UFC 17: Mark Coleman, Allan Góes e Hugo Duarte surpreendidos em noite de zebras

Após defender algumas quedas de Coleman, William aplicou o primeiro nocaute do wrestler

Coleman aniquilado por um estreante de 22 anos, Hugo Duarte sendo nocauteado por Tank Abbott em 45s, Frank Shamrock passando dificuldade com um desconhecido e Allan Góes perdendo de cara no torneio de 90kg. Definitivamente esta 17º edição do UFC foi marcada por grandes surpresas.

Fotos: Susumu Nagao e Marcelo Alonso 

O NOCAUTE DE COLEMAN  

Depois de cobrir Amaury Bitetti e Rafael Carino no UFC 9; Vitor Belfort e Wallid Ismail no UFC 12 e Carlão Barreto e Belfort no UFC 15, voltei aos Estados Unidos para acompanhar as estréias de Hugo Duarte e Allan Góes no UFC 17 no Alabama. Ambos vinham de seqüências de vitórias em eventos internacionais e chegavam com claro favoritismo. A presença do ex-campeão dos pesados Mark Coleman e do campeão dos médios Frank Shamrock no card só abrilhantavam ainda mais o evento, que contava ainda com outros três estreantes de luxo: Dan Henderson, Chuck Liddell e Carlos Newton.      

Depois das fantásticas atuações de Mark Coleman nos Ultimates 10,11 e 12 muitos poderiam jurar que o criador do Ground and Pound nunca seria nocauteado. Maurice Smith, com toda a sua experiência bem que chegou perto, e no UFC 14 roubou o cinturão dos pesados do lutador mais temido do mundo após 21 minutos onde conseguiu botar em pratica um plano tático ousado: Resistir ao GNP, cansar Coleman e obrigá-lo a lutar em pé.   

Na conferência de imprensa do UFC 17 “The Hammer” fez questão de deixar claro que não estava em sua melhor forma e que o gosto amargo da derrota havia trazido de volta o melhor Coleman. Seu oponente natural nesta luta seria Randy Couture, que havia roubado o cinturão de Smith no UFC 15.5, mas “The Natural” se machucou a 3 semanas do evento, cedendo seu lugar para o japonês Kohsaka, que acabou se contundindo a 2 semanas do evento. A vaga acabou sobrando para o estreante, aluno de Ken Shamrock, Pete Williams.  “Vocês vão se surpreender. Este garoto vai chocar o mundo”, me disse Shamrock após a pesagem de seu atleta. Dito e Feito. 

Quando a luta começou Pete logo mostrou que não estava ali para tapar buraco e em pouco mais de 2 minutos botou o braço de Coleman em risco em duas oportunidades. Na seqüência foi derrubado, mas repetiu a tática de Maurice Smith deixando o wrestler se cansar. Aos 7 minutos Coleman mostrou o primeiro sinal de cansaço ao aceitar a trocação em pé evitando se expor pára levar a luta para o chão, até que na prorrogação Pete partiu para cima de um já acuado Coleman e, após uma joelhado no queixo que deixou o ex campeão grogue emplacou, um chutaço que o levou a nocaute aos 38 s da prorrogação.

Outro favorito que quase leva um susto esta noite foi o campeão middleweight do evento Frank Shamrock que colocou seu cinturão em jogo contra o novato Jeremy Horn, que também dominou as ações durante o tempo regulamentar chegando a montar três vezes no campeão, até ser finalizado com um leglock na prorrogação. Exatos cinco meses após esta luta Shamrock viria ao Brasil defender seu cinturão contra John Lober no UFC 17.5, a primeira edição do UFC realizada no Brasil, no ginásio da Portuguesa em São Paulo

A CONSAGRAÇÃO DE DAN HENDERSON 

Onze meses depois da consagradora estréia no Vale-Tudo vencendo três lutas numa noite no Brazil Open em São Paulo, Dan Henderson (1,79/89kg/27a) fez sua estréia no UFC lutando o segundo torneio até 90kg, pegando de cara o favorito Allan Góes (1,80m/90kg/26), que chegou disposto a vingar a derrota de seu parceiro de treinos Crezio Souza para o wrestler. A esta altura o faixa preta de Carlson já contabilizava um empate contra Shamrock no Japão e três finalizações seguidas no evento americano Extreme Fighting. O brasileiro começou melhor conseguindo derrubar o wrestler com um direto a no 2º minuto de luta. Na sequência Hendo tentou uma chave de calcanhar e Allan acabou caindo por baixo de onde passou a atacar triângulos e armlocks, todos defendidos pelo wrestler, que respondia com um pesado GNP. Aos 8 minutos a luta voltou em pé e Allan mais uma vez conseguiu um knock down no americano. Desta vez com um cruzado de esquerda. Mas, na ânsia de definir o combate, Allan cometeu um grave erro chutando o rosto do oponente caído, o que já era proibido pelas regras, indo em seguida para sua costas e atacando um mata-leão. O arbitro que já fazia menção de interromper resolveu penalizar o brasileiro com a perda de 1 ponto. E este ponto negativo acabou levando a luta para a prorrogação onde o gás passou a ser um diferencial. Já bastante cansado o brasileiro passou a se jogar no chão fazendo guarda o que foi interpretado como fuga pelos juizes. Até que num lance definitivo Hendo aplicou um soco em Allan que, mais uma vez, caiu fazendo guarda dando a nítida impressão de knock down, definindo a luta em favor do americano. A decisão unânime dos juizes revoltou o promotor do IVC Sergio Batarelli, presente ao evento. “Foi um garfo clamoroso, o Allan venceu esta luta os jurados não podem ser parciais desta maneira”.

