Meca 4: A consagração de Anderson Silva

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Anderson mostrou pela primeira vez mostrando no MMA o que fazia nos treinos na Chute Boxe

Depois de estrear no Meca 1 com derrota, Anderson Silva finalmente mostrou nos ringues, contra Claudionor Fontinelli, um pouco do que vinha fazendo com os colegas de treino na Chute Boxe. O Meca 4, realizado no dia 16 de dezembro de 2000 no ginásio do Circulo Militar em Curitiba, teve ainda Pelé Landi, Assuério Silva, The Pedro, Murilo Ninja e Daniel Acácio em noite de goleada da Chute Boxe sobre a Luta-Livre 4 x 2.

Anderson mostrou pela primeira vez mostrando no MMA o que fazia nos treinos na Chute Boxe

*Texto e Fotos: Marcelo Alonso

Anderson tratoriza criador do Jiugrethai

“O dia que este negão botar em prática nos ringues o que faz na academia, todo mundo vai ficar abismado. O Anderson é um dos caras mais técnicos da Chute Boxe”. Aquele aviso de Sérgio Cunha, um dos mais antigos faixas pretas de Rudimar, no dia da pesagem do Meca 4, me deixou com uma pulga atrás da orelha, afinal de contas para merecer um elogio daqueles treinando todos os dias com nomes como Wanderlei Silva, Pelé Landi e Assuério Silva, aquele tal Anderson deveria estar, no mínimo, dando muito trabalho.

Confesso que até Cunha me chamar a atenção, via Anderson Silva apenas como mais um dos futuros talentos do exército Fedriguiano. Cheguei esta conclusão após assistir sua derrota para Luiz Azeredo no Meca 1 e a vitória sobre o inexpressivo José Barreto no Meca 2.

Enfrentando o experiente Claudionor Fontinelli no Meca 4, no entanto, consegui entender o aviso de Cunha. Afinal já tinha acompanhado dezenas de lutas daquele maranhense casca-grossa, inclusive em torneios sem limite de peso e nunca havia visto ninguém dominá-lo com tamanha facilidade na luta em pé. A postura, a maneira de andar no ringue, de defender as quedas, definitivamente aquele Anderson tinha algo de diferente.  

Na época pesando 78kg, Anderson soube usar sua envergadura (1,88m) com perfeição para dominar inteiramente Claudionor (79kg/1,70m/26a), dando um show de Muay Thai. Após acertar belas sequências de chutes e socos, o chuteboxer encurralou o criador do Jiugrethai (mistura de Jiu-Jitsu, Greco romana e Muay Thai) nas cordas e definiu a luta com uma joelhada certeira aos 4min35. 

Anderson mostrou pela primeira vez mostrando no MMA o que fazia nos treinos na Chute Boxe

O show de Anderson nesta luta acabou lhe rendendo um convite para lutar no Japão três meses depois. E, após vencer Tetsuyo Kato por decisão unânime, o talento apontado por Sérgio Cunha, conquistaria o cinturão do Shooto até 76kg ao vencer o campeoníssimo Hayato Sakurai, oito meses depois daquele Meca 4. 

Após conquistar o cinturão, o lutador, que até então dividia sua rotina entre os treinos na Chute Boxe e o trabalho como atendente de uma filial do Mc Donalds no Batel, abandonou o emprego e passou a se dedicar só aos treinos. Se treinando pouco, Anderson já se destacava nos treinos da Chute Boxe, quando passou a se dedicar integralmente ao MMA, pode finalmente começar a mostrar ao mundo sua genialidade. 

Com as exibições no Meca e Shooto, Silva foi convidado a lutar no maior evento do mundo, o Pride (21), em junho de 2002, fazendo sua estréia em grande estilo ao nocautear, com uma canelada na testa, o Brazilian Killa Alex Stiebling, quase 10kg mais pesado, que havia vencido seis brasileiros  (Milton Bahia, Leandro, Claudio das Dores, Allan Góes, Wallid Ismail e Ângelo Araujo). Assim nascia um dos maiores gênios da história do MMA.    

Pelé volta a dar show em casa

No evento em que Anderson Silva fez a terceira luta da noite a grande estrela foi Pelé Landi. Considerado pelo próprio Rudimar como o principal responsável por tornar o nome da Chute Boxe reconhecido nacionalmente, Pelé sempre teve status de ídolo em Curitiba, mas há muito não lutava em sua cidade. Foi quando Rudimar teve a idéia de abrilhantar o card do Meca 4 trazendo o pupilo para enfrentar o baiano Diamante Negro, aluno de Ricardo Carvalho. Os quase dois mil presentes ao ginásio do Círculo Militar em Curitiba ficaram de pé para receber o maior ídolo local.

