Um ano após o sucesso do brasileiro Mameluc de Jiu-Jitsu organizado por Andre Pederneiras no clube Hebraica no Flamengo, Carlinhos Gracie Jr. fundou a Confederação Brasileira de Jiu-Jitsu e promoveu nos dias 11, 12 e 13 de novembro de 1994, no Clube Akxe clube Akxe na Barra da Tijuca o primeiro Campeonato Brasileiro de Jiu-Jitsu.
Marco zero da nova Confederação o evento reuniu mais de 700 atletas vindos de treze estados brasileiros em disputas marcadas por rivalidade, técnica e combates intensos e uma emocionante homenagem ao pai do Jiu-Jitsu brasileiro, Carlos Gracie, que havia falecido no dia 7 de outubro.

Nomes já consagrados como Royler Gracie, Amaury Bitetti, Fabio Gurgel, Traven, Bustamante, Bolão, Castello Branco dividiram o tatame com futuros ídolos, que marcariam as futuras gerações, como Vitor Belfort (campeão peso e absoluto juvenil azul 17 anos) e outros grandes destaques que levaram o ouro em suas categorias no azul juvenil 16 anos: Ricardo Vieira, Paulo Filho, Ricardo Arona, Vitor Shaolin, Léo Leite e Robson Moura; e depois ainda lutaram no absoluto.
Os atletas mais técnicos da competição foram: Royler Gracie (preta), Mario Sperry (marrom), Flávio Canto (roxa) e Rafael Correa (azul). Carlson Gracie entrou com força total no evento e conquistou o 1º lugar por equipes, seguido da Barra Gracie, Master e Behring, que já mostrava a força do Jiu-Jitsu paulista.
Abaixo transcrevi na íntegra a reportagem que fiz para revista KIAI
Texto e fotos: Marcelo Alonso
Finalmente, os professores de Jiu Jitsu das principais escolas do Rio de Janeiro deixaram de lado as costumeiras “briguinhas e rixas” e resolveram apoiar Carlos Gracie Júnior, presidente da Confederação Brasileira de Jiu Jitsu, e unidos, organizaram o I Campeonato Brasileiro de Jiu-Jitsu-94, evento que — apesar de alguns senões que podem ser perfeitamente sanados em competições futuras — constituiu-se num brilhante espetáculo, provando que, com a união de todos, o Jiu Jitsu brasileiro crescerá cada vez mais, em todos os sentidos.
Cerca de 700 atletas participaram do I Brasileiro realizado na Academia Akxe, na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, representando os Estados de São Paulo, Amazonas, Santa Catarina, Minas Gerais, Rio Grande do Norte, Goiás, Pernambuco, Rio Grande do Sul, Paraná, Distrito Federal, além do Rio de Janeiro.
Os professores que deram apoio total ao presidente da CBJJ foram: Carlson Gracie, Jacaré e Royler Gracie.
As lutas foram realizadas em 4 dojos, simultaneamente, sendo a pesagem dos atletas realizadas “in loco”, no dia das lutas. O nível técnico nunca foi tão alto, justamente por não haver boicotes de academias, e lá estavam os maiores lutadores de Jiu Jitsu do Brasil em todas as faixas. O maior exemplo foi a maciça presença dos faixas pretas no ringue, proporcionando ao público um verdadeiro show de Jiu Jitsu, através de confrontos antológicos, como: Murilo Bustamante vs. Leonardo Castelo Branco (vencido pelo primeiro: 3×2), Fábio Gurgel vs. Sérgio Souza (Fábio ganhou na combatividade), Amaury Bitetti vs. Traven (vencido pelo primeiro: 2×0), Amaury Bitetti vs. Marcelo Figueiredo (enfrentaram-se 2 vezes; na primeira o Amaury ganhou por 2×0; na segunda, pela categoria Absoluto, Amaury finalizou Marcelo em 37 segundos de luta, com um belo arm lock na guarda), e Royler Gracie vs. Socka (ambos tinham vencido dois adversários da chave e encontraram na final; Royler ganhou a luta finalizando Socka com um triângulo, apagando o atleta da Barra por alguns segundos e levando o público ao delírio).

Os cariocas ganharam a maioria dos títulos; os amazonenses fizeram 3 campeões e 1 vice; Santa Catarina fez dois campeões; e São Paulo fez 5 campeões e 3 vice, com destaque especial para a Academia Behring, que ficou em 4º lugar na categoria Adulto Geral, o que demonstra o grande desenvolvimento do Jiu Jitsu em todo o País, principalmente em São Paulo, que dentro em breve será o rival mais acirrado para o Rio de Janeiro.
