Jungle 1: O início de Lyoto, Werdum e Jacaré no evento mais insano da história do MMA nacional

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Inoki chega ao ringue escoltado por uma macaca e duas Índias - Foto: Marcelo Alonso

No próximo domingo Wallid Ismail realizará a 111ª edição do Jungle Fight no Ginásio Pelezão em São Paulo. Mas curiosamente é nesta terça-feira que o evento mais tradicional do MMA nacional completa 19 anos de existência com histórico de ter lançado alguns dos maiores nomes do MMA brasileiro para o UFC. E nada mais justo que dedicar o baú desta semana para relembrar a 1ª edição do evento, realizada no dia 13 de setembro de 2003 no hotel Ariaú Towers no meio da floresta amazônica. . 

Texto e fotos Marcelo Alonso

A ESTRÉIA DE WALLID EM OUTRA ARENA

Localizado a quase 60km de Manaus o Ariau Towers era um hotel de selva todo construído em cima de mega palafitas de madeira entremeadas por quilômetros de passarelas. Para se chegar lá, era necessário navegar quase duas horas de barco de Manaus pelo Rio Negro. 

Se chegar lá já não era tarefa das mais fáceis imagine transportar a estrutura de um evento de lutas, além de todo o maquinário de TV e geradores necessários para fazer uma transmissão ao vivo, além de um staff de quase  80 pessoas vindas dos mais distantes pontos do globo. Some-se a isso o fato de o idealizador de toda esta loucura nunca ter organizado sequer um campeonato de Jiu-Jitsu. Para explicar a vocês de onde surgiu esta ideia insana, preciso voltar alguns meses.      

Ao voltar de uma edição do Pride em maio de 2002, fui visitar Carlson Gracie na Califórnia e encontrei Wallid. Recém aposentado dos ringues o amazonense disse que tinha uma bomba para me contar. “Vou fazer um evento com o Antonio Inoki numa arena no meio da floresta amazônica”. Confesso que minha primeira vontade foi soltar uma gargalhada, afinal de contas além de não ter experiência alguma em realizar eventos, como Wallid faria um no meio da floresta amazônica, ainda mais com o suporte do senador Inoki que tinha status de Semi-Deus no Japão. Aquela loucura não tinha a menor possibilidade de sair do papel. 

Mas no dia seguinte Wallid calou a minha boca ao me levar ao encontro do maior ídolo japonês que, numa entrevista exclusiva, me revelou que estava realmente disposto a botar em prática aquela loucura e, pior com transmissão ao vivo para o Brasil e Japão.

A entrevista de Inoki e Wallid acabou virando matéria de capa da revista Tatame de junho de 2003 com o sugestivo título: Dupla sinistra. Lembro que na época a Tatame foi muito criticada por dar a capa para uma loucura daquelas, que parecia não ter a menor chance de sair do papel.

Três meses depois Wallid e Inoki responderiam aos críticos realizando no dia 13 de setembro de 2003 no hotel Ariaú Towers o Jungle Fight. Um show de 12 lutas que custaria 1milhão e duzentos mil reais e lançaria grandes talentos do MMA nacional para o exterior. 

UM RINGUE PARA RICARDÃO

O grupo era tão grande que Wallid teve que dividir em dois barcos. Depois de duas horas de barco cortando o coração da floresta, o amazonense foi ver como estava a arena já com o ringue montado e se deparou com o primeiro problema. Havia menos de 2 metros do chão do ringue até o teto de palha onde foi montada a arena num auditório improvisado. Resultado: a dois dias do evento decidiram desmontar o ringue e serrar 10cm dos 4 postes para permitir que o gigante potiguar lutasse.   

