Vovchanchyn atropela 3 em caldeirão de Recife

Vovchanchyn saiu de 30oC negativos para vencer 3 lutas em uma noite e conquistar o cinturão do WVC 5 nos 40oC de Recife

Don “The Dragon” Wilson, Mark Coleman, Mark Kerr, Edson Carvalho, o general da Luta-Livre, Hugo Duarte. Coloque todas estas celebridades numa pequena boate sem ar condicionado, em pleno verão pernambucano e adicione um tempero de rivalidade trazido pelo famigerado Mestre da Morte, Sebastião Lacerda.

Esta foi a receita utilizada pelo promotor Frederico Lapenda para promover no dia 3 de fevereiro de 1998 na boate Fun House em Recife a 5º edição do WVC. Como prato principal um torneio eliminatório de 8 lutadores (1 russo, 3 americanos e 4 brasileiros), com dois veteranos do UFC, o experiente Igor Vovchanchyn e a nova aposta de Mark Coleman, Nick Nutter.

Vovchanchyn saiu de 30oC negativos para vencer 3 lutas em uma noite e conquistar o cinturão do WVC 5 nos 40oC de Recife

Texto e Fotos Marcelo Alonso

Diploma de pós-graduação

Vencer um torneio de Vale-Tudo no Brasil nos anos 90 equivalia a uma espécie de diploma de pós-gradução no currículo de qualquer lutador. E a maior prova disto é que os que tiveram esta experiência, no IVC ou WVC, chegaram longe. Vide exemplos como Wanderlei Silva, Pelé, Dan Henderson, Mark Kerr e Pedro Rizzo. “Nada pode ser mais duro que lutar três lutas numa noite, sem luva e com rounds de 10 minutos”, costuma  dizer o Mr. Pride Wanderlei Silva.   

Em Fevereiro de 1998 quem entrou para esta galeria de “diplomados” foi o russo Igor Vovchanchyn (1,73m/97kg). Na última semana de Janeiro daquele ano, Igor deixou o rigoroso inverno de 20 graus negativos em moscou para lutar no WVC 5, um torneio eliminatório de 8 lutadores sem luva e com rounds de 10 minutos. Isso num calor de quase 40oC. 

Mesmo com todas as adversidades, Igor chegou como favorito. Mas ele sabia que a tarefa não seria nada fácil. Se vencesse na primeira, teria grandes chances de enfrentar, na sequência, o veterano do UFC, Patrick Smith. Na grande final, tudo levava a crer que pegaria a nova aposta de Mark Coleman, o wrestler  Nick Nutter(1,81m/106kg) que, coincidentemente, havia lutado com Igor três meses antes na final de um torneio em Israel. Naquela oportunidade o americano dominou a luta, mas aos 25 minutos foi surpreendido por cabeçadas. Sangrando muito Nutter decidiu desistir. “Desta vez vai ser diferente treinamos muito e sei que o Nutter é superior ao Igor e vai vencer” apostou Coleman. Mas até esta revanche ocorrer os dois teriam que lutar muito.

A nova aposta de Coleman 

Logo na primeira luta, Nutter mostrou que não vinha sendo apontado como nova promessa por Mark Coleman  por acaso. 

Em apenas 3 minutos, o wrestler derrubou o local Lúcio Carvalho (1,87m/90kg) e o obrigou a desistir com uma saraivada de socos da guarda.

No mesmo lado da chave, o gigante Paul Varelans (2,04m/110kg) não teve problemas para aplicar um knock down em Valdir dos Anjos (1,83/90kg), que com um sangramento no supercílio, logo pediu pra parar, garantindo uma semifinal americana.

No outro lado da chave Igor Vovchanchyn fazia sua primeira luta contra o franco atirador Túlio Palhares (1,80m/75kg). O representante do Boxe Chinês até começou bem, acertando alguns golpes no russo, mas logo Vovchanchyn imprimiu seu jogo e, após acertar alguns low kicks e um bom cruzado, obrigou Túlio a parar.

Na última luta deste primeira fase, o veterano do UFC Pat Smith (1,85m/100kg) não teve problemas para vencer o local Marcos Selva (1,80m/92kg), que em 1988 empatara com Marco Ruas num evento em Manaus. Dez anos depois, porém, visivelmente despreparado, Selva mostrou só valentia ao aguentar os golpes de Smith, que chegou a quebrar a mão de tanto bater no brasileiro da montada. A 4m35s Selva desistiu, mas Smith, contundido, não teria como lutar com Igor na semifinal. 

Após vencer Lúcio “Pernambuco” Carvalho em menos de 3minutos, o discípulo de Coleman usou seu Ground N´pound para vencer o gigante Paul Varelans e chegar a final contra Vovchanchyn

Mestre da Morte e o desafio a Mark Kerr 

Nos bastidores do evento o clima era tenso. Como se não bastasse o ar condicionado quebrado no calor do verão de Recife, o que certamente fazia a sensação térmica dentro da boate Fun House, lotada com mais 500 pessoas, chegar próximo aos 50oC, o Mestre da Morte e seu discípulo Edson Carvalho dividiam a mesma área VIP com os convidados americanos Don Wilson e Mark Kerr. 

