ADCC 1999: Brasil leva 50% dos ouros na edição que consagrou as olimpíadas da luta agarrada

Na categoria acima de 98kg Mark Kerr e Carlão Barreto travaram a disputa que todos sonhavam ver no MMA e nunca ocorreu.
Na categoria acima de 98kg Mark Kerr e Carlão Barreto travaram a disputa que todos sonhavam ver no MMA e nunca ocorreu.

Se hoje o Jiu-Jitsu é tido como modalidade de ensino obrigatório nas escolas de Abu Dhabi dando emprego formal com salário de 5 mil dólares para mais de 100 brasileiros não se pode esquecer que tudo começou com o ADCC (Abu Dhabi Combat Club Submission Wrestling World Championship), o evento idealizado pelo Sheik Tahnoon, irmão de Mohamed, para confrontar numa mesma regra os maiores grapplers do mundo. Graças ao sucesso da primeira edição do evento realizado em 1998, Tahnoon resolveu, a partir de 1999, transformar o ADCC numa espécie de Olimpíada da luta agarrada.

O que você faria se a sua família fosse dona de 9% de todo o petróleo do mundo e quisesse mostrar ao mundo a eficiência da sua modalidade de luta preferida, no caso o Jiu-Jitsu ?

Deve ter sido esta a pergunta que Tahnoon Bin Zayed, Sheik dos Emirados Árabes Unidos, se fez quando decidiu criar o ADCC. Apaixonado pelo Jiu-Jitsu, que aprendeu na Califórnia com o brasileiro Nélson Monteiro, Tahnoon decidiu criar o ADCC no intuito de testar seu estilo contra diversos outros como Judô, Wrestling, Sambo, Luta-Livre. Depois do sucesso de um evento teste realizado em 1998 com um número reduzido de convidados, Tahnoon resolveu investir pesado fazendo um torneio mundial em 1999.

Para isso o Sheik não economizou e trouxe os maiores nomes do Grappling mundial. Os principais campeões mundiais de Jiu-Jitsu, grandes nomes do Wrestling, judocas e até alguns medalhões do MMA, como Mark Kerr que na época recebeu 20 mil para fazer uma luta com Carlão Barreto (e mais 25 mil para continuar no torneio). As premiações eram 10 mil para os campeões das 5 categorias de peso, 40 mil para o absoluto e 30 mil para a superfight. A melhor finalização, a melhor queda, o atletas mais técnico e os dois lutadores que protagonizassem o melhor combate ainda faturavam US$ 1350.

Estipula-se que Tahnoon tenha gasto mais de 1 milhão de dólares entre passagens, estadia de cinco dias em hotel cinco estrelas e mais premiação para os mais de 300 grapplers do mundo inteiro trazidos para a competição.

A delegação mais numerosa era sem dúvida alguma a brasileira. Fã do Jiu-Jitsu, Tahnoon fez questão de trazer, por intermédio de seus amigos pessoais (Renzo Gracie e Zé Mario Sperry) os maiores nomes em atuação no Jiu-Jitsu. Até o convite dos repórteres era feito pela indicação de um dos dois. Como Luca Atalla da Gracie Magazine, fazia parte da delegação de Renzo, Zé Mario deu um jeito de me colocar, como Tatame, representando a equipe Carlson Gracie.

No final o Brasil ficou na frente no quadro de madalhas (3 de ouro, 2 de prata e 3 de bronze), seguido de Estados Unidos (2 de ouro e 2 de prata), Rússia (1 de ouro, 1 de prata e 1 bronze), Japão (2 de prata, 1 de bronze) e Austrália (1 bronze). Jean Jaques foi apontado o atleta mais técnico e Royler e João Roque ganharam o prêmio de melhor luta da competição

Até 65kg: Royler vence quatro e fatura ouro

Como esperado os brasileiros dominaram inteiramente a divisão mais leve da competição, que mais parecia um campeonato estadual de Jiu-Jitsu do Rio de Janeiro, uma vez que Royler Gracie (Gracie), João Roque (Nova União) e Alexandre Socka (Gracie Barra) foram os grande destaques.

Acostumados a lutarem nas finais da categoria nos principais eventos do Jiu-Jitsu nacional, Roque e Royler fizeram uma das lutas mais parelhas e movimentadas do evento nas quartas de final. O Gracie avançou por ser considerado mais ofensivo na prorrogação. Na semifinal Royler venceu o americano Melchor Manibusan (uma raspagem e 3 passagens de guarda) enquanto Socka precisou de 28 minutos para pegar as costas e finalizar o russo Alexander Plavsky. Na grande final Royler surpreendeu Socka com um leglock em 33 segundos, garantindo a primeira medalha de ouro para o Brasil.