Infelizmente, o evento foi realizado em um local pequeno demais para o nível do nosso Jiu Jitsu. Mesmo com a construção de arquibancadas, o local só tinha capacidade para 500 pessoas. Na sexta-feira, o recinto já se encontrava lotado. Desta forma, os organizadores tiveram a infeliz ideia de cobrar ingresso (R$ 10), no domingo, quando aconteceriam as melhores lutas, para tentar reduzir o público. O que de nada adiantou, sendo estimado nesse dia um público de 4.000 pessoas, que se apinharam até nos tatames. A organização do evento não foi digna do nível técnico dos atletas. Houve pontos negativos, como: invasão da area de luta pelo público por falta de lugares nas arquibancadas e o horário da realização das lutas muito extenso (das 10h00 da manhã às 23h00 da noite), prejudicando os atletas. O local escolhido não podia comportar público de um Campeonato Brasileiro, levando-se em conta o fato de que o espaçoso Ginásio Gama Filho, onde aconteceu o Campeonato Carioca, foi oferecido pelo professor Pedro Gama Filho, aos organizadores do Brasileiro. E mais: o sistema de comunicação foi deficiente, causando problemas na chamada dos atletas; as premiações foram realizadas sem nenhum tipo de cerimônia, apesar de haver um pódio no local; e o Campeonato Brasileiro ficou à mercê do fechamento do clube, às 22 horas. Um absurdo.
Mas houve pontos positivos como: as medalhas oferecidas; o entendimento entre os organizadores, que pouparam o público das confusões habituais; a presença maciça de todos os Estados; a inovação de se usar apenas dois bandeiras por luta, cabendo ao juiz a decisão final, em caso de dúvida, medida esta que diminuiu sensivelmente o número de reclamações e trouxe maior legitimidade aos resultados.
Lutaram no campeonato todos os maiores nomes do nosso Jiu Jitsu, com exceção de Wallid Ismail que se limitou a ficar do lado de fora provocando seus maiores adversários, que compareceram para lutar. Foi o caso de Fábio Gurgel, que após vencer Sérgio Souza, da mesma academia de Wallid, foi obrigado a ouvir desaforos do mesmo. Fábio respondeu a Wallid: “Entra nos campeonatos que a gente resolve esta diferença”.
DESTAQUES
FAIXA AZUL
Vítor Belfort (Ac. Carlson Gracie), campeão do Meio Pesado e do Absoluto Juvenil 17 anos.
Vitor Shaolin (Andre Pederneiras), campeão no peso leve juvenil 16 anos e vice no absoluto (venceu Robinho na primeira luta, Paulão na semifinal e perdeu para Léo Leite na final)
Rafael Correa (Barra Gracie), atleta mais técnico na Faixa Azul – Adulto, venceu 5 adversários, inclusive o maior rival da categoria, Pedro Duarte (Ac. Murilo Bustamante).
Roberto Atalla (Barra Gracie), venceu a maioria dos adversários pegando as costas e finalizando com extrema técnica. Campeão da categoria Médio.
Cláudio Moreno (Clube Barra), venceu na categoria Absoluto. Surpreende pela calma e serenidade que contrastam com a rapidez que finaliza a maioria de seus adversários.

FAIXA ROXA
Flávio Canto (Gama Filho), atleta mais técnico da categoria. Ganhou o Estadual na categoria Leve, subiu para o Médio e também ganhou no Brasileiro, vencendo com facilidade todos os adversários que enfrentou. Apesar de ser Faixa Preta e campeão brasileiro de Judô, Flávio Canto venceu todas as lutas no chão, mostrando uma superioridade técnica absoluta sobre todos os adversários.
Wagney Fabiano (Mello), mostrou grande técnica, vencendo na categoria mais disputada da Faixa Roxa, adversários do nível de Roninho (Master) e Rodrigo (Carlson).
Ricardo Rey (Ac. Carlson) continua imbatível no Peso Pesado; não tem adversários à altura há muito tempo. Adversários que ele vencia com facilidade já estão na Marrom há muito tempo.
Sérgio Ferrari (Sérgio Souza), campeão do Super Pesado; muita técnica, está invicto há um bom tempo. Também foi campeão estadual.
Cléber Gadelha (Monteiro – Manaus), mostrou o alto nível técnico do Jiu Jitsu amazonense, vencendo adversários muito difíceis com finalizações. Campeão do Peso Pluma.
FAIXA MARROM
José Mário (Carlson Gracie), atleta mais técnico da Faixa Marrom, campeão da Pesadíssimo e Absoluto. Seria Faixa Preta em qualquer outra academia. Tem nível para lutar com qualquer faixa preta do cenário nacional, de igual para igual.
