UFC 43: Virada alavancada pela velha guarda

0
541

Diante do momento de crise de popularidade do UFC, no ápice da era Pride, quando os números de pay per view do show americano dificilmente chegavam a 50 mil pacotes vendidos, Dana White decidiu recorrer aos velhos ídolos. E deu certo. Depois de trazer Ken Shamrock contra Tito Ortiz e conseguir vender 100 mil pacotes no UFC 40, Dana resolveu pegar pesado na escalação de lendas na 43o edição do evento realizada no dia 6 de Junho de 2003 no Thomas and Mack em Las Vegas. Sente só a escalação: Randy Couture, Chuck Liddel, Vitor Belfort, Pedro Rizzo, Frank Mir, Kimo e Tank Abbot.

Reportagem e Fotos Marcelo Alonso

De alma lavada, o promotor Dana White abriu a conferência de imprensa realizada logo após o show resumindo muito bem o que foi o UFC 43. “O que falar de um evento que tem Pedro Rizzo e Tra Telligman fazendo a preliminar, além de Liddell, Belfort, Couture, Kimo e Tank?”. As quase 10 mil pessoas que praticamente lotaram as dependências do ginásio Thomas & Mack Center, em Las Vegas, concordaram em gênero, número e grau.

Kimo X Tank Abbot

No octagon, além da vitória, estava em jogo também uma rivalidade antiga. Numa das primeiras edições do UFC, Tank Abbott (1,83m/113kg) quase brigou nos bastidores com o brasileiro Allan Góes e os dois só não chegaram às vias de fato porque Allan estava com Joe Moreira e Kimo Leopoldo (1,90m/107kg) se juntou a eles. Desde então, a organização planejava resolver a pendenga entre os locais de Huntington Beach no octagon. “Nunca brigamos na rua, pois apesar de morarmos no mesmo local, frequentamos lugares diferentes. Mas agora, chegou a hora”, me disse Kimo na press conference. Pela primeira vez, Tank tentou contemporizar aquela história apertando a mão de Kimo e lhe desejando boa sorte no dia da pesagem, mas, no octagon, o faixa marrom Kimo não deixou por menos: botou em prática suas lições com o mestre Joe Moreira, colocou o oponente para baixo e finalizou Abbott com um Katagatami da meia-guarda. Na comemoração, Kimo deu um beijo no oponente de barba grisalha, que saiu do octagon irritado e, como de praxe, descontou sua irritação em leigos na festa do evento realizada à noite no Hotel Hard Rock.

Belfort cabeludo atropela Eastman

A popularidade de Vitor Belfort (1,83m/ 93kg) é algo também impressionante em todos estes anos de Ultimate. Apesar da presença de feras como Chuck Liddel, Randy Couture e Ken Shamrock na última reunião de regras, realizada um dia antes do evento, foi em volta do brasileiro, que foi revelado no UFC 12, que formou-se uma fila de fãs para pedir autógrafos. Dentro do octagon, a expectativa dos fãs foi confirmada por Vitinho, que com novo visual (cabelos compridos), partiu para cima da revelação americana, Marvin Eastman (1,74m/ 93kg), aluno de John Lewis que, com um excelente Muay Thai e uma boa base de Wrestling, já havia aniquilado o Brazilian Killa, Alex Stiebling, o seu compatriota Tom Sauer e empatara com Quinton Jackson. Fã declarado do brasileiro, a quem disse “acompanhar desde as primeiras edições”, Eastman entrou no octagon nitidamente intimidado pelo olhar confiante de Belfort. Assim que soou o gongo, Eastman foi para cima do brasileiro e após tentar um chute alto, recebeu um cruzado certeiro como resposta. Na seqüência, Vitinho buscou o clinche e acertou duas joelhadas, que levaram o oponente ao solo com um rombo de quase 15 centímetros na testa. De dentro da guarda de Eastman, Vitor acertou uma saraivada de socos obrigando Big John a interromper o combate a xminxseg. Muito emocionado, Belfort pegou a bandeira do Brasil e comemorou muito com a namorada Joana Prado, a mãe Jovita e os parceiros de treino Leonardo Vieira e Mauro. “Hoje eu trouxe de volta aquele Vitor das mãos rápidas que todos queriam ver”, disse, chorando, o lutador, enrolado numa bandeira brasileira.

