UVF 6: Carlão vinga Jiu-Jitsu no 1º confronto com o Wrestling em igualdade na balança

Randleman e Carlão fizeram a final do UVF 6

Depois de vencer 3 lutas e se consagrar campeão do UVF 4 em pleno Rio de Janeiro, como relatei aqui na semana passada, Kevin Randleman, discípulo do bicampeão do UFC Mark Coleman, conseguiu algo inimaginável: unir os rivais Jiu-Jitsu, Luta-Livre e Muay Thai em prol de um objetivo em comum: dar um cala-boca no marrento americano. 

O fato é que a declaração do representante da Hammer House, publicada no Jornal do Brasil, dizendo que esperava algum representante do Jiu-Jitsu com coragem de enfrentá-lo na próxima edição, mexeu com os brios de toda a comunidade da luta no Rio de Janeiro. 

E se no UVF 4 os promotores Sérgio Magnago e João Alberto Barreto tiveram dificuldades para chegar a um acordo financeiros com representantes das principais equipes, no UVF 6 sobraram currículos. 

Mario Sukata (Jiu-Jitsu), Ebenezer Braga (Muay Thai e Luta-Livre) e Carlão Barreto (Jiu-Jitsu Carlson Gracie) foram os escolhidos para representar o Brasil no torneio UVF 6, realizado no dia 3 de maio de 1997, na extinta casa de shows Metropolitan. 

DA GRADE PARA A CORDA DE SISAL

A possibilidade de ocorrer na final do torneio o maior clássico do Vale-Tudo mundial, entre o Jiu-Jitsu (Carlson Gracie) e o Wrestling (Hammer House), pela primeira vez em igualdade de condições na balança, fez a torcida comparecer em peso. Quase 5 mil lotaram o Metropolitan para empurrar os brasileiros. 

Vale contextualizar que além da vitória de Randleman no UVF 4, havia acabado de rolar os clássicos: Fábio Gurgel vs Mark Kerr e Murilo Bustamante vs Tom Erikson. E naquele momento Mark Coleman era unanimemente considerado o maior pesado do mundo. Diante deste contexto mundial até a rivalidade histórica entre Luta-Livre / Muay Thai e Jiu-Jitsu ficou de lado e, pela primeira vez, as modalidade se uniram empurrando Ebenezer, Sukata e Carlão. 

Mas infelizmente a organização não esteve à altura. Os problemas começaram no palco do show. O octógono não chegou de Campos e os promotores tiveram que recorrer ao ringue do falecido professor de boxe Santa Rosa. 

A poucas horas do show, Randleman descobriu que não lutaria num octógono e se revoltou. “Sou um wrestler, não vou lutar neste pedaço de merda”. Coleman passou maus bocados para convencer o amigo.

Já na montagem a poucas horas do evento uma das cordas arrebentou, sendo substituída por uma de sisal: “Assim que eu cheguei no ginásio me avisaram que o Coleman já tinha visto a corda e estava treinando os americanos para me jogarem ali, pois ela não resistiria. Lembro que na hora não acreditei, mas foi o que de fato ocorreu. Logo na minha primeira luta, a primeira coisa que o Geza Kallman (130kg) fez foi me empurrar na corda de sisal. A corda não suportou nossos quase 240kg e arrebentou. Eu bati as costas no tablado, dei uma trepada na costela e cai de cabeça no chão com ele em cima de mim. Imagina multiplicado meu peso com o dele, poderia ter sido algo muito mas grave, mas graças a Deus, consegui voltar para a luta”, relembra Carlão. Quando a luta foi reiniciada, Barreta aproveitou o primeiro ataque de Kalman para finalizá-lo com uma guilhotina a pouco mais de 3minutos de combate.

Na sequência seu adversário seria definido em apenas 5 segundos. Tempo que o grandalhão americano Dan Bobish de 150kg demoraria para nocautear o boxer Jucymar Hipólito. 

O GUERREIRO EBENEZER      

Se Kevin Randleman pensou que teria caminho fácil até a tão aguardada final com Carlão, se surpreendeu logo na primeira luta do torneio, quando enfrentou um dos mais duros representantes do Muay Thai brasileiro, Ebenezer Braga, que já tinha 9 lutas de Vale-Tudo e apenas uma derrota para Jorge Pereira. 

Ebenezer tinha operado o joelho há quinze dias mas decidiu aceitar o desafio. “Lembro que logo na pesagem falei para o Luiz, quer apostar quanto que vão me dar de cara aquele negão mais forte ? Não deu outra”, relembra o niteroiense, que apesar de representar a Luta-Livre e Muay Thai levantou até a torcida do Jiu-Jitsu com sua raça. Ebenezer teve participação fundamental no torneio, pois cansou Kevin Randleman em 20 minutos de luta. Depois de arremessar o brasileiro diversas vezes e usar sua conhecida explosão para aplicar golpes duríssimos, o americano venceu na decisão. “Quando ele me derrubava e tentava me atacar com socos, acabava sendo pior para ele, porque os braços dele eram curtos eu revidava com cotoveladas que machucavam muito”, relembra o guerreiro, que na época trabalhava colocando postes na região dos lagos e, mesmo estando todo machucado, teve que seguir para o trabalho. “Não deu nem para dormir esta noite, tomei uns anti-inflamatórios e parti para pregar meus postes”, conta o primeiro atleta de Cristo do Vale-Tudo nacional, 

Enquanto isso no mesmo lado da chave o outro representante brasileiro, Mario Sukata, vencia Gary Goodridge, que aos 6 minutos pediu para parar sem nenhuma razão aparente, quando o paraibano o havia cinturado. 

