Uma visita ao templo de Hélio Gracie, em seu aniversário de 107 anos

Se estivesse vivo, neste dia 1o de outubro de 2020, o mestre Hélio Gracie estaria completando 107 anos. Em homenagem a ele, neste 2º episódio do baú vou relembrar o dia em que tive a honra de entrevistá-lo, junto com meu amigo fotógrafo Fernando Azevedo, em sua casa em Itaipava em 2001. O início da história foi meio tenso, mas o final acabou sendo muito melhor do que planejamos…

“O que manda, campeão. Marcou com alguém?”. Não poderiaexistir ducha de água fria maior para um jornalista. Mas foi exatamente essa frase que ouvi após dirigir 2 horas, entre Rio eItaipava, compartilhando com meu colega fotógrafo FernandoAzevedo a ansiedade de entrevistar a lenda Hélio Gracie (com 86 anos na época), em sua casa. E em seguida ele ainda emendou debate-pronto com: “Eu não dou entrevistas”.

Ainda tentei argumentar: “Mestre, lembra que liguei parao senhor na sexta passada marcando para hoje (terça). Eu soucorrespondente da Cinturon Negro no Brasil e o Rorion, seufilho, pediu que nos concedesse esta entrevista. O Sr. pode ligarpara ele, eu espero aqui sem problemas”. O mestre de fatoparecia não lembrar da ligação e, para piorar, argumentou quenaquele momento tinha que levar sua esposa ao banco, quefecharia em 30 minutos.

“Vamos nessa, Alonso, vamos nessa”, me disse baixinho meucolega constrangido e ainda trêmulo por ver de tão perto um deseus ídolos.

Foi quando tentei minha última cartada: “Mestre, eu dirigi 2horas porque o Sr. disse que me atenderia. Não tenho a menorpressa para voltar ao Rio, mesmo que não me dê entrevista, nãoacredito que vá me negar uma sessão de fotos. Vamos fazer o seguinte,o senhor vai ao banco e eu fico aqui na varanda montandoo estúdio para fotografá-lo”.

O Mestre deve ter percebido que não se livraria com tanta facilidade daquele jornalista insistente e, para minha sorte, resolveuaceitar a proposta.

“Tá bom, mas eu vou demorar”, respondeu HélioGracie, pulando no volante de sua Santana e saindo em disparadacom sua esposa.

Menos de uma hora depois, Hélio Gracie voltou, já mais tranquiloe, tendo digerido a ideia das fotos, emendou com a perguntavaque costumava fazer a seus convidados: “Trouxeram oquimono? ”. Para minha surpresa, Azevedo, do alto de seus 98kgrespondeu sem titubear: “Sim, mestre! ”. “Então vamos fazer as fotoslá na minha academia”, disse Hélio, saindo em disparada paraseu quarto parecendo um garoto de 86 anos e pouco mais de 60kg.

Ao voltar, já de quimono, Hélio pareceu esquecer que estávamosali a trabalho. Se deitou e imediatamente pediu que Azevedomostrasse o que sabia. “Pode começar da posição que você mais gosta”. Diante do pedido do mestre, o fotógrafo partiu parao cem quilos, mas num misto de respeito e reverência ao ídolo,congelou. “É só isso que você sabe como faixa-azul?”, perguntouo Gracie, com sua tradicional marra provocando o oponentequase 40kg mais pesado.

O mais tenso com toda aquela situação era eu mesmo, afinalquem tinha aparecido na casa do mestre com aquele trogloditade 98kg? Mas mestre Hélio rapidamente acabou com a minha tensão: virou de quatro, passou a guarda e montou, partindo para uma indefensável chave de braço.

“Caramba o velhinho é muito sinistro! ”, disse um Fernando Azevedo boquiaberto após dar os três tapinhas.

Após se divertir no treininho com Fernando, mestre Héliobaixou a guarda e aceitou me conceder uma longa entrevista,além de passar quase uma hora posando para fotos. No final aindanos apresentou seu sítio e, quando foi se despedir nos levandono carro, acabou me proporcionando a melhor imagem do dia:

O adeus de Hélio Gracie, que após seu falecimento, oito anosdepois, no dia 29 de janeiro de 2009, acabaria sendo publicadana capa de quatro dos cinco veículos para os quais trabalhava. Vivemos um momento de redescobertas históricas. Graças ao excelente trabalho de novos historiadores da luta, muitos personagens esquecidos tem sido devidamente apresentados às novas gerações e antigos conceitos têm sido rediscutidos. Mas independente de qualquer nova descoberta Mitsuyo Maeda, Carlos Gracie e seu irmão Hélio continuam sendo reconhecidos e reverenciados como os protagonistas desta história que deu origem ao que chamamos de Jiu-Jitsu e MMA modernos.