Rizzo faz as pazes com a vitória

Outro que lavou a alma foi Pedro Rizzo. Depois de três derrotas seguidas (Couture, Matyuschenko e McGee), onde literalmente não lutou 10% do que sabe, Rizzo voltou a mostrar aquela agressividade que o consagrou como um dos maiores pesos pesado do mundo. O brasileiro encarou um antigo conhecido (Telligman foi derrotado pelo brasileiro no UFC 20), que voltava mais motivado, uma vez que passou a lutar como boxer profissional tendo cinco lutas e quatro vitórias. Como de praxe o brasileiro começou dando um susto nos fãs no primeiro round, onde entrou no jogo do boxer e, sem soltar nenhum de seus poderosos chutes, levou desvantagem na trocação chegando a levar um knock-down e terminando o round com o supercílio cortado.

Entretanto, uma bronca do mestre Ruas no intervalo acordou o Atleta de Cristo, que voltou possuído e finalmente soltou sua arma mortal. Bastou um low kick bem encaixado nas pernas para o boxer girar como um pião. Tra ainda respondeu com uma saraivada de socos, mas Rizzo mais uma vez surpreendeu, dando uma queda no oponente e definindo a luta no ground’npound. Bastaram dois minutos de socos na guarda para o americano, que não tem o músculo peitoral graças a um acidente de carro aos quatro anos, ficar com o rosto avariado, obrigando os médicos a interromperem a luta, decretando a vitória de Rizzo.

— O negócio agora é agredir. Eu estava muito técnico, me segurando. Os oponentes me levavam para baixo e ficavam me amarrando na grade. Resolvi mudar de tática. Agora vou sair na porrada toda luta — garantiu Pedro,

— A gente vinha fazendo um trabalho pra ele ser mais agressivo, mas ainda não estou satisfeito, quero mais. Ele tem muito mais a mostrar, tem que usar as ferramentas que sabe, soltar a perna, derrubar, joelhada, chute no chão. Hoje ele fez coisas que não fazia, mas na próxima acredito que ele vá desenvolver ainda mais — disse o mestre Ruas.

Outro atleta do time do Lion’s Den que mostrou grande evolução foi Vernon White. O Tigre, como é conhecido, entrou no evento para substituir o mestre Ken Shamrock, que machucou o joelho, na luta contra a pedreira Ian Freeman. Com um excelente Muay Thai e uma boa técnica de chão, Tiger White se impôs diante do explosivo inglês, que era franco favorito para vencer o combate. A luta foi duríssima, com muita ação tanto em pé como no chão, onde ambos se alternaram no domínio. O empate acabou sendo o resultado mais justo.

Couture atropela Liddell

No Ultimate dos velhinhos, não podia faltar a fera Randy Couture, que a duas semanas de completar 40 anos, resolveu perder 10kg e enfrentar Chuck Liddell pelo cinturão da categoria até 90kg. Apontado pelos especialistas como uma das maiores pedreiras da atualidade, Liddell vinha de nove vitórias seguidas, enquanto Couture perdera os dois últimos confrontos: para Josh Barnett e Ricco Rodrigues (ainda na categoria pesado). Entretanto, quem conhece Randy Couture teimava em apontá-lo como favorito para o combate.

— Quando o Randy é o azarão, ele se supera. Foi assim contra o Vítor, o (Kevin) Randleman e várias outras vezes. Pra mim, ele é o franco favorito — nos confidenciou seu ex-treinador, Ricco Chiapareli, antes do confronto.