Múzio de Angeles (Strike), venceu com muita técnica todos os seus adversários, sagrando-se campeão na categoria Leve.
Márcio Feitosa (Barra Gracie), acabou de pegar a Marrom e já chegou “passando o rodo”. Não tinha adversários na roxa e continua sem adversários na Marrom – Peso Pena.

FAIXA PRETA
Royler Gracie (Ac. Gracie), desde o Estadual, depois daquele 0x0 e um certo sufoco, Royler estava com Socka entalado na garganta. Como ele mesmo disse: “Vim para lutar com o Socka, os dois primeiros foram aquecimento”, referindo-se à final com Socka, da Barra Gracie depois de vencer os dois primeiros adversários. Socka também vinha de duas vitórias por finalização. A tão esperada luta não demorou muito. Royler finalizou Socka com um belo triângulo. A tão esperada luta não demorou muito. Royler finalizou Socka com um belo triângulo, Socka não quis bater e apagou por 2 segundos. Royler ganhou além do título de campeão brasileiro na categoria Leve, o título de Faixa Preta mais técnico da competição. Na sua segunda luta com Sonequinha, da Barra Gracie, Royler deu uma raspagem nunca vista no Jiu Jitsu, que acabou virando moda nas academias do Rio de Janeiro, após a competição.
MELHORES LUTAS
Roninho (Master) vs. Parrupinha (Carlson) Faixa Roxa – 2×0
Os dois atletas, de reconhecido nível técnico, fizeram uma “lutaça”, mas Roninho levou a melhor, raspando Parrupinha e quase conseguindo finalizá-lo no fim da luta com um belo arm lock (2×0).
Marcelo Mello (Carlson) vs. Flávio Canto (Gama Filho) Faixa Roxa – 0x6
Flávio nem se deu conta que estava lutando com um dos melhores lutadores da Ac. Carlson, e como faz com todos os seus adversários, passou o rodo. Flávio passou a guarda de Marcelo com a maior tranquilidade do mundo (2×0) e depois ainda pegou as costas, ganhando a luta por 6×0. Na final, Flávio lutou com o campeão paulista, Jorge Patino, da Companhia Athlética, que vinha fazendo ótimas lutas, e finalizou com um estrangulamento pelas costas.
Rolker Gracie (Gracie) vs. Carlos Rollisson (Carlson) Preta – Master – 2×4
Luta altamente técnica disputada palmo a palmo entre duas feras da categoria Master. Em jogo a rivalidade entre as duas principais linhagens da família Gracie, de um lado Rolker Gracie, filho mais velho de Hélio Gracie, do outro Carlos Rollisson, um dos alunos mais antigos de Carlson Gracie. Carlos raspou Rolker, fazendo 2×0 logo no início da luta. Rolker, por sua vez, devolveu a raspagem (2×2), empatando no marcador. Carlos ainda conseguiu uma outra raspagem, fazendo 4×2. No finalzinho, Rolker quase consegue virar a luta, passando a guarda de Carlos, mas a luta terminou antes. Vitória de Carlos Rollisson.
Murilo Bustamante (Carlson) vs. Castello Branco (Strike) Preta S. Pesado – 6×2
Sem dúvida uma das lutas mais emocionantes do campeonato. Castello começou bem, marcando dois pontos de queda em cima do adversário, mas como ele mesmo definiu após a luta, foi com muita sede ao pote, entrando muito afoito para encaixar um armlock no preta da Carlson. A partir daí, Bustamante fez prevalecer sua maior experiência, passando a guarda do adversário duas vezes, mostrando-se em excelente forma, e ganhando a luta de virada (6×2). Castello está de parabéns, este é seu primeiro ano na Faixa Preta, e já mostrou a que veio. Murilo com esta vitória sagrou-se bicampeão brasileiro na categoria.
Fábio Gurgel (Master) vs. Sergio Souza (Carlson) – Faixa Preta – Pesado – 2×2
Outra “lutaça” que levou o público ao delírio. Bolão raspou Fábio no início da luta, fazendo 2 pontos, e comemorando muito. A luta voltou em pé, foi quando Fábio marcou 2 pontos de queda no adversário e passou a dominar a luta, chegando a pegar as costas nos segundos finais. Mas a luta terminou antes que ele estabilizasse a posição e fizesse 4 pontos. Resultado final: 2×2. Fábio ganhou na bandeirada, pois foi muito mais combativo, conquistando mais um título brasileiro na categoria. Ao final da luta Fábio sentiu uma contusão no joelho e decidiu não participar da disputa no Absoluto, quando enfrentaria Murilo Bustamante. Wallid que não lutou no campeonato, começou a chamar Fábio de frouxo. Fábio rebateu: “Paraíba, com você eu nem discuto. Quando você voltar a entrar em campeonatos, a gente resolve esta diferença”.
