Home Baú do Alonso Fury FC: Thiago Silva se consagra vencendo o “Pride brasileiro”

Fury FC: Thiago Silva se consagra vencendo o “Pride brasileiro”

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Wanderlei entregou o cinturão para o aluno de Macaco, que logo passou a ser seu parceiro de treinos na Chute Boxe

São Paulo entrou em definitivo para o mapa do MMA mundial em 2006. Depois de ver o Demolition se firmar como o principal evento de trocação do país e receber o aguardado Super Challenge, a capital paulista ganhou um evento capaz de rivalizar com os maiores espetáculos do planeta: o Fury FC, promovido por Victor Costa, dono da fábrica de kimonos Koral. 

Realizado no Tom Brasil no dia 27 de setembro de 2006, o Fury nasceu com uma ambição declarada: replicar no Brasil o formato do Pride, a maior organização de MMA do mundo na época. “Nossa ideia era fazer um torneio de oito lutadores até 93kg em duas fases, exatamente como o Pride. Nesta primeira edição fizemos a fase inicial, mais cinco superlutas”, explicou o promotor, que realizou no dia 30 de novembro na mesma casa de shows as semifinais e a grande final do GP.

O cuidado com os detalhes impressionou até os lutadores de seis países que participaram das duas primeiras edições ficando hospedados em São Paulo num hotel 4 estrelas. “Acredito que quando você trata os lutadores como eles merecem, eles retribuem com grandes lutas”, disse Viktor Costa. A receita funcionou: 2.500 pagantes lotaram o Tom Brasil e saíram convencidos de ter assistido a algo inédito no país. O evento mereceu elogios rasgados até do campeão do Pride Wanderlei Silva. “Pride brasileiro. Essa foi a primeira impressão que tive ao entrar no evento. Fico feliz em ver promoções de alto nível no Brasil, parece que estamos entrando em um novo degrau nesse esporte”.

Com regras muito semelhantes às do Pride — três rounds de cinco minutos —, o Fury entregou exatamente o que prometeu: um palco de padrão internacional para a nova geração do MMA brasileiro. E, ao longo de suas duas edições, coroou um novo rei da categoria dos médios: Thiago Silva. Além de vários outros talentos, que venceram super lutas, e em breve estariam nos maiores eventos do mundo como Ronaldo Jacaré, Cristiano Marcello, Marco Loro, Givanildo Santana, Luis Banha e Mike Easton.

Wanderlei entregou o cinturão para o aluno de Macaco, que logo passou a ser seu parceiro de treinos na Chute Boxe

Texto e Fotos Marcelo Alonso   

O TERCEIRO SILVA DA CHUTE BOXE 

A saga do campeão começa longe dos holofotes. Vindo do interior paulista, de Ribeirão Preto, Thiago Silva desceu para a capital em busca de uma oportunidade como lutador de vale-tudo. Faixa marrom de jiu-jitsu sob Róbson Moura, da Nova União, procurou a Macaco Gold Team de Jorge Patino Macaco e, três semanas depois, já treinava MMA. Um ano e três meses depois, somava oito vitórias — sete por nocaute — e uma única derrota por finalização. Nunca havia treinado trocação na vida, mas ao chegar à Macaco Gold Team realizou o sonho de treinar também na Chute Boxe, onde lapidou as mãos ao lado dos campeões do Pride Wanderlei Silva e Maurício Shogun.

“Treinar com o Wanderlei e o Shogun melhora a autoestima. Quando olho para o meu oponente penso: esse cara é mais perigoso que o Shogun e o Wanderlei, que são os melhores? Isso faz toda a diferença”, disse Thiago na época. Aos 21 anos, ele se tornaria o novo número 1 da divisão até 93kg do Brasil — e o Fury seria o palco de sua consagração.

O GRAND PRIX, LUTA A LUTA

O torneio começou com os grapplers mostrando serviço. Danilo Motosserra (GBCT) não deu chances ao russo Denis Komkin (Russ Fighters): após cair para baixo, o brasileiro aplicou uma bela raspagem, passou a guarda e, quando Komkin tentou levantar, surpreendeu-o com uma guilhotina apertada, vencendo por finalização aos 1min59s do primeiro round.

