Roberto Traven e Castello Branco: consagração na via crúcis do Kremlin

Em 1997, os faixas pretas Roberto Traven e Leonardo Castello Branco foram convidados pelo empresário brasileiro Frederico Lapenda para lutarem em dois eventos na Rússia, o International Absolute Fighting Championship (IAFC 2 e 3). Traven participou do primeiro, que era um torneio eliminatório absoluto de 8 lutadores realizado numa ginásio publico no dia 30 de abril, e três dias depois seria a vez de Castello fazer sua estréia no Vale-Tudo na luta principal do AFC 3, um evento de super lutas realizado num hotel de luxo para a máfia local. 

Completando a trupe, os treinadores Fábio Gurgel e Cláudio Coelho e eu, que fui convidado por Lapenda para cobrir os eventos.  

Para contextualizar esta história vale notar que a Rússia daquele momento era bem diferente do país suntuoso que recebeu os últimos jogos olímpicos. Após a dissolução da União Soviética em 1991, o país passava por uma profunda crise econômica.

Num momento em que o esporte ainda engatinhava até nos Estados Unidos, imaginem na Rússia. A única referência que tínhamos vinha das histórias escabrosas contadas por Robson e Renzo Gracie, que, cinco meses antes, haviam levado Ricardão Morais e Adilson Bita para lutarem no IAFC 1 e tiveram que praticamente fugir do país com o dinheiro que o gigante havia recebido após vencer inacreditáveis cinco lutas e faturar o torneio. Desnecessário dizer que Castello e Traven não tinham a menor idéia de quem enfrentariam quando chegamos no aeroporto de Moscou no dia 28 de abril de 1997.

TRAVEN FINALIZA TRÊS EM OITO MINUTOS 

Depois de fazer sua estréia no Vale-Tudo vencendo o americano Dave Berry em apenas 1min23s no combate alternativo do UFC 11, Traven foi muito criticado na comunidade do Jiu-Jitsu à época por não aceitar voltar para enfrentar Mark Coleman na semifinal. O americano acabou avançando à final e faturando seu segundo torneio do UFC após atropelar Brian Johnston.     

Mas sete meses depois Traven daria uma resposta aos detratores ao aceitar lutar num torneio absoluto sem ter a menor idéia de quem seriam os oponentes e com uma forte pressão da torcida local. 

Seis mil pessoas lotaram o Sport Palace Luzhniki para ver a 2º edição do  Absolute Fighting Championship 2, um torneio que tinha 4 russos, 3 americanos e apenas 1 brasileiro. Como na primeira edição o campeão havia sido o gigante brasileiro Ricardo Moraes, desta vez os russos capricharam no sorteio das chaves, colocando Roberto Traven (100kg/1,88m) de cara com seu mais técnico representante do sambo local, Artirm Wilgulevsky (103kg/1,83m). Traven começou clinchando o russo, chegando as suas costas. O representante do Sambo reagiu dando uma cambalhota, na tentativa de conectar um leglock. Com tranqüilidade, Traven defendeu, foi pra cima já caindo montado nas costas do russo, que segundos depois, após levar alguns socos, batia com um mata-leão.

No outro lado da chave, os russos despachavam os três representantes americanos. Joe Charles (120kg/1,83m) foi vencido por Barkalaev (95kg/1,83m) com socos da guarda; John Dixon (116kg/1,86m) foi atropelado por Maxim Tarasov (88kg/1,87m) com socos da montada e o Ultimate Fighter Carl Worsham (106kg/1,78m) bateu com estrangulamento frontal aplicado por Leonid Efremov (123kg/1,95m), para desespero de seu segundo Don Frye.   

Na semifinal o grandalhão Efremov finalizou seu compatriota Barkalayev com um mata-leão em pé, enquanto Traven, a esta altura o único representante estrangeiro no evento, usava o mesmo golpe para finalizar o duro Maxim.

Na grande final, Traven soube explorar as fraquezas do grandalhão Efremov e, orientado por seu treinador de boxe Claudio Coelho, soltou a mão botando o gigante para correr no octagon. Depois de levar alguns socos, o russo tentou agarrar Traven, que o desequilibrou caindo por cima. Sem guarda nenhuma, o russo foi presa fácil para o brasileiro. Após levar alguns socos da guarda, Efremov deu três tapinhas no chão e definiu Traven como novo campeão do torneio.

Na final Traven atropelou o grandalhão Efremov em menos de 3 minutos

Após a vitória, toda a hostilidade do povo russo se traduziu em reconhecimento e admiração, a todo lugar que íamos aparecia um fã para pedir uma foto com “Robierta Travien”. Mas como bem lembraria Gurgel. “Vamos descansar porque vencemos três batalhas, mas não a guerra. Depois de amanhã tem Vovchanchyn” 

ESTREIA CONTRA VOVCHANCHYN E A MÁFIA RUSSA

Dois dias depois de Traven, era a vez de Castello Branco fazer sua estréia no Vale-Tudo, fazendo a super luta do Noite de Gala, um evento de luxo, realizado no hotel Sovietcenter, fechado para uma elite de Moscou  (publico totalmente distinto do AFC que Traven lutara). Seu oponente era Igor Vovchanchyn, que já havia nocauteado Adilson Bita e já tinha 20 lutas e apenas 1 derrota.