O baiano começou colocando Pelé para baixo e tentando acertá-lo da meia guarda, mas logo Pelé levantou e, empurrado por sua torcida, passou a ditar o ritmo da luta. 

O valente baiano ainda tentou trocar golpes com o cubano, até receber um chute e fraturar a costela pedindo ao juiz para interromper o combate aos 8 minutos.

Pelé voltou a Curitiba vencendo Diamante Negro por nocaute técnico

Ninja finaliza quarto e carimba passaporte para o Pride

Mas o mote principal do Meca 4 foram os confrontos entre atletas da Chute Boxe e os representantes da Luta-Livre. Ciente que o Meca era a passarela para levar seus atletas ao Japão, Rudimar escalou seu time de frente para vencer os cariocas.

Vindo de três vitórias seguidas no Meca 1 (Adriano Bad Boy), Meca 2 (Israel Albuquerque) e Meca 3 (Claudio das Dores), Murilo Ninja enfrentou um dos mais técnicos representantes da Luta-Livre, Leopoldo Serão. O carioca começou melhor e chegou a derrubar Ninja em três oportunidades, chegando a pegar as costas do Curitibano e tentar um leglock. 

Mas, incentivado pela torcida, o agressivo Ninja mudou os rumos da luta com uma cotovelada da guarda que abriu um rombo na cabeça de Serão. Diante do sangramento a luta foi interrompida e Serão achou melhor desistir a 7min11s.

Após esta quarta vitória seguida, Ninja, assim como Anderson, foi levado a fazer sua estréia internacional no Shooto, empatando com Akihiro Gono. Mas após finalizar Rogério Segate no Meca 5, Murilo finalmente realizou seu sonho de lutar no Pride (16) onde estreou nocauteando Daijiro Matsui. A partir daí Ninja nunca mais sairia do Pride, sendo um dos mais agressivos e excitantes atletas da história do show japonês. Certamente o único que lutou em três categorias de peso (93kg, pesado e 84kg).  

Ninja venceu seu quarto Meca seguido e carimbou o passaporte para o Japão

Acácio vence e recebe convite da Chute Boxe

Mas os representantes da Luta-Livre não voltaram para o Rio só com derrotas, aluno de Sérgio Formiga (Eugênio Tadeu), Aritano Barbosa abriu o evento anulando completamente o Muay Thai de Gildo Lima. Após levá-lo ao chão o carioca definiu o combate com uma americana a 4min12s do 1º round.

Já o mestre de Aritano, Sérgio Formiga não teve a mesma sorte. Após dominar inteiramente o 1º round contra o estreante Daniel Lima, chegando a montar em duas oportunidade, Formiga acabou sendo nocauteado a 2min30s do 2º round com uma joelhada certeira. Formiga teve fratura exposta no nariz e saiu do ringue de maca.

Outro que jogou areia no barreado dos curitibanos foi Daniel Acácio (Eugênio Tadeu). Depois de dar um show de quedas em Nilson de castro no Meca 1, Acácio fez outra excelente exibição na casa da Chute Boxe enfrentando outro top da equipe, Silvio Urutum. Após aplicar excelentes quedas em Urutum, Acácio o finalizou com uma americana a 8min07s do 1º round. 

O domínio de Acácio sobre dois grandes nomes da Chute Boxe, acabou rendendo ao carioca um convite para vir morar em Curitiba e integrar a Chute Boxe.

Assuério vence The Pedro e faz 4 x 2 para a Chute Boxe

Fazendo sua estréia como representante da Chute Boxe, após duas belas exibições no Meca, Assuério Silva (101kg/1,82m) não conseguiu botar em prática seu Muay Thai contra o experiente representante da Luta-Livre, The Pedro (99kg/1,90m). 

Sempre buscando o clinche o carioca abusou de sua técnica de dar as costas para escapar a cair na guarda do oponente. 

Depois de cozinhar Assuério durante todo o primeiro round, The Pedro acabou caindo numa posição incômoda no ínicio do segundo, com o oponente em suas costas lhe acertando cotoveladas. The Pedro pediu para parar alegando que Assuério acertara sua cervical, mas o juiz Miguel Repanas discordou e declarou o Potiguar vencedor. Logo após a luta o figuraço que já havia se declarado infinalizável me procurou para fazer uma reclamação formal. “A única parte do corpo onde sinto dor é a cervical, o juiz deveria ter desclassificado o Assuério”.

Com a vitória de Assuério sobre The Pedro, a Chute Boxe terminou a noite em festa comemorando 4 x 2 contra a luta-livre.