Na sequência, entrou no ringue um dos favoritos ao título: Thiago Silva (Chute Boxe/Macaco). O experiente holandês Dave Dalgliesh mal teve tempo de mostrar seu jogo. Thiago precisou de apenas 1min05s para surpreender o europeu com uma chave de calcanhar — um aviso de que o jovem de Ribeirão Preto vinha para valer. “Eu gostaria de enfrentar o Dimitri Wanderley na próxima fase. Ele é um lutador forte, mas acho que consigo vencê-lo”, provocou o chuteboxer.

O campeão da Copa do Mundo de Jiu-Jitsu de 2003, Vitor Viana (Brasa), também teve atuação impressionante. Derrotou facilmente o parceiro de treinos de Fabricio Werdum, João Assis, por interrupção do árbitro aos 1min57s, após derrubar o adversário e alcançar a posição de montada. “Estou muito feliz com esse resultado. Agora vou passar dois meses na Holanda treinando muay thai para a fase final, em 30 de novembro”, garantiu Viana, que cumpriu a promessa à risca.

Fechando a fase inicial, o outro grande nome do torneio confirmou o favoritismo em estilo arrasador. Com apenas 21 anos e seis lutas de MMA no cartel, Dimitri Wanderley (Ataíde Jr) — que já havia nocauteado Claudio Godoi no Storm Samurai 8 e feito a melhor luta do Jungle Fight 6 contra Lyoto Machida — precisou de somente 38 segundos para nocautear o japonês Yusuke Masuda (AACC Japão) com joelhadas. Masuda ficou inconsciente e precisou de oxigênio para se recuperar.

Dimitri Wanderley abriu o gp nocauteando o japones Yusuke Masuda aos 38s, mas se contundiu e foi substituído por Claudio Godoy na semifinal

Três meses depois, o Tom Brasil recebeu a decisão do título. Na primeira semifinal, Thiago Silva viveu o clássico mais tradicional do MMA brasileiro: Chute Boxe contra BTT, diante de Cláudio Godoy, que substituiu Dimitri, que se contundiu. O lutador da BTT começou bem, trocando golpes e acertando Silva. Mas Thiago rapidamente encurralou Godoy e aplicou uma queda com um direto. Godoy se recuperou e levantou tonto. Apoiado por Rudimar e Macaco no corner, Thiago sentiu o bom momento e aplicou um novo knockdown. Em seguida, encurralou o adversário mais uma vez e finalizou com socos até a interrupção do árbitro. Nocaute no primeiro round — e a final estava assegurada.

Na outra semifinal, Danilo Motosserra impressionou a todos ao aceitar o jogo em pé e entregar um duro combate a Vitor Viana, recém-chegado de seus dois meses de muay thai na Holanda. Viana perdeu o primeiro round por pequena vantagem — Motosserra foi mais agressivo —, mas no segundo derrubou o rival e aplicou três pisões. Em seguida, passou a guarda, montou e pegou as costas, mas o gongo salvou Motosserra. No terceiro round, Viana voltou com o mesmo fôlego, derrubou novamente e castigou por cima. Os árbitros não tiveram dúvida: vitória de Viana por decisão.

A final colocou frente a frente o nocauteador da Chute Boxe e o grappler da Brasa. Thiago Silva precisou de menos de dois minutos para conquistar o cinturão. Após acertar Vitor Viana com um chute nas costelas — reclamado pelo adversário —, o atleta da Macaco/Chute Boxe definiu a luta com um novo chute, desta vez no braço de Viana, que gritou imediatamente “quebrou, quebrou”, obrigando o árbitro Carlão Barreto a interromper o combate, deixando o cinturão dos médios do Fury com Thiago Silva. Para completar a festa, o troféu foi entregue ao campeão pelas mãos do próprio Wanderlei Silva, campeão dos médios do Pride. “Foi uma vitória incontestável. Se continuar treinando duro, tenho certeza de que ainda trará muitas vitórias e títulos para o Brasil”, analisou o Cachorro Louco.

