WVC 4: Pelé x Macaco 2; Marco Ruas x Pat Smith e Johil x Pelé

Quatro meses após dominar Taktarov em pé naquele polêmico empate no WVC 2

 

Foto: Marcelo Alonso

Além de uma luta principal entre o campeão do UFC 7, Marco Ruas, e o finalista do UFC 2, Pat Smith, o WVC 4, realizado por Frederico Lapenda no dia 16 de março de 1997 no salão do hotel Maksoud Plaza em São Paulo, ainda trouxe um torneio de oito lutadores até 80kg (entre 4 americanos e 4 brasileiros). Enquanto todos os holofotes se concentravam na maior rivalidade do Vale-Tudo brasileiro naquele momento, entre Pelé Landi e Jorge Macaco, que abriram o torneio fazendo uma guerra, as feras da Luta-Livre Johil de Oliveira e Marcelo Aguiar corriam por fora para fazer história.

RUAS FINALIZA EM 39 SEGUNDOS

Quatro meses depois de empatar com Taktarov no WVC 2, numa luta onde o russo exigiu regras especiais que o impediam de chutá-lo, Marco Ruas (1,85/101kg/35A) voltou ao Maksoud Plaza para enfrentar o finalista do UFC 2, Patrick Smith (1,85/101kg/30ª).

Desta vez, sem regras especiais, Marco não teve problemas para colocar em prática sua máxima: “Se você chuta e soca, eu agarro. Se você agarra, eu chuto e soco”.

Ruas começou acertando um potente low kick no joelho do americano, que revidou. Na seqüência o carioca partiu para o clinche e conseguiu derrubar Smith, mas acabou se precipitando na tentativa de montar e caiu por baixo, dando um susto na torcida. Enquanto Smith se ajeitava para aplicar seu Ground N Pound, Marco dominava sua perna esquerda atacando uma de suas posições prediletas, a chave de calcanhar. O americano, desequilibrado, já caiu batendo.

Foto: Marcelo Alonso

O NASCIMENTO DO IVC

Curiosamente naquela mesma noite, enquanto eu voltava de ônibus para o Rio, a parceria entre Lapenda e Batarelli, que exercia importante papel na coordenação logística do evento, chegaria ao fim.

Quem acabou ganhando com isso foram os lutadores e fãs do esporte que passaram a contar com dois grandes eventos nacionais. A partir de Julho de 1997 Batarelli faria a primeira, das treze edições do seu IVC no Maksoud Plaza enquanto Lapenda seguiria em vôo solo com seu WVC, que chegou a catorze edições com eventos realizados em Recife, Japão, Aruba e Jamaica.

Não é exagero dizer que, sem as plataformas de lançamento de Lapenda e Batarelli, provavelmente lendas do esporte como Pedro Rizzo, Mark Kerr, Wanderlei Silva e Pelé Landi talvez não tivessem conseguido chegar aos maiores eventos do mundo.

PELÉ X MACACO 2

Após a vitória de José Pelé Landy (1,81/79kg) sobre o maior representante do Jiu-Jitsu paulista no MMA, Jorge Patino Macaco (1,71/79kg), na final do 1º campeonato brasileiro de Vale Tudo em novembro de 95, a revanche passou a ser uma questão de honra para Macaco e a luta mais aguardada por todo o fã do esporte no Brasil. E obviamente Batarelli e Lapenda não perderiam a oportunidade de fazer uma luta entre os dois logo na abertura do torneio até 80kg deste WVC 4. Difícil foi manter os dois no mesmo hotel até a hora da luta.

Para quem não lembra, no primeiro confronto, 24 anos antes de Adesanya vs Borrachinha, Pelé havia feito um movimento “de cópula” na cabeça de Macaco, que obviamente não gostou ao ver a fita após a luta e prometeu acertar as contas quando reencontrasse o rival. O que aconteceu na coletiva, onde os dois deram um tremendo trabalho para os organizadores.

Com o apoio maciço da torcida do Jiu-Jitsu, Macaco começou clinchando, derrubando e montando, de onde passou a bater muito no raçudo representante da Chute Boxe. Pelé chegou a perder um dente, mas nem pensava em desistir.

E foi exatamente este mental blindado que levou Pelé a conseguir mudar os rumos da luta, quando Macaco desistiu de atacar um mata-leão para bater mais.

