MECA 8: Shogun, Allan Góes e Giudici brilham em noite de nocautes e finalizações

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após seu segundo nocaute Shogun mereceu elogios de Wanderlei e Kawasaki

No que diz respeito à lutas emocionantes, a oitava edição do maior evento brasileiro de Vale-Tudo foi a melhor de todos os tempos, já que todos os 11 combates foram decididos por nocaute ou finalização.

A volta espetacular de Allan Góes, a derrota do lendário Eugênio Tadeu para Marcelo Giudici, a estreia inacreditável de Pé de Chumbo finalizando o local Nílson de Castro e mais um nocaute formidável de Maurício Shogun, irmão de Murilo Ninja; marcaram os quase 4 mil presentes no ginásio do circulo militar naquele 16 de maio de 2003

Depois de lutar Vale-Tudo contra alguns dos mais respeitados faixas-pretas do Jiu-Jitsu como Renan Pitangui (venceu por nocaute em 1984), Royler Gracie (dois empates 1988), Wallid Ismail (perdeu por nocaute técnico em 1991) e Renzo Gracie (no contest 1996), Eugênio Tadeu (74kg) passou a ser o representante mais respeitado da Luta-Livre no Brasil.

Mesmo sem ter que provar nada a ninguém e ciente da redução da mobilidade de seu braço direito após um grave acidente, Eugênio resolveu se testar aos trinta e oito anos, aceitando o convite de Rudimar Fedrigo para lutar na oitava edição do Meca enfrentando o duríssimo Marcelo Giudicce (72kg) respeitado campeão de boxe chinês e faixa preta de Ryan e Renzo Gracie. Na coletiva Giudice havia prometido “terminar o trabalho do mestre”, se referindo a famosa luta entre Renzo e Eugênio (Pentagon Combat em 1996) que foi interrompido no meio quando Tadeu estava em clara vantagem.

Eugênio Tadeu (Luta-Livre) foi derrotado por Marcelo Giudice (Ryan Gracie) – interrupção médica (no final do R2)

Marcelo dominou o combate desde o primeiro minuto usando fortes chutes baixos combinados com socos. Eugênio tentou algumas vezes derrubá-lo, mas foi bloqueado. 

Após 10 minutos de punição, Eugênio voltou ao segundo round bastante cansado sendo alvo mais fácil para Marcelo. No último minuto desse round Giudice deu uma forte série de socos e chutes que deixaram Tadeu totalmente grogue. Quando o gongo tocou, os médicos imediatamente entraram no ringue para lhe dar oxigênio ao representante da Luta-Livre não permitindo que ele voltasse para o terceiro e ultimo round. “Vinguei meu mestre Renzo vencendo o Eugênio agora quero vingar ele de novo vencendo o Wallid no próximo Meca. Espero que Ele não fuja de mim”, desafiou Marcelo ao microfone. Depois de passar a noite inteira no hospital, Eugênio Tadeu nos contou que teve crises de hipoglicemia “Estou cortando carboidratos há quase cinco meses comendo só proteína e isso causou o problema. Senti que algo estava errado quando ajudei o Nílson de Castro no aquecimento e me senti muito fraco. Fiquei totalmente fraco durante toda a luta então minha única estratégia foi esperar ele se cansar no último round e derrotá-lo no chão. Quero enfrentá-lo novamente em condições normais. Tenho 38 anos mas só penso em me aposentar aos 45”, revelou Tadeu.

Allan Góes (91kg) foi o outro veterano que voltou aos ringues neste Meca mas, ao contrário de Tadeu, voltou em muito boa forma para enfrentar a revelação local do Brazilian Impacto Team, Carlinhos Lima (89kg). Com o apoio do público Carlinhos passou a evitar as quedas do faixa preta de Carlson Gracie com chutes e socos . Mas por volta dos 4 minutos de luta as aulas de Darrel Gohlar começaram a fazer diferença e Góes finalmente colocou Lima na guarda e mudou completamente a luta. Em seu habitat natural, Góes não teve problemas em evitar alguns socos e pegar o braço do adversário na guarda, fazendo-o bater aos 7m50s.  “Acabei de chegar do período mais difícil da minha vida. Muita gente achou que eu tinha acabado, mas hoje provei que estou apenas começando. Quero voltar ao Pride”, disse um dos lutadores mais técnicos da BTT.