Enquanto Hendo vencia Allan após 15 minutos de guerra, o canadense Carlos Newton (1,75m/81kg/21a), o mais leve do torneio finalizava com um triangulo em 53 segundos o discípulo de Maurice Smith, Bob Gilstrap, que havia perdido a final do IVC 4 para o aluno de Luis Alves, Dario Amorim.

Na primeira luta do torneio Allan dominou as ações no tempo regulamentar

DAN HENDERSON X CARLOS NEWTON

Curiosamente naquele momento os novatos Dan Henderson e Carlos Newton só tinham feito, respectivamente, 3 e 5 lutas. E estavam muito longe de serem considerados lendas do esporte. Mas definitivamente suas histórias começaram a ser escritas naquela noite. Se naquela época já houvesse prêmio para luta e performance da noite os dois mereceriam ambas. Que luta ! Logo aos 20 segundos Newton acerta um lindo cruzado, mas o wrestler responde com um double leg botando o canadense para voar. Depois de alguns minutos fazendo guarda foi a vez do canadense revidar a queda, Mas Hendo levanta e aplica uma serie de oito joelhadas no canadense que responde com dois socos e um chute quase levando o Hendo a lona. Na prorrogação ocorreu o melhor momento da luta, que obviamente seria definitivo em caso de júri “neutro”, Carlos acerta dois socos em Hendo deixando-o seminocauteado em pé. Numa ultima tentativa Hendo pulou nos pés de Newton botando o novamente para baixo . Antes do gongo soar o canadense ainda tentou uma kimura que quase levou o wrestler a bater . Quando os jurados deram a vitória na decisão dividida para Newton nem Carlson Gracie aguentou “Vergonha, roubo clamoroso” bradou o Gracie revoltado após os juizes, em decisão dividida (2 x 1) decretarem Henderson campeão. 

 A ESTREIA DE LIDDEL 

Outra lenda que fez sua primeira luta neste UFC 17 foi Chuck Liddel (1,84/89kg/28ª) que fez um combate alternativo  com o boxer Joe Hernandez (1,78m/91kg/26ª). Curiosamente Liddel entrou com uma botinha de Wrestling, uma vez que neste UFC 17 ainda era possível chutar o oponente estando calçado. O Moicano, que dali a 6 anos seria o campeão da divisão até 93kg, venceu sua estréia na decisão unânime após 15 minutos de muita trocação.            

Chuck Liddel fez sua estréia no MMA como alternate deste torneio até 93kg

TANK SURPREENDE HUGO EM 45 SEGUNDOS

Vindo de uma impressionante seqüência de 5 vitórias em menos de um minuto em eventos no Japão e Estados Unidos, Hugo Duarte, chegou como franco favorito para sua estréia no UFC contra Tank Abbott. “Você vai ganhar dele fácil” disse Carlson Gracie na conferencia de imprensa, deixando de lado sua rivalidade com a Luta Livre. Mas foi exatamente a certeza de sua superioridade técnica que fez o general da Luta-Livre menosprezar o Bad Boy. “Este Tank é um fanfarrão sem técnica vou machucá-lo e vai ser rápido” declarou o carioca na conferência. O americano não gostou e respondeu “Quem é isso ? ele fala demais”. O clima chegou a ficar tenso, mas a turma do deixa disso chegou a tempo para impedir que a luta começasse com 24hs de antecedência.

Assim que Big John proferiu seu clássico “Let´s get it on” Hugo voou nas pernas de Abbott e o colocou para baixo. Mas enquanto brasileiro buscava chegar no cem quilos, Tank aproveitou a grade para ficar de quatro, permitindo que Hugo chegasse as suas costas sem, no entanto, colocar os dois ganchos acabou optando por um armlock. 

O americano escapou e partiu pra cima do brasileiro que, encurralado nas grades, levou uma serie de 15 socos no rosto e na nuca, obrigando Big John a interromper a luta. 

Enquanto brasileiro se recuperava Tank foi ao córner pegou sua camisa e estendeu a frente do brasileiro. “Não gosto de dar desculpas. Mas quando peguei as costas do Tank, senti um forte puxada na perna quando fui colocar o segundo gancho, distendi a perna e acabei perdendo a posição. Foi um incidente achei que ia ganhar de barbada . Todo lutador tem um dia ruim. Este foi o meu”, me disse Hugo no dia seguinte a luta. 

COMEMORAÇÃO NA DELEGACIA

Curiosamente na noite do evento testemunhei Tank fazer jus a sua fama de Bad Boy. Poucas horas depois da vitória sobre Hugo o “Zé Encrenca” foi preso pela polícia local ao chutar um leigo numa boate. Eu estava nas imediações jantando com Carlson Gracie e seu faixa preta Rinaldo Santos e posso garantir que em menos de meia hora Tank entrou no estabelecimento e saiu algemado por policiais.     

Cinco meses mais tarde Tank voltaria a enfrentar um brasileiro no UFC 17.5 no ginásio da Portuguesa em São Paulo. Mas a vingança de Pedro Rizzo ao parceiro de treinos de Luta-Livre, Hugo Duarte, a gente conta outro dia.