Bia Ferreira quer ser a primeira da história a ganhar cinturão profissional e medalha olímpica no mesmo ano

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Bia Ferreira está em busca de fazer história - Matchroom

Nunca ninguém na história foi campeã mundial profissional e medalhista olímpica no mesmo ano. Bia Ferreira está atrás desse feito. O primeiro objetivo está marcado para 27 de abril, quando ela vai enfrentar em Liverpool a argentina Yanina Del Carmen Lescano pelo cinturão da Federação Internacional de Boxe.

Bia Ferreira está em busca de fazer história – Matchroom

“Eu gosto muito de fazer história. Eu gosto muito de ser a primeira”, afirma Beatriz Ferreira, que tem muito claro seus objetivos: “Penso em Paris trazer a mãe de todas (como ela chama da medalha de ouro olímpica) junto com o cinto”.

O técnico da equipe olímpica permanente, Mateus Alves, não duvida.

“A Bia é a primeira brasileira do boxe bicampeã dos Jogos Pan-Americanos, ela é a primeira brasileira do boxe bicampeã mundial e ela pode ser sim uma atleta que ganha em questão de três meses um cinturão mundial profissional e uma medalha olímpica. Ela vem quebrando marcas e tem números que fazem dela um fenômeno. Desde que ela chegou na equipe olímpica, disputou quase 40 torneios internacionais e apenas em um ela não foi medalhista”.

Desde o final de 2022, Bia Ferreira leva em paralelo a carreira olímpica com a profissional. Até agora foram quatro lutas e quatro vitórias, três delas por nocaute. Ela pode ser campeã apenas em seu quinto combate profissional.

“Teve uma oportunidade de um cinturão vago da Katie Taylor, que abandonou a categoria sendo dona das quatro entidades. A Bia era a terceira do ranking. Ela fez uma proposta para a primeira do ranking, que não aceitou o desafio porque tinha uma luta marcada de prosseguimento de carreira. Depois, a segunda do ranking já estava disputando cinturão de outra organização. Então, não teve interesse em fazer essa luta com a Bia. Então, a Bia desafiou a quarta, que não quis lutar porque já tinha perdido para ela quatro vezes no olímpico. E a quinta, que é uma argentina, aceitou o desafio”, explica Mateus Alves.

“Peguei adversárias difíceis, já experientes e vi que eu não estava tão longe daquilo ali. Então, comecei a acreditar mais e mais, fui nesse foco e tudo está acontecendo”, completa Bia Ferreira.

O desafio, entretanto, é que será a primeira vez na vida que Bia Ferreira terá pela frente uma luta de dez rounds.

“O boxe olímpico são três rounds de três minutos e dificilmente tem nocaute. O profissional são dez rounds de dois minutos na disputa de cinturão feminino e buscamos muito mais o golpe de força, o golpe mais encaixado, que é realmente mais para machucar o adversário”, explica Mateus Alves. “Requer um pouco mais de paciência, de segurar um pouco mais a adrenalina. É um pouco mais de toque, mas muita surpresa. E quando as surpresas acontecem é quando pode acontecer um nocaute. A proteção da luva (em comparação com o boxe olímpico) é muito pequena e os golpes são muito fortes. Então, você tem que ficar sempre muito esperto. Não tem muito tempo para bobear. Mas ao mesmo tempo, você tem que ir na maciota. É um xadrez mais profissional”, brinca.

E nesse xadrez, Bia tem se dado bem. Em sua luta de estreia no profissional, contra a brasileira Taynna Cardoso, ela ganhou por pontos, mas derrubou a adversária duas vezes. Uma no primeiro round e outra no terceiro.

Contra a americana Carisse Brown, o castigo foi grande logo no primeiro assalto e a rival só não caiu porque as cordas seguraram, mas o árbitro abriu contagem. No segundo round, não teve jeito. Bia derrubou ela mais uma vez. A luta continuou e a surra também. Quando Brown cambaleou de novo, a luta foi encerrada por nocaute técnico.

Na terceira luta, Bia precisou lutar oito rounds. Foi a luta mais longa que fez. A brasileira venceu por pontos a mexicana Karla Zamora, única que ficou de pé até o final, mas que terminou a luta toda ensanguentada.

No último combate, entretanto, diante de Destiny Jones, dos Estados Unidos, Bia sangrou pela primeira vez, mas quem pagou o pato foi a adversária.

“Foi o meu primeiro corte, mas não me desesperou. Acho que me deu mais adrenalina. Só que eu escutava o barulho do sangue batendo no ringue”, conta a boxeadora, que revela qual foi seu raciocínio: “Machuquei, cortei… Então, estou perdendo? Peraí que vou te matar. E aí você vai com mais raiva. Aí eu consegui dar o nocaute nela no sétimo round. Foi uma mão que eu vinha treinando e que na hora eu consegui aplicar. Não foi muito pensado, mas eu vi a possibilidade e deu super certo”, comemora.

Agora, Bia Ferreira está pronta para o seu primeiro cinturão. A conquista dele, porém, não vai deixá-la completamente satisfeita. O sonho só estará completo com a “mãe de todas”, a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Paris-2024.

“São objetivos diferentes. Eu quero muito o cinturão, claro. Eu quero colecionar cintos, mas a mãe de todas é muito especial para mim porque me relembra toda a trajetória. A Bia de 2016, que veio aqui fazer só um teste, uma base e se apaixonou e quis ser uma atleta de alto rendimento. E deu certo! Eu sou muito feliz e sou muito grata ao esporte. Eu cheguei aqui uma moleca e hoje eu sou uma mulher. É um ato de gratidão, que eu quero conseguir e compartilhar com todos que me ajudaram a me tornar a mulher que eu sou hoje e ser tão apaixonada pelo esporte de alto rendimento, pelo boxe e por tudo isso que eu vivi. Então, acho que a mãe de todas é a favorita”.