O que seria dos nossos campeões de MMA se não tivéssemos no Brasil, nos anos 90 e 2000, plataformas para lançar internacionalmente nossos talentos. Sem eventos como o WVC de Frederico Lapenda, o IVC de Sérgio Batarelli, o Meca de Rudimar e Joinha, o Jungle Fight de Wallid, o Shooto de Andre Pederneiras ou o WOCS de Tatá e Philip Lima, provavelmente o Brasil não seria uma potência no Pride e UFC.
Mas se levarmos em conta o quesito aproveitamento nenhum destes shows atingiu a média do Xtreme Fighting Championship (XFC), promovido pelo ex-lutador do UFC, o brasileiro, Fabiano Iha no Ginásio do Grajaú Tênis Clube, no Rio de Janeiro no dia 29 de abril de 2007.
Oferecendo uma bolsa de US 1000, acima dos padrões brasileiros da época, o XFC reuniu alguns dos maiores prospectos do Brasil em quatro torneios nas categorias até 77kg, até 88 kg, até 93kg e acima de 93kg. A ideia do promotor Fabiano Iha, era selecionar um atleta de cada divisão para a segunda edição do evento programada para 30 de Julho em Los Angeles. Infelizmente esta foi a única edição do evento, mas não por acaso, todos os 4 campeões não tardariam a chegar ao UFC, ou seja, 100% de aproveitamento: Rafael dos Anjos (até 77kg), Rafael Sapo (até 88kg), Antônio Braga Neto (até 93kg) e Junior Cigano (acima de 93kg). E como sabemos, dois deles se tornariam campeões.

Texto e fotos: Marcelo Alonso
CONHECI MINHA ESPOSA E AINDA GANHEI US 1000
Rafael dos Anjos lembra que estava começando a carreira e a oportunidade apareceu numa semana complicada. “Lembro que era segunda feira e eu estava com febre tomando soro na veia num hospital público de Niterói quando meu celular tocou e meu manager disse. “Tenho duas notícias pra você uma boa e uma ruim. A boa é que vc vai lutar sábado, a ruim é que são duas lutas numa noite”, lembra RDA. “Mesmo sendo duas lutas de 10 minutos, quando soube do prêmio de US 1000, muito alto para os padrões brasileiros na época, não pensei duas vezes”.
Rafael dos Anjos abriu o torneio finalizando o atleta do Rio Grande Sul Tiago Minú (Boxer Team) com um mata-leão e na semifinal repetiu o golpe vencendo o duríssimo representante da BTT Maurício Souza, que havia finalizado José Fabiano (Black House) com uma chave de pé. “Não poderia ser melhor, ganhei US 1000 e ainda conheci a minha esposa”, conta Rafael que conheceu Cristiane, que trabalhava como divulgadora da marca patrocinadora, nos bastidores deste XFC.
Na sequência Dos Anjos, que a época representava a equipe de seu mestre Roberto Gordo, a Gracie Barra Combat Team, venceu o torneio do Fury e, após a vitoriosa estreia internacional no Pancrase japonês (finalizando rápido o japonês Hirayama), foi contratado pelo UFC em 2008, conquistando o cinturão dos leves contra Anthony Pettis em 2015. Na sequência RDA subiu para os welterweight onde logo chegou ao topo do ranking. Hoje aos 41 anos (com 31 vitórias e 17 derrotas) RDA continua contratado pelo UFC podendo se orgulhar de ter enfrentado alguns dos maiores nomes da história do evento em ambas as divisões.

CIGANO ATROPELA DOIS
A outra grande revelação do evento foi o parceiro de treinos de Rodrigo Minotauro e Rogério Minotouro, Junior Cigano, que veio da Bahia para conquistar o GP da categoria acima de 93kg. Cigano fez duas lutas duras, sendo a primeira contra Edson Paredão (Nova Geração Paraíba), a quem venceu por interrupção médica aos 8min46s. Na final Cigano pegou o Joaquim Mamute (GB BH), que havia perdido na semifinal por decisão dos juizes para André Mussi (Fight House), que luxou o braço e não pode voltar para a final.
Ciente que Cigano era aluno do renomado professor de Boxe da Bahia Luis Dores, o faixa preta de Jiu-Jitsu Mamute logo buscou o jogo de chão. Mas Cigano soube defender a entrada de quedas e ficar batendo por cima. Já no final da luta, Mamute visivelmente cansado da batalha com Mussi, frustrado pelas boas defesas de queda do baiano, acabou desistindo do combate. “O Paredão é muito forte e o Mamute é um grande lutador, tem um excelente chão. Foram lutas muito duras, mas eu consegui me sair bem”, comemorou Cigano, que após mais uma sequencia de três vitórias em eventos nacionais, seria chamado a poucas semanas do UFC 90 para fazer sua estreia contra o bem mais experiente Fabricio Werdum. Quando estreou de forma histórica nocauteando o compatriota em apenas 1 minuto e 20 segundos do primeiro round com um uppercut de direita seguido de golpes no chão. A vitória imediatamente o colocou entre as grandes promessas da divisão dos pesos-pesados e marcou o início de sua caminhada até conquistar o cinturão do UFC em 2011.