Murilo acabou ficando também com o título da categoria Absoluto, que lhe foi cedido por Amaury Bitetti, por serem da mesma academia.

Royler Gracie (Gracie) vs. Alexandre Soca (Barra Gracie) – Faixa Preta – Pena
Luta final da categoria. Ambos lutaram duas vezes, ganhando com certa facilidade de seus adversários iniciais. Eles já haviam se cruzado no Estadual, tendo a luta terminado empatada (0x0). Royler saiu vitorioso na bandeirada, resultado que não convenceu ao público. Já no Brasileiro, antes da luta, Royler declarou: “Eu vim para lutar com o Soca, os outros dois foram só aquecimento”. Resultado: Royler entrou com tudo, raspando o adversário e em seguida encaixando-lhe um triângulo nos minutos iniciais da luta. Soca não conseguiu sair do triângulo e por se recusar a bater, acabou apagando por alguns segundos. Vitória de Royler Gracie por finalização.
HOMENAGEM A CARLOS GRACIE
Falecido no mês anterior ao evento (7/10/94) o mestre Carlos Gracie, pai de Carlinhos e criador da dinastia Gracie, recebeu uma bela homenagem de todos durante a competição, quando todos ficaram de pé e deram as mãos respeitando o minuto de silêncio, seguido de aplausos, comovendo a todos.
A OPINIÃO DO PRESIDENTE DA CBJJ
O Jiu Jitsu vem num crescente desenvolvimento, onde a sua organização é fator de extrema importância. Os campeonatos de Jiu Jitsu vêm de um modo geral melhorando bastante, e sua estrutura começa a se fazer notar. Sobre o Campeonato Brasileiro de 1994 (o próximo Brasileiro será no segundo semestre de 1995), disse:
“Tivemos alguns tropeços de estrutura básica, como aceitar inscrições na véspera, o que tumultuou as chaves, duração do evento além do tempo, e acomodações um pouco apertadas e desconfortáveis para o público assistente. Este foi o lado negativo do evento, vamos agora ao seu lado positivo: clube de primeira linha, com o conforto de banheiros limpos, lojas de comida confortáveis e com uma alimentação saudável, localização do clube no coração da Barra da Tijuca, o melhor bairro do Rio. Público compareceu em massa, com pessoas bonitas e saudáveis. A mídia deu uma cobertura que nunca tinha dado antes, saindo um clipe do evento na TV Globo, em programa nobre. Mas o melhor da festa foram as lutas que ultrapassaram a melhor das expectativas. No meu ver, este evento, com alguns pontos, é claro, que terão de melhorar em um futuro bem próximo, foi excelente para o Jiu Jitsu como um todo”.
Carlos Gracie Jr.
CLASSIFICAÇÃO FINAL GERAL
ADULTO – EQUIPE
A classificação final geral por equipe, na categoria Adulto, foi a seguinte:
1º – Academia Carlson Gracie (RJ) – 36 pontos
2º – Academia Barra Gracie (RJ) – 36 pontos
3º – Academia Master (RJ) – 8 pontos
4º – Academia Behring (SP) – 7 pontos
5º – Academia Osvaldo Alves (RJ) – 6 pontos
6º – Academia Bolão (RJ) – 5 pontos
ADULTO — FAIXA PRETA
Pluma
Campeão: Alberto Santos (Carlson)
Vice: Vinícios Campelo (Master)
Pena
Campeão: Royler Gracie (Gracie)
Vice: Alexandre Carneiro (Barra Gracie)
Leve
Campeão: Renzo Gracie (Barra Gracie)
Vice: Luiz Carlos Valois (Carlson)
Médio
Campeão: Ailson Brites (Barra Gracie)
Vice: Roberto Correa (Barra Gracie)
Meio-Pesado
Campeão: Amaury Bitetti (Carlson)
Vice: Marcelo Figueiredo (Borges)
Pesado
Campeão: Fábio Gurgel (Master)
Vice: Sérgio Souza
Super Pesado
Campeão: Murilo Bustamante (Carlson)
Vice: Leonardo Castello Branco (Strike)
Pesadíssimo
Campeão: Rogério Olegário (Oswaldo Alves)
Vice: Ronald Bauer (Bauer)
Absoluto
Campeão: Amaury Bitetti (Carlson)
Vice: Murilo Bustamante (Carlson)























































