Mauricio “Showgun” Rua: da estreia no Vale-Tudo ao Hall da Fama

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No último sábado, durante o UFC 301, no Rio de Janeiro, um momento em especial emocionou ao fã brasileiro. Pouco antes das lutas de José Aldo e Alexandre Pantoja, as luzes da arena se apagaram e o telão mostrou um compilado de nocautes impressionantes que marcaram a carreira de um dos grandes nomes da história do esporte, Mauricio Shogun Rua. Emocionado com os depoimentos de dezenas de lendas do esporte e aplaudido de pé pela torcida, Shogun se surpreendeu e se emocionou ao ouvir o narrador anunciar sua indução ao Hall da Fama do UFC na ala dos pioneiros do esporte.

Nada mais justo para um lutador que fez história conquistando o cinturão meio pesado do Pride e do UFC, tendo lutado profissionalmente 42 vezes nos seus por 21 anos de carreira.

Mauricio sempre teve como sua característica principal, a busca incessante pelo nocaute. Uma marca registrada de sua carreira desde sua primeira luta em 2002, quando foi apresentado, aos 20 anos, a torcida de Curitiba como o irmão de Murilo Ninja e grande aposta de Wanderlei Silva, que acabara de conquistar o cinturão do Pride nocauteando Kazushi Sakuraba no Pride 13.

Na estreia contra o faixa preta de Jiu-Jitsu, e mestre em Capoeira, Rafael Capoeira, Shogun só precisou de 4 minutos para conseguir um nocaute com um chute na cabeça do oponente. Seis meses depois Maurício voltaria ao Meca e apresentaria uma de suas marcas registradas, o soccer kick, nocauteando Angelo Antonio em apenas 55 segundos no Meca.

Três meses mais tarde, Shogun teria seu teste de fogo enfrentando o bem mais experiente Evangelista Cyborg. Uma guerra de 9min22s que entrou para a história do Vale-Tudo brasileiro como um dos mais emocionantes combates de todos os tempos. Uma luta onde ambos sofreram knock downs, mas onde Shogun daria a volta por cima em vários momentos adversos, vencendo com socos da montada e sendo reconhecido pela primeira vez pela imprensa marcial brasileira como showman do Vale-Tudo e apelidado de Showgun.

Mas antes de levar a nova aposta da Chute Boxe para o Japão, o líder da Chute Boxe Rudimar Fedrigo resolveu aceitar uma proposta dos EUA, testando Shogun num Grand Prix de 3 lutas, o IFC (International Fighting Championship) onde estavam Renato Bablú, Jeremy Horn, Chael Sonnen, Forrest Griffin e o faixa preta brasileiro Erick Wanderlei. Shogun começou nocauteando Wanderlei nos 2º round, mas na semifinal acabou sendo surpreendido por Renato Babalú com uma guilhotina no 3º round. Babalú, que já tinha 26 lutas inclusive com passagens pelo UFC e Rings, acabou sendo o campeão do torneio vencendo na final Jeremy Horn.

Mas a primeira derrota não abalou o interesse do Pride em Shogun. E menos de 1 mês depois, Mauricio estreava no maior evento do mundo nocauteando Akira Shoji no 1º round, fazendo um total de 4 lutas em 3 meses.

O MAIS DIFICIL TORNEIO DA HISTÓRIA

No ano de 2004 Mauricio deixaria de ser reconhecido como o irmão de Ninja, conquistando de vez as graças dos fãs e promotores do evento japonês ao vencer três oponentes seguidos com aquela que viria a ser sua marca registrada, os soccer kicks. Akihiro Gono foi a vítima no Pride Bushido 2 em fevereiro, Namekawa no Pride Bushido 5 em outubro e Kanahara no Pride 29 em Fevereiro de 2005.

Curiosamente foi este impressionante nocaute em Namekawa que levou Mauricio Shogun a ser o 16º escolhido para o Pride GP de 2005 (under 205LBS), entrando como zebra absoluta ao lado de lendas como Dan Henderson, Overeem, Quinton Rampage, Sakuraba, Igor Vovchanchyn, Vitor Belfort, Kevin Randleman, Rogerio Minotouro, Ricardo Arona e o campeão da divisão Wanderlei Silva, que havia vencido o GP de 2003.

Shogun foi escalado de cara contra um dos favoritos, Quinton Rampage Jackson, que havia vencido seu irmão dois meses antes em decisão dividida. Pois Shogun abriu o torneio mostrando que estava chegando para brigar pelo título e nocauteou Rampage com uma sequência de joelhadas, definindo a luta com um tiro de meta.

Dois meses mais tarde nas quartas de final Shogun faria uma das melhores lutas da história do MMA, com o arquirrival da Chute Boxe, Rogerio Minotouro, que havia finalizado

Dan Henderson em sua primeira luta

Os dois travaram uma guerra de 3 rounds onde Shogun surpreendeu mostrando sua versatilidade ao dominar as ações no solo.