A partir daí a história do primeiro combate se repetiu. Macaco cansou, perdeu a montada e levou a pior em pé. Depois de encaixar algumas joelhas e boas sequências de socos, Pelé obrigou a o juiz a interromper o combate decretando o nocaute técnico e silenciando, mais uma vez, a torcida do Jiu-Jitsu. Pelé venceu, mas saiu do ringue ciente que aqueles 10 minutos de batalha poderiam impactar no resultado da guerra. O que de fato ocorreu.

JOHIL DE OLIVEIRA: DE ALTERNATE A NOME DA NOITE

Apesar da experiência no Vale Tudo, Johil de Oliveira (1,73m/70kg), que já havia lutado Vale-Tudo com Crézio Souza do Jiu-Jitsu e até representando o Brasil no UVF 1 japonês, estranhou o convite para fazer a luta alternativa do torneio, mas não se fez de rogado e atropelou o americano Kogi Lerman (1,70/78kg) em apenas 43s.

O oponente de Pelé na semifinal seria definido da luta entre Rick Lucero (1,76m/71kg), aluno de Joe Moreira e Charles Kim (1,73m/79kg) representante do kickboxing. Depois de 24 minutos de muita trocação Lucero finalizou Kim com uma guilhotina, mas se machucou deixando a sua vaga e a indigesta função de enfrentar o favorito Pelé Landi para Johil de Oliveira.

Enquanto isso, na outra chave, o aluno de Mestre Hulk da Capoeira, Antonio Garra (1,74/79kg), não chegou nem a suar uma vez que seu adversário, Jason Canals (1,71m/72kg) deslocou o ombro na primeira troca de golpes, obrigando Batarelli a interromper a luta aos 6 segundos.

O bicampeão brasileiro de Muay Thai (Boxe Thai) e faixa preta de Luta-Livre (Budokan) Marcelo Aguiar (1,73m/77kg) garantiu a quarta vaga nas semifinais fazendo um lutaço com o aluno de Pat Smith John Quant (1,73/77kg). Mesmo tendo 52 vitórias em 54 lutas o americano foi superado pelo brasileiro em pé e acabou sendo finalizado com um mata-leão a 9min50.

Aguiar chegou a final nocauteando o representante da Capoeira em 49 segundos. Enquanto isso, Pelé e Johil faziam uma das lutas mais sangrentas da história do Vale-Tudo nacional na outra semifinal.

Foto: Marcelo Alonso

JOHIL X PELÉ: QUANDO CABEÇADAS ERAM PERMITIDAS

Aluno do mestre João Ricardo (Budokan) e acostumado a viver em guerra com o Jiu-Jitsu no Rio de Janeiro, Johil de Oliveira subiu ao ringue para lutar a semifinal com Pelé surpreso pelo amplo apoio da torcida do Jiu-Jitsu, que não havia engolido a segunda vitória da Chute Boxe sobre seu maior ícone

Ciente de todo o desgaste físico de Pelé, que vinha de uma guerra de quase 10 minutos, Johil fez a tática perfeita. Assim que a luta começou já clinchou e derrubou caindo na guarda do representante do Muay Thai.

Confortável por cima, Johil passou a levar nítida vantagem na luta, deformando Pelé com socos, cotoveladas e cabeçadas. Mas o guerreiro da Chute Boxe não se entregou e, mesmo por baixo, se mostrou vivo na luta o tempo todo, acertando alguns golpes no atleta da Budokan, chegando a abrir cortes em sua cabeça e agitando a torcida.

Ao final dos 30 minutos do 1º round, a luta foi interrompida pelos médicos devido ao estado do rosto de Pelé, que ainda saiu revoltado do ringue. E quem esperava ver uma final de altíssimo nível entre dois representantes da Luta-Livre se decepcionou. Mesmo treinando na Budokan, Johil e Marcelo já haviam avisado que lutariam a final. Mas graças aos cortes na cabeça na sangrenta batalha com Pelé, os médicos proibiram Johil de lutar. “Peço desculpas ao público, mas foi uma decisão dos médicos, por mim lutaria. Faremos esta luta em outra oportunidade”, justificou-se ao microfone um emocionado Johil de Oliveira, sendo ovacionado pela galera.

Marcelo Aguiar, a grande revelação do evento, acabou ficando com o título voltando de cara limpa para o Rio. A vitória no torneio publicada na revista japonesa Kakutougi Tsushin acabou rendendo a Marcelo um convite para lutar contra o ídolo do Shooto Hayato Sakurai no Vale Tudo Japan de 1997. O brasileiro conseguiu o empate.

Pelé e Johil voltariam a se enfrentar em outra guerra de 30 minutos no IVC 11. Na revanche, porém, Pelé levaria a melhor, vencendo na decisão.