SHOGUN NOCAUTEIA E IMPRESSIONA KAWASAKI

Depois de uma estreia incrível no Meca 6, quando nocauteou com facilidade o faixa-preta da Barra Gracie, Rafael Capoeira, Maurício Shogun (92kg) voltou ao Meca 8 em melhor forma, nocauteando, desta vez, o campeão mineiro de Muay Thai, Angelo Tilapa (86kg) em apenas 55 segundos.

Com o apoio da torcida, que lotou o Circulo Militar, o irmão de Murilo Ninja, começou sendo atingido por um direto de direita no queixo que lhe despertou. A partir dai Shogun ligou o modo turbo e, após uma sequência de chutes e socos, aplicou um knock down em Tilapa, definindo a luta com tiros de meta. “Mais uma vez ele é o lutador que mais me impressionou. Acho que ele tem boas condições de dar um excelente show no Pride” disse Koichi Kawasaki apoiado por Wanderlei Silva que após seis meses fora dos ringues devido a uma cirurgia no joelho, está voltando a treinar “Estou realmente impressionado com a maneira como o Shogun melhorou sua técnica durante esse período. Ele já está treinando pau a pau comigo. Shogun não é mais promessa, ele é realidade”, disse Wanderlei.

após seu segundo nocaute Shogun mereceu elogios de Wanderlei e Kawasaki

PÉ DE CHUMBO, A REVELAÇÃO

Mas a noite não foi só de vitórias para a torcida da Chute Boxe. Depois de vibrar com o show de Shogun, os curitibanos silenciaram  após a finalização do veterano Nílson de Castro (87kg) para o inexperiente Dílson Pé de Chumbo (82kg), campeão mundial de Jiu-Jitsu, aluno de Bita (Gracie Barra) e mestre de Capoeira com apenas uma luta no NHB (vitória em Heroes 2). Unindo a agilidade da capoeira, com excelentes quedas e uma incrível técnica de solo, Dílson deu ao curitibano a luta mais dura de sua vida.

Encurtando a distância e derrubando Nílson quatro vezes, Dílson não deu chance ao representante da Chute Boxe, que passou a luta inteira se defendendo de muitas tentativas de finalização. Depois de passar a guarda do adversária cinco vezes, montar duas vezes e pegar as costas três, chegando bem perto da finalização (mata-leão), Dílson finalmente conseguiu dar uma chave de braço em Nílson na guarda aos 9min22s do primeiro round. Torcedores da Gracie Barra que já tinham enfrentado duas derrotas (Capoeira e Lima) invadiram o ringue gritando: Jiu-Jitsu! Jiu Jitsu! Diante de um público silencioso da Chute Boxe.

Em mais uma luta onde o chão fez a diferença Peterson Melo (80kg) aluno de Muay Thai de Luís Alves e instrutor de Luta-Livre não teve problemas para anular o jogo de Claudionor Fontinelle (76kg) e derrotá-lo com um mata-leão aos 3min22s do final do 3º round (cada luta teve 1 round de 10 e 2 de 5 minutos como no Pride). 

Uma das grandes surpresas da noite foi o faixa-preta de Royler Gracie, Fabrício Morango (75kg). Treinando forte Muay Thai ultimamente com Arthur Mariano (Champion´s Factory), Morango só precisou de 1min40s para levar Wagner Túlio (74kg), treinador de Muay Thai da RFT (Equipe Luta-Livre de Márcio Cromado), às cordas e nocauteá-lo com uma sequência incrível de joelhadas, socos e chutes.

FRANCISCO BUENO VENCE AMERICANO EM CURITIBA

Depois de conquistar o título de campeão peso pesado do WVC em Recife em 2001, vencendo um lutador americano de Muay Thai peso pesado da Flórida, Francisco Bueno (92), respeitado faixa-preta da Nova União, retornou ao Vale Tudo para resolver um problema pessoal contra o lutador americano Aston Zabbo ( 87kg). “Um dia fui treinar na UCLA e o Zabbo ficou dizendo para muita gente que poderia me vencer facilmente. Não gostei e convidei ele para resolver esses problema no Meca 8”, explica Bueno, prometendo provar que Vale-Tudo e Wrestling são coisas diferentes. 