Randleman abriu o torneio fazendo uma guerra de 20 minutos com Ebenezer

SELO DE QUALIDADE CARLSON GRACIE

Quando esfriou no vestiário, Carlão passou a sentir as dores da costela contundida na queda, mas graças ao excelente trabalho de recuperação da equipe conseguiu voltar bem. “Como me chamaram muito em cima e eu não havia aquecido, o Carlson falou para eu andar um pouco antes de entrar no Bobish, mas eu burramente optei por derrubar logo”, lembra Carlão, que na entrada levou um direto de esquerda e já caiu seminocauteado. “Eu via uns 4 Dan Bobish na minha frente. Mas o grande erro dele foi não esperar, quando ele veio pra cima e deu o primeiro soco eu acordei, fiz guarda e acabei pegando ele num triângulo”, conta Barreto, que voltou para o vestiário ainda mais confiante esperando Randleman para a tão aguardada batalha final. “Sentia como se a honra do Jiu-Jitsu e do Carlson tivessem na minha mão, a cada vitória o ginásio vinha abaixo, eram 5 mil pessoas gritando Jiu-Jitsu ! Jiu-Jitsu!”, recorda Barreto, lembrando que tinha plena convicção que o mestre seria o seu diferencial. “O Carlson tinha esta coisa de fazer você acreditar que ninguém poderia vencê-lo. Lembro dele falando no vestiário: “Fica tranqüilo, se ele entrar na sua guarda você vai pegar, você finaliza qualquer um”, e Aquilo entrava na minha cabeça como um selo de qualidade”.     

Se Carlão demorou 7min47s para finalizar Bobish, Randleman se desgastou por quase 12 minutos para vencer Mario Sukata, que havia eliminado Gary Goodridge. O americano derrubou e passou a maior parte da luta na meia guarda tentando socar o brasileiro. Sukata chegou a fechar um triângulo, mas o americano saiu, voltando a golpeá-lo da meia-guarda. A 11min24s o brasileiro cansou e resolveu desistir. 

“COLEMAN ! SILIPI, SILIPI, SILIPI” 

Na atual conjuntura do MMA, vale frisar que, num evento sério, como o UFC, nem haveria final, afinal de contas nenhuma comissão atlética aprovaria uma luta entre o brasileiro que já havia lutado 13 minutos, quebrado uma costela e sofrido um knock down e o americano que já tinha lutado mais de 32 minutos e tinha o olho direito totalmente fechado em conseqüência dos golpes de Ebenezer, mas como o UVF 6 foi realizado em 1997 nas regras do Vale-Tudo, Carlão e Randleman subiram ao ringue diante de uma barulhenta torcida que chegou a jogar um copo de coca-cola cheio nas costas de Coleman, obrigando Belfort e Bustamante a subirem no ringue para acalmar os ânimos. “O Coleman é um grande lutador e merece respeito”, disse Belfort, prontamente complementado por Bustamante: “Quando lutamos lá fora somos bem tratados, se o Randleman vencer, vamos aplaudir”, pediu Murilo. 

Ambos chegaram a final totalmente desgastados, começando o combate com muita cautela . Carlão aos poucos foi tomando a iniciativa, chutando o oponente, meio que torcendo para que o americano o puxasse para a guarda. Nada acontecia até que em torno de 10 minutos, Barreto puxa para a guarda e começa a atacar com socos e cotoveladas. Bastante desgastado Randleman praticamente não reagia, abrindo espaço para o brasileiro tentar uma omoplata e, logo na sequência, um triângulo que apagou o wrestler. Quando o juiz Sergio Magnago decretou o fim do combate, nem mesmo a barreira da língua impediu Carlson Gracie de zoar o criador da Hammer House, partindo para cima dele gritando: “Coleman ! Coleman ! Silipi Silipi !” ao mesmo tempo em que fazia um gesto com as duas mãos, como se estivesse dormindo. Restou ao bicampeão do UFC cumprimentar o Gracie com um sorriso amarelo. 

Depois de negar que havia apagado, Randleman reconheceu a vitória do brasileiro, mas pediu uma revanche

Já Randleman demorou pra acreditar que tivesse apagado. “Fui prejudicado por terem colocado um ringue ao invés de octagóno, me desgastei muito para vencer o Ebenezer que escapou do ringue três de vezes. Não quero dar desculpas. Enfrentei lutadores de alto nível, mas sou melhor que o Carlão e estou pronto para provar numa revanche”, me disse o americano logo após a luta.

Diante daquele contexto de completo domínio do Wrestling, a vitória de Carlão sobre Randleman recuperou a auto-estima da comunidade do Jiu-Jitsu, merecendo a capa da Tatame e Gracie Mag, que na época eram as duas principais referências da imprensa marcial nacional. “Foi um dia inesquecível. Eu quebrei o pé, a costela, a mão, tomei oito pontos no supercílio, fiquei um mês de molho, mas sai daquele ringue com a maravilhosa sensação de dever cumprido. Para mim foi uma grande honra ter defendido o meu mestre Carlson, o Jiu-Jitsu e o Brasil e ter vencido”, recorda o hoje comentarista do Canal Combate. Um dos heróis deste esporte que, se depender desta seção, nunca serão esquecidos.

*Texto e fotos: Marcelo Alonso