No vídeo mostrado na entrada dos lutadores, o discurso arrogante de Liddell — quando aquela porta for fechada, vou machucá-lo — contrastava com a humildade do veterano Couture — não posso dizer que esta luta é um clássico wrestler contra striker porque o Liddel é um excelente wrestler, eu o respeito muito. Na luta, Randy provou que é mesmo uma fera e acabou ficando com o título do Middleweight, se tornando o primeiro lutador a ter o cinturão das duas categorias.

Partindo para cima do adversário o tempo todo, Couture não deixou Liddell fazer seu jogo, dominando a luta tanto em pé como no chão. Depois de um primeiro round bem disputado, o wrestler passou a dominar inteiramente o segundo e terceiro rounds, complementando belas seqüências de socos com bonitas quedas que levantaram a galera. Como de praxe, o escorregadio Liddell conseguiu levantar em três oportunidades, mas na quarta já estava completamente esgotado, se tornando presa fácil para o veterano, que montou e, com uma saraivada de socos, obrigou Big John a decretar o fim da luta.

Na conferência de imprensa, Liddell, muito abatido, não deu desculpas. “O que posso falar? Treinei demais para esta luta e o Randy chutou a minha bunda, não tenho desculpas”, disse, sendo abraçado pelo humilde oponente, que ainda lhe agradeceu: “Obrigado. Graças a você eu consegui voltar a tirar o melhor de mim”, reconheceu o novo campeão. Belfort aproveitou a oportunidade para pedir a revanche com Couture. “Tenho você como ídolo Randy, mas quero o seu cinturão”, desafiou o brasileiro, sob o olhar sorridente do promotor Dana White.

Curiosamente Liddell e Couture estariam diretamente ligados a grande virada do esporte a partir do The Ultimate Fighter. Graças a popularidade de ambos que Dana os escolheu para serem treinadores do primeiro TUF, evento responsável direto pela grande virada do esporte. Não por acaso o primeiro show depois do TUF (UFC 52), em abril de 2005 levou o UFC a marca de 280 mil pacotes vendidos na luta principal entre os treinadores. Desta vez, porém, Liddel venceria por nocaute. Resultado que se repetitria na revanche no ano seguinte (UFC 57) Dando margem a revanches

Na categoria Middleweight, que após a saida de Murilo Bustamante não tem mais um campeão, o wrestler Matt Lindland provou de seu próprio veneno na luta contra o estreante havaiano Falaniko Vitale, aluno de Egan Inoue. Em uma fatalidade histórica, na tentativa de aplicar um suplê em Vitale, Lindland bateu com a cabeça no chão e apagou.

Uma outra luta que levantou a galera foi entre o gigante Wes Sims (6’10” – 250lbs) e Frank Mir (6’3” – 240lbs), aluno dos brasileiros Ricardo Pires e Sérgio Penha. Faixa preta de Jiu-Jitsu, Mir já havia mostrado um chão de primeira finalizando Tank Abbott, Pete William e Roberto Traven. Aluno de Coleman e Randleman, Sims deu show de arrogância e conquistou o público com seu estilo Tank Abbott de ser. Assim que começou o combate, Mir fez menção de bater luvas pra cumprimentar o oponente e, diante da recusa, atacou as pernas de Sims num tiro certo, passando a dar uma tremenda dura no chão. Depois de bater muito na montada, Mir se precipitou no arm-lock e acabou perdendo a posição, para delírio da galera. Por cima, Sims deixou as regras de lado, e com suas longas pernas pisou o rosto de Mir por dentro da guarda. A luta foi interrompida e, após muita confusão, o Bad Boy foi desclassificado.

Na única luta Lightweight do evento, o americano Yves Edward deu um verdadeiro show em Eddie Ruiz tanto em pé, como no chão, e mostrou que não deixa nada a desejar a Vitor Shaolin, Bj Penn, Júnior Buscapé, Takanori Gomi e Jens Pulver na disputa pelos primeiros lugares do ranking da categoria.