Antes da luta final do torneio o dono da boate, Edsá Sampaio, chamou Lacerda para uma homenagem no centro do octagon. Ao lado do mestre, Edson pediu o microfone e fez seu desafio: “Não entendi porque o Mark Kerr desistiu de lutar comigo na última hora. Estou treinando há 3 meses e quero desafiá-lo novamente na frente de todos vocês”.

Mark Kerr, na época o lutador mais respeitado do mundo, nem subiu ao octógono para responder ao baiano, mas conversou comigo nos bastidores e explicou a situação. “Quem é este cara ? onde ele lutou, mande ele lutar com alguém conhecido para se credenciar. Ouvi dizer que ele teve um problema com o Wallid, que lute com o Wallid então antes de me desafiar. Tenho certeza que o Wallid dará uma surra neste falastrão, mas se ele não der, terei o maior prazer em fazê-lo”.

Na época Kerr treinava com Ruas em Los Angeles e o amigo brasileiro o teria avisado sobre as técnicas do Mestre da Morte. Kerr confirmou: “Realmente o Marco e a sua esposa me alertaram que ele usaria tais técnicas, mas isso não me assusta, pois se alguém atacar meu olho numa luta, o farei engolir todos os dentes. Mande este linguarudo provar sua técnica no UFC”, desafiou Kerr, revelando na sequência outro motivo que o impedia de lutar no Brasil. “Estou sendo processado pelo UFC, pois iria lutar com o Royce no Pride 2, por isso meu advogado me aconselhou a não lutar em outro evento. Por enquanto o meu objetivo é lutar com um Gracie, Royce ou Rickson, quando conseguir terei o maior prazer em vir a Recife e quebrar este Edson em dois. Não gosto nem um pouco de ser desafiado desta maneira”, finalizou o Specimen.

Mark Kerr, ao lado do amigo Coleman, mandou Edson se credenciar lutando com Wallid e disse querer enfrentar Royce ou Rickson

   

Vovchanchyn x Nutter, a revanche  

Na primeira semifinal Nutter literalmente atropelou o “urso polar” Paul Varelans em 3min42s. Após derrubá-lo, montou e obrigou juiz a interromper o combate devido a um forte sangramento no supercílio do gigante, causado pelos socos da montada

Na outra semifinal, como Smith quebrou a mão, o local Elias “Demônio Negro” (1,85m/103kg) entrou em seu lugar para enfrentar Vovchanchyn num dos melhores combates do evento.  

Foram quase 11 minutos de muita trocação. Com o apoio da torcida Elias começou melhor acertando bons golpes no russo, mas logo a experiência de Igor começou a fazer a diferença. Combinando low kicks com sequência de Jabs e diretos, Vovchanchyn derrubou o brasileiro quatro vezes. Numa destas oportunidades, Igor montou e obrigou Elias a desistir com uma saraivada de socos, garantindo a final com Nutter. 

Após a guerra travada em Israel a revanche entre Nutter e Igor vinha sendo esperada como mais uma longa e dura batalha do torneio, mas não foi nada disso que ocorreu.

Logo no primeiro lance da luta, o discípulo de Coleman telegrafou seu double leg e Vovchanchyn o recepcionou com uma joelhada certeira. O americano caiu apagado aos 14 segundos de combate. Enquanto Igor comemorava com seu treinador, Coleman escalava os quase três metros de grade para pular e acudir o pupilo.

Além do cinturão de campeão pesado do WVC, Igor sairia deste torneio consagrado como um dos lutadores mais temidos do mundo, com um cartel de 32 lutas e apenas 2 derrotas. O russo lutaria por mais sete anos até parar em 2005 com cartel de 66 lutas e 55 vitórias. Já a promessa Nick Nutter, nunca mais seria visto em eventos de MMA.

Coleman pula a jaula para acudir o aluno nocauteado

La Penda e Batarelli: 28 eventos que marcaram os anos 90

Nos anos 90 dois eventos tiveram importância fundamental como plataformas de lançamento de novos talentos: WVC (World Vale-Tudo Championship) e IVC (International Vale-Tudo Championship).

Idealizado por Frederico Lapenda, o World Vale-Tudo Championship lançou em novembro de 1996 o discípulo de Marco Ruas, Pedro Rizzo (vencedor do torneio do WVC 2). No WVC 3, realizado em janeiro de 1997 no hotel Maksoud Plaza em São Paulo, seria a vez de Mark Kerr se consagrar após vencer na mesma noite Paul Varelans, Mestre Hulk e Fábio Gurgel, enquanto na superluta, Pedro Rizzo nocauteava em 13 minutos o vencedor do torneio da primeira edição, Richard Heard.

O WVC 4, em março de 97, seria marcado por um histórico torneio onde Pelé Landi venceria Jorge Macaco pela segunda vez, mas perderia para Johil de Oliveira numa final sangrenta de 30 minutos. Na super luta Marco Ruas venceria Pat Smith.  

Um desentendimento entre os promotores Frederico Lapenda e Sérgio Batarelli nesta 4º edição, levaria a criação do IVC, que teve 14 edições entre 1997 a 2001

Lapenda continuaria fazendo o seu WVC. Depois desta 5º edição, seriam mais dez até 2002, cinco em Recife, três em Havana e uma em Aruba.    

La Penda e Batarelli realizaram um total de 28 eventos nos anos 90, que tiveram importância fundamental para o Vale-Tudo brasileiro.