WEF 8: Pelé e Minotauro trazem dois cinturões para o Brasil na mesma noite

Minotauro recebendo seu primeiro cinturão das mãos do homem que o descobriu sendo finalizado na academia de Conan. Jamie Levine (falecido em 2014)
Pelé comemora seu Segundo cinturão com o mestre Rudimar

Realizada em Rome, Georgia no dia 15 de Janeiro de 2000, a oitava edição do WEF consagrou uma nova geração que surgia no MMA (Renato Babalú, Matt Hughes, Pelé Landi, Rodrigo Ruas e Rodrigo Minotauro) e, acima de tudo, mostrou a força do MMA brasileiro que conquistou dois cinturões na mesma noite em cima de atletas locais. 

APERTO NO PATRÃO E A MUDANÇA DE PLANOS DE MINOTAURO

Numa manhã de Março de 1999, Rodrigo Minotauro estava treinando sem quimono na academia de Conan Silveira em Miami, quando apareceu para treinar o promotor do WEF Jamie Levine. Impressionado com o potencial do baiano, que treinava há algumas semanas na sua academia, Conan casou o treino entre os dois e pediu a Rodrigo para não aliviar seu faixa azul. Sem saber de quem se tratava, Minota acatou a ordem do mais graduado e colheu os frutos.  

Impressionado com o potencial do brasileiro, após bater dezenas de vezes em cinco minutos, Levine não teve dúvidas em convidá-lo para estrear em seu show dali a três meses. Assim começava a carreira de um dos maiores pesos-pesados da história do MMA. Curiosamente 10 meses antes eu havia feito uma reportagem com Rodrigo na Tatame (Robocop baiano) onde ele dizia que achava o Vale-Tudo muito violento, mas quem sabe dali a alguns anos mudasse de idéia. Pois graças ao empurrão de Conan e a dura em Levine, Minota foi obrigado a rever seus planos.

Três meses após aquele treininho com Levine, o baiano estrearia em seu evento finalizando David Dodd, no WEF 5, com um golpe nunca visto no MMA, um crucifixo em pouco mais de 3minutos. Quatro meses depois a vitima seria Nate Schroeder, que bateria com um armlock no WEF 7. Graças a estas duas finalizações Minotauro foi convidado para lutar no torneio japonês RINGS, onde estreou em outubro finalizando dois oponentes (Valentijim Overeem e Yoriki Kochikine) em menos de dois minutos. 

Percebendo que não conseguiria segurar aquele talento que descobriu na academia de Conan por muito tempo, Levine já o colocou para disputar seu primeiro cinturão, enfrentando o veterano Jeremy Horn, que a esta altura já tinha 44 lutas. 

A experiência, aliás, foi um diferencial para que o americano conseguisse levar a luta por 3 rounds. Mesmo sendo mais agressivo em pé e tendo colocado Horn para baixo diversas oportunidades, Minotauro não conseguiu passar a guarda do americano. 

Mas graças ao amplo domínio, Rodrigo não deixou dúvidas aos juízes vencendo por unanimidade e faturando seu primeiro cinturão de campeão peso-pesado.

Com 4 lutas de MMA Rodrigo enfrentou Jeremy Horn com 44 pelo cinturão do WEF

SHOWMAN PELÉ ACABA COM FAVORITISMO DE MILETICH

Campeão do IVC e com um invejável currículo de 18 lutas e apenas duas derrotas (para Johil e Chuck Liddel), José Pelé Landi foi convidado para fazer sua estréia nos Estados Unidos disputando o cinturão do WEF contra ninguém menos que Pat Miletich, campeão do UFC, que vinha empolgado de uma sequência de 29 lutas e apenas duas derrotas. Miletich havia vencido na decisão Jorge Macaco e nocauteado André Pederneiras. 

Lutando em casa o americano vinha sendo apontado como amplo favorito pelos jornalistas locais. Mas em se tratando de Pelé Landi, o local da luta é detalhe. A maior prova disto foi a maneira relaxada como Pelé entrou no octagon, fazendo passos de break dance para espanto até do mestre Rudimar. “De onde será que o Pelé tira estas coisas ?”, sorria incrédulo o Mestrão ao assistir a performance “não ensaiada” do aluno na entrada.

Assim que a luta começou o campeão do IVC continuou seu show, aproveitando um clinche de Miletich, para derrubá-lo, tentando uma chave de pé na sequência. Miletich defendeu mas acabou surpreendido pelo brasuca que levantou e lhe acertou um chute.

Na sequência Pelé clinchou o americano, acertando uma série de joelhadas, derrubando o oponente com uma rasteira e já caindo atravessado, de onde passou a lhe aplicar joelhadas. Com muito custo o campeão do UFC conseguiu repor a guarda, foi então que Pelé ficou de pé e pulou por cima das pernas do americano, já caindo chutando seu rosto, que começou a sangrar. A esta altura o showman já havia conquistado até a torcida Americana. 

Pouco antes do final do round a luta voltou em pé e Pelé ainda conseguiu acertar alguns low kicks em Miletich. Quando o round terminou o americano, capengando, avisou ao juiz Big John que não teria condições de voltar para o segundo round. “Brasil ! Brasil ! Chute Boxe ! Chute Boxe !” comemorava Pelé ao receber o cinturão de campeão Middleweight do evento das mãos de Jamie Levine.      

BABALÚ VENCE COM MÃO QUEBRADA

Vindo de nove vitórias consecutivas por nocaute ou finalização, Babalú havia vencido duas lutas na primeira fase do RINGS se classificando para a ultima etapa em fevereiro. Antes porém resolveu fazer sua estréia em solo americano no WEF 8.