O gigante Ricardão precisou de pouco mais de 1minuto para vencer o capoeirista, mas deu enorme trabalho para a organização

RULES MAKING

 Após equacionar o primeiro problema Wallid reuniu o grupo num auditório localizado ao lado do restaurante para a conferência de regras (rules meeting), só havia um detalhe: Não havia regras definidas e a cada pergunta dos lutadores Wallid olhava para o árbitro Marcus Vinícius, que definia as regras na hora. Foi quando o wrestler Rico Chiaparelli percebeu o que acontecia e brincou: “Vocês estão definindo as regras na hora isso é um rules making, não rules meeting”. A gargalhada foi geral. 

O curioso é que todas as equipes entenderam as dificuldades que Wallid enfrentava e tentar compor dentro da realidade daquela loucura toda    

MACACO X JACARÉ

Anunciada como luta principal do evento o confronto entre o experiente Jorge Macaco, já considerado um dos veteranos mais respeitados do MMA nacional (na época com 28 lutas, sendo 23 vitórias por nocaute no 1º round) e o maior nome do Jiu-Jitsu mundial atraiu a atenção de todos. Contrariando a lógica, Jacaré partiu para a trocação e surpreendeu Macaco. O paulista chegou a balançar, entretanto sua experiência acabou falando mais alto. “Fintei nas pernas, ele baixou a guarda, mandei o direto no queixo e ele desceu”, narrou Jorge Macaco, que chegou a vitória a 3min13seg do 1º assalto.

Mas é na hora da derrota que se reconhece um verdadeiro campeão. “Adorei lutar Vale-Tudo, fui surpreendido por um bom golpe, mas estou pronto para outra, não vejo a hora de voltar aos treinos de Boxe”, me disse Jacaré minutos após a luta. Anos depois o capixaba conquistaria o cinturão do Strikeforce, sendo contratado pelo UFC já sendo apontado entre os top 5 da categoria.

Com apenas 20 dias de aula de Boxe o campeão mundial de Jiu-Jitsu Ronaldo Jacaré partiu para a trocação com o veterano Macaco que já tinha 23 nocautes no 1º round

WERDUM X NAPÃO

Um outro duelo de faixas pretas marcou o Jungle e revelou dois outros talentos do mundo do Jiu-Jitsu para o MMA: Fabrício Werdum e Gabriel Napão.

Apesar da pouca experiência na luta em pé a luta entre os dois faixas pretas foi marcada pela trocação. Considerado a grande revelação do ADCC 2003, Werdum que já havia vencido três lutas na Espanha passou sua maior provação contra Gabriel Napão (Macaco Gold Team), que vinha de vitória no Meca 9 ao finalizar em sua 2o luta o wrestler Brandon Lee Hinkle… Werdum começou acertando um chute de capoeira em Napão que o derrubou e passou a dominar as açoes no chão chegando a montar em Fabricio, que nitidamente perdeu o 1º round. No 2º porém o gaúcho reagiu. Depois de quase encaixar uma chave de pé, acertou bons socos em Napão chegando bem perto de conseguir a vitória por nocaute.

Gabriel voltou sem gás para o último round e acabou sendo nocauteado por Werdum com uma joelhada complementada por socos da montada. Nos anos subsequentes Napão seria contratado pelo UFC marcando seu nome na história ao nocautear CRO Cop com seu próprio veneno. Já Werdum estrearia no Pride um ano e meio depois finalizando Tom Erikson e depois vencendo nomes com Alistar Overeem, Antonio Pezão, Brandon Vera, Fedor Emelianenko. No UFC Werdum cravaria seu nome entre os maiores pesos pesados da história ao finalizar as lendas Rodrigo Minotauro e Cain Velasquez e conquistar o cinturão dos pesos pesados do maior evento do mundo. 

LYOTO X BONNAR 

Outra grande revelação da primeira edição do Jungle foi Lyoto Machida que não deu chances ao aluno de Carlson Stephen Bonnar. Combinando chutes de seu karate com o boxe que vinha treinando nos EUA, Lyoto abriu um enorme corte no rosto de Stephen Bonnar obrigando os médicos a interromperem a 3min12s de luta

No final da luta Carlson me revelou sua ira com Wallid. “Para os meus ele só coloca pedreiras”.  Nos anos seguintes Stephen Bonnar mostraria que Carlson não estava errado em apostar em seu talentos. Sua luta com Forrest Griffin na final do 1º TUF é considerada uma das melhores da história, sendo apontada por muitos com a responsável pela grande virada do MMA junto ao grande publico americano.

