Fabio Piemonte x Gilbert Yvel: Mejiro Gym vence Chute Boxe no WVC 9

O holandês soube desestabilizar Piemonte nos bastidores

Três meses depois da Luta-Livre roubar a cena na 8º edição do WVC em Aruba com a histórica vitória de Cacareco, 25kg mais leves, sobre Heath Herring, o empresário brasileiro Frederico Lapenda voltou ao paraíso caribenho para realizar a 9o edição. Desta vez, além da aguardada revanche entre Cacareco e Herring na final do torneio absoluto, o evento foi marcado por uma super luta que confrontou pela primeira vez duas potências do Muay Thai no peso pesado: a Chute Boxe representada por Fábio Piemonte (1,89/102kg) e a holandesa Mejiro Gym de Gilbert Yvel (1,87 / 103kg) . 

Fabio Piemonte x Gilbert Yvel – Fotos: Marcelo Alonso

“O Muay Thai no Brasil deve ser tão bom quanto o Jiu-Jitsu holandês”. A ironia do holandês Gilbert Yvel assim que o encontrei pela primeira vez no lobby do hotel Havana em Aruba e perguntei se esperava um duelo de strikers com seu oponente da Chute Boxe, já me levou a antever que o clima nos bastidores seria tenso. Dito e Feito.  Duas semanas após a estreia vitoriosa de Wanderlei Silva no Pride 7 na categoria até 90kg, Rudimar Fedrigo chegou a ilha caribenha com sua grande aposta no peso-pesado, Fábio Piemonte. Apesar de só ter lutado uma vez nas regras do Vale-Tudo, quando liderou a equipe Chute Boxe nocauteando Kunta Kinte na luta principal do histórico desafio com a capoeira em 1993, Fabião se destacava nos sparrings na academia e era tido como aposta certa por Rudimar, tanto que o mestrão aceitou testá-lo com Yvel que já tinha 18 lutas de Vale-Tudo.   

E definitivamente a experiência de Yvel acabou sendo um diferencial nesta luta. Com seu jeitão irônico e arrogante, o holandês conseguiu desestabilizar o brasileiro. Por sinal, a dupla deu um tremendo trabalho a segurança do evento, chegando próximo as vias de fato em pelo menos três oportunidades. E aquele clima de guerra obviamente impactou na luta que já começou num ritmo frenético. 

Piemonte começou melhor acertando uma boa sequência no holandês que sentiu e foi para as cordas, mas voltou contra atacando com uma perigosa sequência de socos e joelhadas . Fábio absorveu mas preferiu derrubar Yvel com um double leg. Na sequência o brasileiro ainda acertou alguns socos da guarda, mas o holandes voltou de pé, onde passou a levar vantagem. Fabião sentiu um cruzado e mais uma vez levou a luta para o chão, quase sendo surpreendido por uma tentativa de armlock de Yvel. Naquele ritmo frenético Piemonte escapou, mas já começou a dar nítidos sinais de cansaço. 

Percebendo o bom momento, Yvel voltou de pé aproveitando a oportunidade para tomar distância e saltar encaixando em cheio sua temida joelhada, complementada com uma sequência de socos que levaram Fábio a lona. Com o brasileiro grogue, Yvel chegou a montar, mas Fábio, virou de quatro e voltou de pé, sendo recepcionado pelo “Furacão holandês” com uma sequência de socos e joelhadas, caindo já grogue e obrigando o arbitro a interromper a luta decretando o TKO a 2min28s. “O Fabio perdeu pra ele mesmo. Acredito no Muay Thai brasileiro e tenho certeza que se ele estivesse mais calmo derrubaria”. Me disse muito abalado após o evento o mestre Rudimar.  Já Yvel deixou a marra de lado e reconheceu o valor do brasileiro. “Ele é muito duro, mas cansou rápido. Só senti que conseguiria vence-lo quando acertei a primeira joelhada. Sua cabeça e coração diziam para continuar mas seu corpo dizia não”, declarou Yvel em conversa comigo após a luta. 

com o brasileiro grogue, Yvel montou e definiu com socos a 2min28s do 1º round

SUKATA É FINALIZADO E CACARECO NÃO LUTA A FINAL 

Se no WVC 8 Cacareco entrou como único representante brasileiro para faturar o torneio, vencendo Heath Herring na final, nesta 9º edição as chances do Brasil dobraram uma vez que Lapenda trouxe, Além de Cacareco da Luta-Livre, Mario Sukata (1,85m/103kg) do Jiu-Jitsu, que havia conquistado respeito na comunidade da luta após fazer 4 grandes lutas (Dan Severn, Goodridge, Randleman e Travis Fulton). 

Ciente de que, se passasse pelo faixa roxa de Allan Góes, Justin MCcully (1,85m/96kg), enfrentaria Heath Herring antes de Cacareco na final, Sukata subestimou o americano e acabou sendo finalizado com um leglock em 1m53s. Curiosamente ambos saíram do ringue direto para a ambulância, uma vez que Sukata machucou o joelho e Justin o braço, abrindo espaço para seu irmão Sean MCcully, que havia vencido João Bosco na luta alternativa. 