Dois meses mais tarde Mauricio voltaria ao Japão preparado para lutar a semifinal e a final na mesma noite, ciente de que se passasse por Overeem, teria que enfrentar o vencedor da guerra entre seu ídolo, Wanderlei, e o maior rival da Chute Boxe, Ricardo Arona.
As duas lutas foram cercada de muita polêmica, enquanto Wanderlei e Arona quase brigaram na encarada, Overeem alfinetou Shogun dizendo que “O Brasil é bom de futebol e Jiu-Jitsu, o que vocês fazem na Chute Boxe não é Muay Thai”. Não muito afeito ao trash talk, Shogun preferiu dar a reposta no ringue, nocauteando Overeem com socos da montada.

Aos 23 anos tinha em suas costas a responsabilidade de vingar o ídolo e consagrar o nome de sua equipe em cima dos inimigos da BTT. E assim o fez nocauteando Ricardo Arona a 2min53s e conquistando o titulo de maior meio pesado do mundo. “O Shogun nocauteou o Overeem e deu omoplata no tetra campeão do ADCC. A Chute Boxe provou hoje que, além de Muay Thai, tem o melhor chão para o Vale-Tudo”, me disse após a luta o treinador de Jiu-Jitsu da Chute Boxe logo após dar a faixa preta para o campeão no vestiário. Já Shogun não conseguia conter a alegria pela maior conquista “Hoje é o dia mais feliz da minha vida. vinguei o Wanderlei, nocauteei o Arona e ainda garanti o 4×2 em cima da BTT”, told me Shogun concerning the score fights between Chute Boxe and BTT by that time.

CINTURÃO DO UFC

Após vencer o GP, Shogun não teve interesse em lutar pelo cinturão linear com o amigo Wanderlei, que quatro meses depois o defendeu vencendo Arona na revanche da semifinal do GP. Entre 2005 e 2007 Shogun manteria seu título de meio pesado mais temido do mundo com vitórias sobre Cyrile Diabate (TKO), Kevin Randleman (knee bar), Nakamura (decision) and Overem (KO). Sua única derrota no Pride seria para Mark Coleman e ocorreria por conta de uma contusão aos 49s de luta quando o brasileiro quebrou o braço por conta de uma queda aplicada por Mark Coleman.

Em 2007 o Pride foi comprado pelo UFC e Shogun seguiu os passos de Wanderlei e saiu da Chute Boxe, montando sua própria equipe. Algo que inicialmente não funcionou bem para Shogun, que sem a cobrança diária dos mestre Rafael e Rudimar e os sparrings duríssimos que costumava ter, caiu de rendimento e acabou sendo finalizado por Forrest Griffin em sua estreia do UFC (76).

Mas definitivamente a derrota fez bem a Rua. Depois de um ano se recuperando de lesões e montando sua própria estrutura de treinos, Mauricio, com a ajuda de seu manager Eduardo Alonso, do irmão Murilo e dos treinadores Sergio Cunha e Andre Dida, voltou a encontrar sua melhor forma. Em 2009 Shogun nocauteou em sequência Mark Coleman e Chuck Liddell e foi disputar o cinturão com o campeão Lyoto Machida, com quem curiosamente já havia treinado na Chute Boxe em 2006. Após perder a primeira disputa de cinturão, em resultado controverso, numa guerra de 5 rounds, no UFC 104, Shogun conseguiu a revanche sete meses depois, no UFC 113, e desta vez nocauteou o campeão no 1º round encerrando a chamada era Machida.

Em sua primeira defesa de cinturão, 10 meses depois, Shogun enfrentou aquele que para muitos é o maior de todos os tempos Jon Jones e foi nocauteado no 3º round. Quatro meses depois protagonizou junto com Minotauro e Anderson Silva a estreia do UFC no Rio, onde teve a chance de devolver a derrota da estreia no UFC para Forrest Griffin.
Na sequencia escreveu seu nome na história novamente fazendo a luta do ano com Dan Henderson, outro duplo campeão (UFC e Pride). Hendo venceu mas as luta foi tão boa que posteriormente colocou ambos no Hall da Fama do UFC.

Deste momento em diante, uma série de contusões, principalmente uma recorrente no Joelho, o levaram a reduzir drasticamente a carga de treinos o que impactou diretamente em sua performance. Entre 2012 e 2023 Shogun fez mais 16 lutas no UFC (8 vitórias e 6 derrotas), mas nunca mais conseguiu trazer de volta as performances que o consagraram no Pride como melhor meio-pesado do mundo. Nada que apagasse porém as lutas antológicas e o legado de glórias que o levou com muita justiça ao Hall da Fama do UFC eternizado entre os maiores da história.