Depois de passar pelo arqui-rival João Roque, Royler Gracie venceu o campeão de 98, Alexandre Soca na final e faturou o título da categoria até 65kg

Até 77kg: Jean Jaques finaliza todas e leva premio de mais técnico

Numa divisão recheada de grandes nomes do MMA como André Pederneiras, Hayato Sakurai, John Lewis e Kaoro Uno, quem brilhou finalizando todas as lutas e recebendo o premio de atleta mais técnico da competição foi Jean Jaques Machado. O carioca enfileirou Ryan Harvey (armlock em 44 segundos), Micah Pitman (mata-leão em 4 minutos), Hayato Sakurai (mata-leão em 5min09s). Na final todos esperavam um luta dura, uma vez que Jean teria pela frente o japonês Kaoro Uno, que havia eliminado o duríssimo Pedro Duarte (2×0) e finalizado John Lewis, mas não deu nem para o cheiro. Mais uma vez o brasileiro brincou, só precisando de pouco mais de 5 minutos para raspar, pegar as costas e aplicar seu terceiro mata-leão na competição garantindo o prêmio de mais técnico.

Até 87kg: Russos eliminam tropa de elite do Jiu-Jitsu brasileiro

Ricardo Libório, Renzo Gracie, Fábio Gurgel e Amaury Bitetti. Em nenhuma outra divisão o favoritismo brasileiro era tão justificado. Com tantos campeões da elite do Jiu-Jitsu nacional as apostas nos bastidores eram para definir qual seria o grande clássico nacional na final. Mas eis que dois russos (professores de Wrestling da equipe do Sheik em Abu Dhabi) jogaram Vodka no Açaí dos brasileiros, não só eliminando um a um todos os favoritos, como fazendo um confronto do Wrestling russo na final.

Libório começou vencendo o japonês Akihiro Gono por 5×0, passando nas quartas de final pelo faixa marrom de Zé Mario, Luis Brito (16 x 0).

Mas a tão aguardada luta entre Fábio Gurgel e Libório nas quartas acabou não ocorrendo. Após apagar o japonês Nobuhiro Tsumaki com um esgana galo, Gurgel foi surpreendido por Sasha (2 x 0), que soube usar as regras para evitar o chão enquanto Fábio tentava trazê-lo a todo custo para sua guarda. Quando faltavam 3 segundos para terminar Sasha pulou nas pernas de Fábio e conseguiu a queda.

Enquanto isso do outro lado da chave Renzo tinha o mesmo problema contra o wrestler e faixa marrom de Jiu-Jitsu Egan Inoue, que o eliminou num lance bem parecido com o de Fábio Gurgel.

Após vencer com tranqüilidade o japonês Akira Shoji por 5 x 0, o tricampeão mundial de Jiu-Jitsu Amaury Bitetti foi eliminado pelo russo Kareem Barchalaev numa das lutas mais contestadas do evento. Com este resultado Libório ficou sendo o único brasileiro nas semifinais.

Enquanto Barkalaev vencia Egan com uma queda, Sasha garantia a final russa repetindo contra Libório a mesma tática que fizera com Gurgel, para desespero do mestre Carlson que não parava de chamar o russo de corrido a beira do ringue. “Qualquer tipo de combate seja ele briga de galo, de peixe, judô ou Wrestling, tem penalização para fuga. Estas regras têm que ser modificadas”, me disse Carlson inconformado logo após a eliminação de seu aluno com duas quedas. Já Nelson Monteiro, professor de Jiu-Jitsu e córner de Kareem e Sasha defendeu os russos. “Libório e Gurgel também correram da luta em pé. Cada um joga na sua especialidade”.