Lyoto Machida iria muito mais longe. Depois de rodar o mundo em busca de técnicas treinando com Inoki, na equipe de Dan Henderson, passar pela Chute Boxe e  até pela Black House, Lyoto se consagraria no UFC utilizando o Karate Shotokan de seu pai Yoshizo Machida, vencendo alguma das maiores pedreiras de sua categoria e conquistando o cinturão do evento.

Lyoto não deu chance ao novato aluno de Carlson, Stephen Bonnar, obrigando os juízes a interromperem a luta devido a um sangramento

O MERGULHO DE ANTONIO INOKI

Apesar das grandes lutas que marcaram este card, quando se pensa no Jungle 1, não há como não lembrar da maior de todas as loucuras: a chegada triunfal do senador Antonio Inoki mergulhando de sunga, entre as 6º e 7º luta, as 2 da madrugada no Rio Negro. “Aquilo foi uma loucura. Fiquei pra morrer com o Inoki mergulhando naquele Rio cheio de jacaré e piranhas com transmissão ao vivo pro Japão. Deus me livre se acontecesse alguma coisa”, relembra hoje Wallid. Pra completar a loucura, ao chegar a beira da arena, Inoki vestiu um terno terno e recebeu uma macaca, para delírio dos quase 100 faz japoneses que vieram ao show num vôo fretado. 

Mas a maior loucura deste show ocorreu nos bastidores e o fato só foi revelado depois de resolvido. No meio do evento um iate se soltou e quase arrebentou o cabo que garantia a transmissão ao vivo para o Sportv e para o Japão. Informado do fato no meio do evento, Wallid não pensou duas vezes, cortou a corda e deixou o barco a deriva. 

EBENZER FINALIZA FAIXA PRETA

Mas a noite não foi só dos faixas pretas. No confronto com Ebenezer Braga, Rodrigo Riscado acabou sendo finalizado com uma guilhotina ao tentar derrubar o faixa preta de Luiz Alves. 

RICO CHIAPARELLI E MARK SHULTZ

A rivalidade entre Jiu-Jitsu e Wrestling carro chefe entre os maiores eventos do mundo teve dois capítulos nesta primeira edição do Jungle, com dois renomados veteranos do Wrestling americano contra dois novatos brazucas. O líder do RAW Team, Rico Chiaparelli de 39 anos, que fez sua estréia no Vale-Tudo enfrentando o faixa marrom de De La Riva Luis Pantera. Mesmo visivelmente  nervoso Rico mostrou superioridade vencendo os 3 round por decisão.

Se o Jiu-Jitsu perdeu no primeiro confronto por pontos no segundo o parceiro de Jacaré Leopoldo Montenegro finalizou o wrestler olímpico Mark Schultz. O homem que viria a ser protagonista do filme Fox Catcher, não conseguiu derrubar o brazuca, que o puxou para a guarda e o finalizou com um triangulo a 3min48s 1º round.

WALLID: “GOSTEI DESSA ADRENALINA”

Depois destes três dias de loucura total Wallid radiante com os números do Sportv nos confidenciou. “É muito mais fácil lutar. Fazer um evento é uma maluquice, ainda mais organizar o primeiro no meio da selva. O pior é que eu gostei desta adrenalina, vocês podem ter certeza que este será o primeiro de muitos”, disse o amazonense, comemorando o recorde de pay per views do Sportv na época. Passados 19 anos daquele evento, o fato é que Wallid calou a todos que, assim como eu, não acreditavam em sua “maluquice”. Hoje o Jungle Fight é, indiscutivelmente, o evento que revelou mais talentos do MMA nacional para o mundo.