Depois de cinco lutas fraquíssimas o locutor local anunciava “Lionarrda Castela Bianco”. Apesar de toda a pressão, Castello começou bem, clinchando, derrubando e pegando as costas do russo. Apoiado pela torcida, Igor parecia um touro brabo dando socos para trás, até conseguir girar e cair na guarda do brasileiro. Castello ainda conseguiu raspar, passando a guarda na seqüência, chegando a montada e voltando a pegar as costas do russo, que novamente escapou, para delírio da torcida.

Aos 15 minutos de combate, Vovchanchyn soltou um chute enquanto Castello entrava para derrubá-lo e acabou quebrando sua clavícula. O brasileiro conseguiu a queda, chegando a montada pela 3ª vez.  

 A esta altura, a pressão da torcida já influenciava o juiz, que sem a menor justificativa tentava tirar Castello de cima do local. Revoltados Traven, Fábio e Coelho falaram com Lapenda, que disse aos russos que se o juiz continuasse com aquela atitude parcial retiraria imediatamente seus lutadores (brasileiros e americanos) e nunca mais voltaria aquele país. Foi então que o dono do evento ordenou ao juiz que deixasse o brasileiro montado. A pressão era tanta que parte do público já tentava agredir os 3 componentes do córner brasileiro. Dentre outras barbaridades, os “torcedores” se aproximavam do córner jogando latas e raivosamente chamando Traven e Coelho de “Monkeys”. 

Mesmo com a clavícula quebrada o estreante Castello Branco dominou as ações contra Vovchanchyn, que já tinha 20 lutas

No octogono, Castello mais uma vez chegava as costas de Igor, mas perdia a posição. Com o fim dos 30 minutos, ficou acordada uma prorrogação de cinco, quando pela 5º vez o brasileiro derrubou passou a guarda e montou, mas perdeu as costas. No final, os jurados insuflados pela torcida tiveram o desplante de dar a vitória a Igor. Mais uma vez entrou em ação o lobby de Frederico Lapenda que conseguiu negociar ao menos um empate. “Não estou preocupado com o resultado da luta, na verdade estou de alma lavada, pois fiz minha estréia no octagon com um dos caras mais duros da atualidade e lutei bem. Mas obviamente se esta luta fosse num local neutro não tenho dúvidas de que teria vencido” disse Castello emocionado no final.  

HOSPITREVAS

Apesar do empate, o clima após a luta era de comemoração. Só que, de repente, o ombro esquerdo de Castello começou a inchar. Imediatamente chamamos um médico do hotel, que mesmo sem falar uma palavra em inglês nos fez entender que Castello precisava ir para um hospital radiografar o local. Uma ambulância caindo aos pedaços com dois enfermeiros e um médico fumando sem parar nos fazia temer o local onde estávamos sendo levados. No caminho, ainda tentei convencer ao médico que parasse de fumar, pois Castello estava vomitando sem parar, mas de nada adiantou. O médico ainda me deu uma bronca em russo.

Quando chegamos ao hospital, além de muita sujeira e desorganização, encontramos dezenas de outros médicos que fumavam sem parar e, para piorar, sem falar uma palavra de inglês. “Trevas total, parece o manicômio Juliano Moreira”, definiu com precisão Fábio Gurgel. Depois de descobrirmos que Castello havia quebrado a clavícula, fomos informados que não havia divisão de setores e ele teria que ficar num quarto com 7 pacientes com problemas psiquiátricos aguardando oito dias até que o único tomógrafo do hospital fosse consertado. O detalhe é que nossa passagem de volta estava marcada para a noite do dia seguinte.

Desesperado ao ser recebido com gritos e gemidos pelos colegas de quarto, Castello nos pediu que armássemos um plano de fuga, uma vez que o hospital não se responsabilizava em liberá-lo sem a tomografia da cabeça. Enquanto Traven e Gurgel passaram a noite num banco ao lado do quarto, eu e Claudinho fomos para o hotel planejar o plano de “emergência”. “Sinistro, parecia um filme de terror, não preguei o olho, a cada hora aparecia um maluco diferente”, nos contaria Traven na manhã seguinte.

Sem conseguir pregar os olhos, com muitas dores na clavícula e dois hematomas no rosto, Castelo sentenciou: “Se os médicos continuarem nos negando a liberação, fugiremos pela escada”. Mas para nossa sorte o plano de emergência não foi necessário, uma vez que o médico-chefe do novo plantão falava em inglês e resolveu atender nosso pedido. Radiantes na saída do hospital, encontramos o médico que fumara em cima de Castello acendendo seu cigarro na frente do hospital. Foi quando Claudio Coelho fez questão de “agradecer” aquele belo profissional proferindo palavras intraduzíveis. “Vc você que fumou em cima do Castello ontem né seu FDP… Vê se me erra seu Arrombado”… disse Claudinho sorrindo enquanto o russo não entendia bulhufas e Castello gemia de dor de tanto rir.

Sem dúvida alguma o humor de Cláudio Coelho foi fundamental para conseguirmos atenuar a gravidade daquele episódio. Além das fortes dores que Castello Branco teve que enfrentar na longa viagem de volta, o hematoma roxo não parava de aumentar deixando claro que algum vaso havia se rompido internamente e, mais cedo ou mais tarde, a situação poderia se agravar.

No vídeo abaixo Lapenda, Fábio, Coelho relembram toda nossa saga e Castello revela como terminou esta história.