Assim que a luta começou Aston derrubou Bueno com facilidade tentando acertá-lo na guarda. Bueno evitou todos os socos e se levantou novamente derrubando o adversário e chegando à posição de meia guarda, de onde conseguiu um Katagatami fazendo Aston bater aos 3min22s.

O GUERREIRO MACACO

Escalado para lutar na categoria até 88kg na manhã do dia seguinte no ADCC 2003 em São Paulo (a 400 km de Curitiba), Jorge Patino Macaco (85kg) não recusou o convite de Rudimar Fedrigo para enfrentar Claudio das Dores (Luta-Livre) nove horas antes do ADCC.

Quase 10 cm mais alto, Cláudio das Dores começou aproveitando sua vantagem na envergadura acertando Jorge com um cruzado que abriu um grande corte embaixo do olho esquerdo do paulista. Os médicos interromperam imediatamente a luta aconselhando o juiz Nikolai a interrompê-la. Quando Das Dores já comemorava a vitória Macaco pressionou o arbitro para continuar e ganhou o apoio da torcida: “Macaco! Macaco! Macaco!”. O público barulhento e a atitude de Jorge “mudaram a opinião dos médicos” e a luta foi reiniciada com Macaco derrubando das Dores, pegando suas costas e finalizando o representante da Luta-Livre com um estrangulamento do Mata-leão aos 4min50s deixando a torcida enlouquecida!

Revoltado com atitude do árbitro de reiniciar a luta Após marcar a vitória, Das Dores escreveu uma carta aos promotores e à Federação Paranaense de Muay Thai e Vale-Tudo, que após verem o video decidiram mudar o resultado para no contest.

Depois de levar oito pontos no rosto e passar a noite inteira com uma bolsa de gelo sob os olhos, Macaco foi para o aeroporto às 6 horas da manhã, mas estava fechado devido a uma forte neblina que atrasou todos os vôos em Curitiba por quase quatro horas. “Não dava para acreditar, quando cheguei no ADCC tinham acabado de chamar Fernando Margarida (convidado para substituir Macaco) para sua primeira luta”, lembra Patino.

Após finalizar Claudio das Dores Macaco ainda tentou lutar no ADCC em São Paulo

ACÁCIO E DOURADO ATROPELAM 

Outro cara que enlouqueceu o público com um nocaute incrível foi o representante da Luta-Livre (RFT) Daniel Acácio (84kg) que enfrentou o lutador de Jiu-Jitsu Guilherme Lima (85kg) da Gracie Barra. Após derrubar o adversário com uma forte sequência de socos e joelhadas, Acácio o deixou inconsciente no chão com um poderoso chute no rosto aos 3min50s. A torcida ainda comemorava o nocaute quando Acacio e seu mestre Cromado tiveram a péssima ideia de comemorar a vitória apontando para o adversário (como se fosse um troféu) enquanto os médicos o atendiam com oxigênio. A atitude revoltou a torcida que deu uma grande vaia aos dois.

Rafael Capoeira (81kg),faixa-preta da Gracie Barra, também foi surpreendido pelo até então desconhecido boxeador Marcelo Dourado (78kg). Depois de passar momentos difíceis na luta de solo, Dourado escapou e acertou o representante do Jiu-Jitsu com um forte cruzado, seguido de um low kick que tirou o equilíbrio de Capoeira, que, já no chão, foi atingido por um tiro de meta que o deixou inconsciente aos 4 min e 20 seg.

Depois disso, Alessandro Custódio (81kg), campeão local de Jiu-Jitsu e Muay Thai, derrotou o lutador nordestino de Muay Thai Josenildo Tigre (83kg), do Buda Team, em luta polêmica. A luta foi muito dura quando Custódio levou um knockdown e o juiz Bebeo Duarte (BTT) decidiu interrompê-la quando faltavam apenas 25 segundos para encerrar o round e Custódio estava acertando Josenildo na guarda. “Em Natal estamos acostumados a lutar sem luvas e sem regras. Posso acreditar que esse cara parou essa briga desse jeito”, reclamou Josenildo revoltado.

Após o evento Rudimar Fedrigo nos contou que dali a três meses faria a primeira edição fora de Curitiba. De fato a 9º edição do evento, foi realizada em agosto de 2003 em Teresópolis, com um card de altíssimo nível encabeçado por Mauricio Shogun e Evangelista Cyborg.