Thiago Silva venceu Vitor Viana por desistência na grande final

Depois de Wanderlei Silva (Pride) e Anderson Silva (UFC), o Fury FC coroava, enfim, outra Silva como o grande nome dos médios no Brasil. A promessa se confirmaria no ano seguinte, com Thiago chegando ao UFC 71 com nocaute relâmpago sobre James Irvin e se tornando um dos melhores pesos meio-pesados do mundo. Após quatro vitórias no UFC Thiago só seria parado por Lyoto Machida, na luta que definiu quem lutaria pelo cinturão com Rashad Evans no UFC 98 

TALENTOS PARA O UFC 

O Fury não foi palco apenas do torneio. Suas superlutas revelaram nomes que, mais tarde, brilhariam no maior palco do MMA mundial.

Ninguém representou melhor essa estirpe do que Ronaldo Jacaré. Após conquistar dois Mundiais de Jiu-Jitsu consecutivos na categoria absoluta, o atleta foi apresentado no ringue do Fury 1 como o melhor lutador de jiu-jitsu do mundo — e fez uma apresentação à altura do título. Diante do confiante lutador de sambo Alexei Prokofiev, que prometera nocauteá-lo. Jacaré simplesmente atropelou o russo. Derrubou, montou e impôs um ground and pound pesado, definindo a luta com um triângulo aos 2min30s do primeiro round. Quem viu aquela atuação não se surpreendeu com o futuro: Jacaré se tornaria campeão mundial do Strikeforce e logo chegaria ao UFC.

Outro que venceu sua super luta no Fury e chegou a lutou no Pride e depois UFC foi Cristiano Marcello. Professor de jiu-jitsu da Chute Boxe, voltou em forma aos ringues nacionais no Fury 2 e mostrou que também era força na trocação. Ciente da difícil tarefa de levar ao chão um wrestler, o faixa-preta trocou golpes com o americano David Kaplan (Lloyd Irvin) e foi amplamente superior em pé. No fim do segundo round, pegou as costas do rival após uma tentativa de queda e, mesmo com Kaplan escapando do mata-leão, encaixou um justo triângulo obrigando o oponente a batucar em desistência.

Cristiano Marcello (CB) finalizou David Kaplan (Lloyd Irvin Team) com triângulo

Luis Banha (Gibi Thai/Gracie SP) protagonizou uma das viradas mais empolgantes do Fury 2 na luta alternativa do GP. João Assis, pupilo de Fabrício Werdum, derrubou Banha e o castigou na guarda, mas o paulista levantou, derrubou Assis e puniu com socos na guarda até a interrupção de Vitor Shaolin no primeiro round um TKO. Em 2007 Banha seria levado ao UFC.

Hélio Dipp (Chute Boxe), que na época era o mais alto peso-médio do mundo com seus 1,96m, voltou ao ringue no Fury 1 depois de quase um ano afastado, desde o nocaute sofrido no Jungle Fight 5, quando quebrou a mandíbula. No clássico Chute Boxe x BTT, diante do faixa-preta Cláudio Godoy, Dipp deu uma aula de agressividade: joelhadas voadoras e chutes altos, que conquistaram a torcida paulista, enquanto Godoy buscava o clinche na maior parte do combate. Vitória por decisão unânime em uma luta que nunca foi ao chão e que devolveu Dipp ao topo da categoria.

Por fim, Marcos Loro (Nova União) protagonizou a melhor luta do Fury 1, em um duelo de gigantes contra o japonês Naoya Uematsu, veterano de 22 lutas. Consciente do perigo das chaves de pé do rival, Loro decidiu manter o combate em pé e usou seus braços mais longos para acertar duros socos e belas joelhados. Além de superior na trocação, venceu no chão com um eficiente ground and pound, derrubando Uematsu três vezes nos rounds finais. Vitória por decisão unânime em uma luta que arrancou aplausos da galera e que ficou marcada pela reverência de Uematsu ao público brasileiro, retribuída com uma calorosa salva de palmas. Loro, com seu jiu-jitsu agressiva e sua trocação afiada, também faria carreira nas maiores organizações do mundo.

No ano seguinte Viktor Costa realizaria mais três edições do Fury e um torneio até 83kg que catapultou Rousimar “Toquinho” Palhares direto para o UFC após uma impressionante sequencia de 3 finalizações, por chave de calcanhar, no 1º round.  Infelizmente o Fury durou pouco (só teve 7 edições) mas deixou um legado importantíssimo para o MMA nacional, tendo lançado mais dezenas de talentos brasileiros para os maiores eventos do mundo na época.