Mas um acidente inesperado marcaria esta estréia. Enquanto fazia o aquecimento no vestiário com Marco Ruas e Roberto Leitão, o brazuca escorregou e quebrou a mão. “Foi uma sacanagem me colocaram para aquecer num almoxarifado escorregadio. Treinei meses sem me machucar e agora me acontece isso”, dizia preocupado antes da luta Babalú, que teria pela frente a pedreira do wrestling Brad Kohler.

O brasileiro começou defendendo as tentativas de queda do americano, contra atacando com joelhadas, que começaram a incomodar Kohler. Aos poucos o americano começou a mostrar total desespero pelas tentativas frustradas de derrubar Babalú, que não parava de miná-lo com low kicks.

No início do segundo round, Babalú conseguiu bloquear uma tentativa de queda de Brad, que foi derrubado. O brasileiro passou a lateral do oponente e definiu a luta com um tiro de meta certeiro a 59 segundos do 2o round. 

40 dias depois deste evento Babalú e Minotauro voltariam ao Japão para lutar a etapa final do RINGS KOK. Ambos seriam eliminados na decisão por Dan Henderson (Minotauro na semifinal e Babalu na final).

Após quebrar a mão no vestiário, Babalú usou as pernas para vencer Kohler

HUGHES, O TERROR DO JIU-JITSU

Convidado a 20 dias do evento para cobrir a saída de Ricardo De La Riva, o faixa preta de Rickson Gracie, Jorge Pereira, que vinha de uma derrota para Pelé Landi no IVC 5 enfrentou a pedreira Matt Hughes, que já tinha 14 lutas e apenas 1 derrota.

O curioso é que nos bastidores do evento, Pelé e Jorge, que haviam virado inimigos declarados após o IVC 5 se reencontraram na sauna para perder peso e acabaram ficando amigos. “Aqui não tem essa. Somos todos Brasil. Ele estava precisando perder 2kg e o fiz companhia na sauna. Fizemos uma amizade bem legal e combinamos que só lutaremos novamente se a bolsa for realmente vantajosa”, disse Pelé.

Na luta Jorge não teve a menor chance diante do wrestler. Após uma tentativa frustrada de derrubar Hughes, o faixa preta de Rickson resolveu puxá-lo para a guarda tentando uma guilhotina. Hughes defendeu, levantando o carioca, levando-o para o centro do octagon e o arremessando do segundo andar, para delírio da torcida. A partir daí o wrestler chegou a meia-guarda do brasileiro e aplicou seu ground n´pound com maestria. Com uma série de socos e cotoveladas Hughes abriu um enorme corte no supercílio do brasileiro, que mesmo sangrando muito, suportou até o final do round, quando os médicos, tendo em vista o sangramento do lutador, não permitiram sua volta ao segundo round.

Jorge seria o primeiro de uma série de faixas pretas brasileiros vencidos por Hughes. Depois viriam Renato Charuto Veríssimo, Royce Gracie, Renzo Gracie e Ricardo Cachorrão.    

O WEF contou ainda com a participação de Rodrigo Ruas, Alex Paz e Wald Bloise. O sobrinho de Marco Ruas fez uma bela luta com Roman Roytbarg e saiu com um empate. Wald Bloise foi surpreendido com uma americana e Alex Paz com o pesado Ground and Pound de Bobby Hoffman que obrigou o arbitro John Mcarty a interromper a luta a 1min39s do 2º round. 

A CAPA DA GRIPE 

Quando você acumula os papéis de fotógrafo, redator e editor, sua mente precisa ligar o modo turbo ao final de um evento como este, afinal de contas não é toda hora que conquistamos dois cinturões na mesma noite num show com seis brasileiros.

Sabia que a concorrência editorial pela capa da Tatame #50 aquele mês seria dura, afinal Royce havia vencido Takada no Pride, Renzo havia vencido Maurice Smith no Rings e um faixa marrom chamado Ricardo Arona havia sobrado na seletiva nacional para o ADCC 2000. 

Mas não tem saída, fotógrafo-editor tem que trabalhar sempre com a idéia de que sua cobertura será a capa. Na pior das hipóteses você garante uma bela abertura de matéria. Foi o que fiz naquela noite insone. Ainda no calor do show defini que, apesar de Pelé e Minotauro serem as grandes estrelas do evento por terem conquistado cinturões, Babalú e Ruas também mereciam destaque. E antes que todos dormissem liguei para os quatro e marquei 9 da manhã no lobby do hotel. Tarefa inglória num momento onde ícones de equipes distintas mal se falavam. Porém o mais difícil foi convencê-los a tirar a camisa no jardim do hotel naqueles 8 graus que faziam em Rome. 

Sabia que comprar uma briga contra Royce e Renzo Gracie não seria tarefa fácil, mas ao visualizar pelo visor da minha Cânon, aquela reunião de talentos da nova geração do MMA nacional, senti que estava bem respaldado para brigar pela minha capa na reunião editorial, afinal de contas não tínhamos ninguém in loco trazendo os bastidores dos outros dois eventos.

Curiosamente, mais tarde todos me revelariam que ficaram gripados. Mas o esforço valeu a pena. Com esta imagem em mãos consegui emplacar uma das minhas capas prediletas, das 78 que fiz pra Tatame. Uma merecida homenagem a 4 ícones da nova geração, representantes das 3 maiores escolas de Vale-Tudo do Brasil: Ruas Vale-Tudo, Chute Boxe e Carlson Gracie.