defendi com a última força que tinha e o surpreendi com um direto de esquerda, o Zulú sentiu e eu voei com uma joelhada certeira. Quando ele caiu e o James Adler entrou no meio decretando o nocaute técnico eu olhei o cronometro que marcava 1 minuto. Nunca mais me esqueço desta cena”, recorda Ebenezer Braga, que hoje vive nos Estados Unidos e não milita mais no mundo da luta.      

Quando a reportagem sobre este 2º Free Style de Belém foi publicada na revista japonesa Kakutougi Tsushin os empresários japoneses não tardaram a entrar em contato com o mestre João Alberto Barreto  para convidar o lendário lutador de 54 anos, que havia lutado com Rickson duas vezes e ainda estava em atividade. Oito meses mais tarde Rei Zulu era levado ao Japão para enfrentar Enson Inoue no Shooto. O veterano acabaria sofrendo um nocaute técnico em 45 segundos. Zulu ainda continuaria lutando até 2008, quando se aposentou aos 66 anos. Hoje ele tem 80.

Após a vitória em Belém, Ebenezer seria chamado para enfrentar Kevin Randleman no torneio UVF e Dan Severn no IVC 1. Posteriormente seria levado ao UFC e ao Pride. Tendo participado ainda de duas super lutas nas regras do K-1. Ebenezer se aposentaria em 2004 com uma derrota no Jungle Fight 2 para o então novato Fabricio Werdum, que dali a 11 anos se consagraria como campeão do UFC vencendo Cain Velasquez.