RAFAEL SAPO E BRAGA NETO
Na categoria até 83kg, o aluno de Vinícius Draculino, Rafael Sapo, brilhou. O atleta da Gracie Barra BH aplicou um belo arm-lock da guarda em Naílson Bahia (Nova União) na semifinal e na final derrotou na decisão unânime dos juizes a Gerson Silva (BTT), que havia sido derrotado na semifinal por Danilo Motoserra (GBCT). Mas como o atleta da Gracie Barra Combat Team não pode voltar para a final, devido a uma fratura na costela, voltou ao ringue. “Eu conto, mas ninguém acredita. Treino seis horas por dia, só não treino mais porque não tenho tempo. Esperei essa oportunidade para lutar lá fora durante muito tempo”, comemorou Sapo, que após mais oito lutas no Brasil, finalmente conseguiria chegar ao UFC, onde lutou entre 2010 e 2017 conquistando 9 vitórias e 7 derrotas.
Campeão mundial peso e absoluto de Jiu-Jitsu na faixa-marrom, o manauara Antônio Braga Neto (GBCT), que só tinha uma luta de Vale-Tudo, mandou muito bem e faturou o GP até 93kg. O faixa-preta finalizou em menos de dois minutos de luta Eduardo Camilo (BTT) com um arm-lock e enfrentou na final o atleta da Black House César de Jesus, que também venceu em menos de dois minutos o seu combate contra André Severo (IFF) na semifinal. Na final, Braga Neto fez seu jogo e colocou César para baixo, onde ficou o tempo todo por cima batendo e chegou a tentar um mata-leão. No final os juizes apontaram Braga Neto vencedor na decisão unânime dos juizes. O Manauara chegaria ao UFC em 2013. Chegou a fazer três lutas (1vitória e 2 derrotas), mas acabou retornando ao Jiu-Jitsu.

RESULTADOS COMPLETOS:
XFC BRASIL
Grajaú Tênis Clube – Rio de Janeiro
Domingo, 29 de abril de 2007
-77kg:
– Maurício Souza (BTT) finalizou José Fabiano (Black House) com uma chave-de-pé aos 2min;
– Rafael dos Anjos (GBCT) finalizou Thiago Minú (Boxer) com um mata-leão aos 7min28s;
Final: – Rafael dos Anjos (GBCT) finalizou Maurício Souza (BTT) com um mata-leão aos 6min24s;
-83kg:
– Danilo Motoserra (GBCT) derrotou Gerson Silva (BTT) na decisão unânime dos juizes;
– Rafael Sapo (GB BH) finalizou Nailson Bahia (Nova União) com um aram-lock a 1min24s;
Final: – Rafael Sapo (GB BH) derrotou Gerson Silva (BTT) na decisão unânime dos juizes;
-93kg:
– Antônio Braga Neto (GBCT) finalizou Eduardo Camilo (BTT) com um arm-lock a 1min46s;
– Cezar Jesus Ferreira (Black House) derrotou André Severo (IFF) por interrupção do juiz a 1min29s;
Final: – Antônio Braga Neto (GBCT) derrotou Cezar Jesus Ferreira (Black House) na decisão unânime dos juizes;
+93kg:
– André Mussi (Fight House) derrotou Joaquim Ferreira Mamute (GB BH) na decisão dividida dos juizes;
– Junior Cigano (Champion) derrotou Edson Paredão (Nova Geração Paraíba) por nocaute técnico aos 8min46s;
Final: – Junior Cigano (Champion) derrotou Joaquim Mamute (GB BH) por desistência.





































































