Assim como na primeira edição, Cacareco “Romário” (1,75m/95kg) precisou de pouco mais de 3 minutos para garantir sua vaga na final. Primeiro derrubou e finalizou com uma mata-leão em apenas 59segundos o wrestler americano Jimmy Westfall (1,82m/108kg). Na semifinal a vítima foi o renomado kickboxer holandês Bob Schrjiber, que havia nocauteado Gilbert Yvel num evento de Kickboxing em seu país. O campeão aproveitou um chute do europeu para derrubá-lo, pegando suas costas e finalizando com um mata leão em pouco mais de 2 minutos de luta.     

Cacareco só precisou de 58 segundos para finalizar Westfall

Enquanto isso do outro lado da chave Heath Herring (1,91/123kg) fazia sua parte para conseguir a revanche com o brasileiro, 3 meses depois da derrota no WVC 8. Na primeira luta Heath finalizou em 1min14 o kickboxer holandês Michael Tielroy (1,83/108kg) com socos da guarda. Na segunda o wrestler so precisou de 56 segundos para finalizar Justin MCcully com uma americana.

Mas quando o público local já começava a gritar Brasil ! Brasil ! enquanto aguardava a reedição da final entre Cacareco e Herring, Frederico Lapenda anunciou que o brasileiro se sentiu mal , e após ser examinado pelos médicos, que constataram uma baixa abrupta na sua pressão arterial, resolveu não lutar a final. Quem voltou para a final com Herring foi Schrjiber que acabara de ser finalizado por Cacareco. O holandês ainda conseguiu acertar um golpe mas acabou sendo derrotado aos 2min19s com socos da montada.   

EMPRESARIO DE YVEL FAZ DESAFIO DE MEIO MILHÃO DE DOLARES PARA RICKSON

Empolgado com a vitória de Yvel, seu empresário o holandês que era o dono do evento, Ari Ron, me fez um desafio ao bicampeão do Japan Open logo após a luta “Pago 500 mil para o Rickson enfrentá-lo”. E por falar em Rickson, que em 1999 ainda era considerado uma espécie de Deus no Japão, seu sparing o grego Stephano Miltsakabis (1,87m/101kg), também lutou neste evento fazendo uma super luta com Joe Charles (1,84m/125kg). “Quando você treina com o melhor do mundo não há o que temer”, me disse o grego poucas horas antes de subir no ringue para estrear contra o rodadíssimo americano que já tinha 15 lutas de Vale-Tudo no curriculum, contra nomes como Dan Severn, Murilo Bustamante, Oleg Taktarov e Pete Williams. 

Apesar dos treinos com Rickson (Jiu-Jitsu) e Rob Cayman (Kickboxing), o grego aprendeu em quase 9 minutos de luta que treino é treino e jogo e jogo. Usando muito bem sua experiência e quase 25kg de vantagem, o ex- lutador do UFC endureceu deformando o galã grego com socos na guarda. A luta acabou sendo definida pelo melhor preparo físico e técnica de solo de Stephano, que acabou conseguindo cansar o americano, finalizando-o com uma americana do cem quilos. 

O chão também foi o diferencial na luta feminina entre a fera do Muay Thai holandês, Irma Verhoef (1,69/70kg), e a americana faixa azul de Jiu-Jitsu de Cleber Luciano, Erin Toughil, (1,74m/77kg). Mesmo enfrentando uma oponente que já tinha 20 lutas de Muay Thai e só tendo competido uma vez na vida, num campeonato de Jiu-Jitsu em que foi derrotada logo na primeira luta, Erin aplicou bem o “intensivão” com o mestre Cleber Tomadinha, vencendo a luta por pontos ao dominar a striker,  mesclando bloqueios, quedas e transições no solo.

GILBERT YVEL LUTOU COM 7 BRASILEIROS 

No dia seguinte ao evento fiz uma entrevista com Gilbert Yvel, que viria a se tornar reconhecido também no mundo do MMA. Na conversa o holandês me contou que seu mestre Lucien Carbin, cujo rosto ele havia tatuado no braço, havia acabado de deixar a renomada Meijiro Gym criando seu próprio sistema mesclando Muay Thai e Karate Kyokushin com joelhadas. “Os brasileiros são os melhores e você ainda vai me ver lutar com muitos deles”, me disse o holandês em tom premonitório ao final da entrevista. Dito e Feito. Em seus 21 anos de carreira e 56 lutas de MMA (40 vitórias e 16 derrotas) o “Hurricane” enfrentou Wanderlei Silva, Vitor Belfort, Junior Cigano, Carlão Barreto, Pedro Rizzo e Fabiano Pega-Leve, conseguindo terminar a carreira, em 2018 com um saldo positivo contra o Brasil: 4 vitórias, 2 derrotas (Belfort e Cigano) e um no contest (Wanderlei Silva).