No ano seguinte Barkalaev lutaria na divisão de cima fazendo aquele clássico histórico com Ricardo Arona, que aliás será assunto do nosso próximo Raiz do MMA

Até 99kg: Saulo luta de Kimono em final com Jeff Monson

A divisão até 99kg era outra recheada de lendas do Jiu-Jitsu brasileiro. Rigan Machado, Murilo Bustamante, Roberto Traven, Ricardo Cachorrão, mas levando em conta o que vinha fazendo nos campeonatos mundiais, sem duvida o favorito da divisão era Saulo Ribeiro. E mesmo sendo o lutador mais leve da divisão com 86kg, o aluno de Royler Gracie cumpriu o que se esperava dele. Depois de finalizar o russo Mourat Ozov com um mata-leão em menos de dois minutos, o amazonense foi aplaudido de pé após fazer 16 x 0 no aluno de Shamrock, Vernon White, numa aula de Jiu-Jitsu. Na semifinal, Saulo conseguiu fazer 5 pontos em Murilo Bustamante, que havia eliminado Ricardo Cachorrão (2 x 0), passando a final com o “Homem de Neve” Jeff Monson.

O americano havia feito um jogo muito parecido com os wrestlers russos para eliminar os brasileiros Fabiano Capoane (3×0), Roberto Traven (4×0) e Rigan Machado (decisão). E diante da dificuldade que todos os 3 representantes do Jiu-Jitsu encontraram para segurar o gigante americano, Saulo resolveu inovar entrando para lutar de kimono. A tática inicialmente deu certo, facilitando o brasileiro a puxá-lo para a guarda e buscar ataques, mas no decorrer da luta os 15kg de vantagem e excelente preparo do americano acabaram fazendo a diferença e, depois de 40 minutos (2 prorrogações), Monson foi declarado campeão.

+ 99kg: Mark Kerr vence lutando Jiu-Jitsu

A luta de MMA que todos gostariam de ter visto na final do UFC 15 em 1997 acabou acontecendo na abertura da divisão acima de 99kg. Quando o confronto começou Carlão logo puxou Kerr para a guarda, mas este travou seu quadril impedindo seus ataques e amarrando a luta até o final. Na prorrogação, porém, Mark se antecipou a uma tentativa de raspagem do brasileiro para chegar a sua meia guarda e, na seqüência, ao cem quilos. Carlão esperneou e repôs, mas esta pequena vantagem foi suficiente para o wrestler garantir a vitória.

Depois de passar pelo maior rival em luta dura, Kerr não teve dificuldades para conquistar o título. Fez 6 x 0 em Josh Barnett, 15 x 0 em Chris Hasseman e, na grande final, passou duas vezes a guarda de Sean Alvarez.    

Absoluto é marcado por “fechamento” brasuca

Além de ser a categoria que pagava melhor (40 mil dólares) o absoluto também definia o protagonista da superfight do ano subseqüente. Os 16 lutadores eram normalmente definidos pelo Sheik pinçando os maiores destaques de cada categoria. Como não poderia deixar de ser a chave teve farta presença brasuca. Sete no total (Traven, Bustamante, Bebeo, Capoane, Luis Brito, Draculino e Pedro Duarte). Completando a lista mais sete americanos, 1 russo e 1 japonês. Nesta quinta de manhã no canal do PVT no Youtube Bebeo Duarte vai contar todos os detalhes dos bastidores deste histórico absoluto que acabou sendo vencido por Roberto Traven, que segundo Carlson Gracie. “Acabou com a creontagem e promoveu a paz no Jiu-Jitsu”

QUADRO DE MEDALHAS

1º BRA – 3 ouros, 2 pratas, 3 bronzes

2º EUA – 2 ouros , 2 pratas

3º RUS – 1 ouro, 1 prata, 1 bronze

4º JAPÃO – 2 pratas, 1 bronze

5º AUSTRALIA – 1 bronze

 

ATÉ 65KG – Ouro – Royler Gracie (BRA); Prata – Alexandre Socka (BRA); Bronze – Alexander Plavski (RUS)

ATÉ 77KG – Ouro Jean Jaques Machado (BRA); Prata – Kaoro Uno (JAP); Bronze – Hayato Sakurai (JAP)

ATÉ  88kg – Ouro – Kareem Barchalaev (RUS); Prata – Alexander Sasha (RUS); Bronze- Ricardo Libório (BRA)

ATÈ 99Kg – Ouro – Jeff Monson (EUA), Prata- Saulo Ribeiro (BRA), Bronze- Ricardo Almeida (BRA)

+ 99KG – Ouro Mark Kerr (EUA), Prata Sean Alavarez (EUA), Bronze Chris Hasseman (AUS)

ABSOLUTO – Ouro Roberto Traven (BRA), Prata Hayato Sakurai (JAP), Bronze Rico Rodrigues (USA)

SUPERFIGHT – Zé Mario (BRA) venceu Egan Inoue (JAP)