IVC 3 em noite de The Pedro e Wallid

Depois de quase 19 minutos de luta, Wallid venceu o rival da Luta-Livre

Fábio Gurgel x Mark Kerr, Wanderlei x Arthur Mariano, Ruas x Taktarov 2, Pelé x Macaco 2, Pelé x Johil. O que todos estes clássicos que marcaram a história do Vale-Tudo nacional tem em comum? Todos foram realizados no suntuoso Hotel Maksoud Plaza em São Paulo, que esta semana fechou as portas.

Em homenagem a este palco tão importante para a história do nosso esporte, relembramos nesta 38º edição do nosso baú, o IVC 3, realizada por Sérgio Batarelli no auditório do primeiro 5 estrelas de São Paulo, no dia 10 de dezembro de 1997.

Dois meses depois do histórico IVC 2, que ficou marcado pela final entre as duas maiores escolas do Muay Thai brasileiro (Chute Boxe e Boxe Thai), naquele sangrento clássico entre Wanderlei e Artur Mariano, Batarelli voltou a apimentar seu evento com uma rivalidade nacional: Jiu-Jitsu e Luta-Livre. Enquanto na super luta Wallid Ismail sobrepujou Johil de Oliveira; no torneio de pesos- pesados, The Pedro, precisou vencer dois representantes do Jiu-Jitsu para faturar o cinturão mais importante do Brasil.

Depois de quase 19 minutos de luta, Wallid venceu o rival da Luta-Livre

Por Marcelo Alonso 

Após o famigerado duelo entre Eugênio Tadeu e Renzo Gracie, que acabou num triste quebra-quebra entre as torcidas do Jiu-Jitsu e da Luta-livre no Tijuca Tênis Clube, uma lição parecia ter ficado clara para os promotores brasileiros: Ainda não era hora de se fazer um evento no Brasil confrontando ícones das duas modalidades, certo?

“Não, pelo menos a 400 km do Rio de Janeiro”, cravou Sérgio Batarelli, que dois meses após aquele Pentagon Combat, organizou a 3º edição do seu IVC no principal palco do Vale-Tudo paullista colocando na super luta, dois dos maiores ícones das duas modalidades: Johil de Oliveira (1,72m/82kg), da Budokan, e Wallid Ismail (1,70m/84kg) da Carlson Gracie.

Apesar de o histórico na luta apontar um leve favoritismo para Wallid, o discípulo de Carlson vinha de uma derrota para Takahashi no UFC 12, enquanto Johil chegava ao evento cheio de moral com 10 vitórias seguidas, sendo a última sobre ninguém menos que Pelé Landy no WVC 4.

E os dois não economizaram gentilezas antes da luta: “Vou passar com a minha Ferrari por cima do fusquinha dele”, alfinetou Wallid, sendo prontamente respondido pelo aluno de João Ricardo e Luiz Alves na conferência de imprensa: “Já encomendei dois caixões, um para ele e outro maior para a língua dele”, disse Johil. 

A rivalidade entre Luta-Livre e Jiu-Jitsu também não podiam faltar nas provocações: “Depois desta luta ele será um novo discípulo do Jiu-Jitsu e eu, como bom homem, serei seu mestre”, ironizou o faixa preta de Carlson, enquanto o representante da Luta-Livre Budokan respondia a altura: “Vou fazer com a cara dele o mesmo que fiz com a do Pelé e depois enterrá-lo numa cova bem funda para ele desenvolver seu Jiu-Jitsu, porque em cima da terra quem domina é a Luta-Livre”.

Wallid apareceu para lutar com uma botinha de Wrestling que não deixava duvidas com relação a sua tática: derrubar e bater, coincidentemente a mesma que consagrara Johil na luta com Pelé no WVC 4. Mas quando a luta começou o elemento surpresa acabou ajudando o representante do Jiu-Jitsu, que partiu para a trocação, encurralando Johil e o derrubando. Este movimento acabaria definindo a luta, uma vez que Ismail passou quase 5 minutos batendo no oponente. Batarelli chegou a interromper a luta e reiniciá-la de pé, mas Johil já bastante machucado e com o olho esquerdo fechado não conseguiu reagir. Ismail derrubou novamente e, após encurralá-lo na rede a beira do ringue, obrigou o representante da Luta-Livre a desistir aos 9min48s de luta. 

Após o confronto os dois se abraçaram e mostraram que o Pentagon Combat seria mesmo o último capítulo da rivalidade entre as duas modalidades. 

The Pedro vence dois do Jiu-Jitsu na mesma noite 

Se a super luta foi marcada por um clássico entre Jiu-Jitsu e Luta-Livre o torneio que valia o cinturão dos pesados do maior evento do Brasil na época acabou sendo marcado por dois confrontos entre as duas modalidades.

Com 13 lutas e apenas três derrotas, The Pedro (1,90m/105kg) chegou ao evento como favorito. “Tem dois atletas do Jiu-Jitsu no torneio, hoje vou vencer os dois e mostrar que sou infinalizável”, me disse antes da luta o figuraço, que estreou dominando inteiramente o confronto com o faixa preta Ismael Souza (1,81m/82kg).

Ismael passou mais de 15 minutos por baixo se defendendo das investidas do representante da Budokan e quando a luta voltou em pé, segurou nas cordas em três oportunidades para não cair e acabou desclassificado aos 18min12s.

No outro lado da chave era a vez do representante do Muay Thai, Sidney Leopardo Negro (1,88m/102kg), incorrer no mesmo erro ao ser clinchado pelo faixa roxa de Jiu-Jitsu Jorge Navalhada (1,71m/91kg). Após três avisos de Batarelli, Sidney também acabou sendo desclassificado aos 2min05s de luta.

O “infinalizável” The Pedro comemorando com os mestres Luiz Alves e João Ricardo

A grande final foi a revanche do 3º frestyle de Belém quando Navalhada venceu The Pedro na decisão. Desta vez porém, The Pedro veio muito melhor preparado e dominou inteiramente o confronto. Navalhada passou a luta inteira por baixo limitando-se a fazer guarda se defendendo dos socos do atleta da Budokan. Após 30min de total domínio os jurados decidiram em favor do representante da Luta-Livre, que passou a ter o cinturão mais importante do Vale-Tudo nacional. No final The Pedro contemporizou apontando o mérito da vitória para ele e não para sua modalidade “Venci o JJ duas vezes nesta noite e provei que não existe melhor luta e sim melhor lutador”. Dali a seis meses The Pedro enfrentaria o maior desafio de sua carreira no Pride 3 quando lutou contra o invicto Mark Kerr e acabou sendo finalizado com uma Kimura a 2min13s de luta. The Pedro voltaria ao caminho das vitórias ao nocautear Silvio Urutum no IVC 8 e só perderia seu cinturão em Janeiro de 1999, quando foi derrotado por Carlão Barreto no IVC 10.