Luta-Livre rouba festa do Jiu-Jitsu em Vale-Tudo no Canecão

Conhecido como maior palco de shows do Rio de Janeiro nos anos 80 e 90, o Canecão recebeu no dia 19 de dezembro de 1997, o 1º Desafio O Lutador de Vale-Tudo.

Uma noite idealizada para ser de festa para três grandes estrelas do Jiu-Jitsu: Amaury Bitetti, Jorge Pereira e Crézio de Souza, mas que ficou lembrada pelo confronto em que um aluno iniciante de Eugênio Tadeu (Luta-Livre) venceu de maneira inquestionável um dos maiores nomes da escola Carlson Gracie.

No fim de 1996, Yan Bonder, um dos idealizadores da revista Tatame, se desentendeu com seu sócios e decidiu criar uma nova publicação, a revista O Lutador se associando a Ricieli Santos, um conhecido promotor de campeonatos de Jiu-Jitsu e Surf da época.

Depois de lançarem duas edições, a dupla decidiu investir num evento de lutas com o intuito divulgar o veículo e, obviamente, obter lucro. Assim nascia o I Desafio O Lutador de Vale-Tudo. Graças as suas excelentes conexões Ricieli conseguiu levar o evento para o Canecão, grande palco da MPB. Feito inimaginável para a época uma vez que o Vale-Tudo era uma atividade totalmente marginalizada pela grande mídia.

A idéia inicial de Ricieli e Yan era fazer a luta principal entre Crézio de Souza, considerado o mais técnico peso leve de Carlson Gracie e o maior ícone da Luta-Livre, Eugênio Tadeu. “Quando me trouxeram a idéia do desafio eu fiz como os Gracie faziam. Eu já tinha uma história na luta, havia lutado com Pitanguy, Royler e Walllid, por isso achei que o Crézio precisava se credenciar para lutar comigo. Então propus que ele lutasse com o meu aluno Allan Carvalho. Caso vencesse, eu lutaria no próximo evento com ele”, lembra Eugênio Tadeu.

O fato de Alan ser faixa laranja e ter pouco mais de um ano de luta, levou Crézio a aceitar uma diferença de 8kg em favor do aluno de Tadeu.

A rivalidade entre as duas modalidades, ainda mais após as 3 vitórias do Jiu-Jitsu sobre a Luta-Livre no sangrento Vale-Tudo do Grajaú em 1991, transformou o Canecão num barril de pólvora quando os dois lutadores entraram no ringue.

A luta começou com um domínio claro de Crézio, que passou boa parte dos 10 minutos do 1º round batendo de dentro da guarda de Alan, que fazia uma tática para minar o faixa preta. Com a guarda fechada e defendendo boa parte dos golpes de Crézio, o representante da Luta-Livre passou a cansar o oponente, que já não conseguia mais derrubá-lo no segundo round. Foi aí que a história do combate começou a mudar. Bem mais pesado e melhor preparado em pé, Alan passou a levar a melhor na trocação.

EUGÊNIO, WALLID E MURILO DE BRAÇOS DADOS

Por volta de 3minutos do 2º round, já muito cansado e bastante ensangüentado, Crézio sentou fazendo guarda. Neste momento Eugênio, cercado por Bustamante e Wallid, protagonizou uma cena histórica, entrelaçando os braços com os dois rivais. “Não teve jeito, naquela hora as cotoveladas estavam comendo de todo lado, então foi melhor a gente segurar os braços, até para se proteger uns dos outros e assistir a luta”, conta Tadeu, que segundos depois veria seu aluno definindo a luta com socos da lateral. Diante de um Crézio de quatro, bastante machucado e sem esboçar reação, o árbitro Fernando Pinduka decidiu interromper o combate e dar a vitória para o raçudo aluno de Eugênio, que hoje mora nos EUA, mas não vive mais da luta.

AMAURY BITETTI E JORGE PEREIRA FINALIZAM

Mas a noite não foi só de derrotas para o Jiu-Jitsu. Antes da luta entre Crézio e Allan, Jorge Pereira derrubou e pegou as costas do boxer Egídio “Sombra da Noite” conseguindo finalizá-lo com um mata-leão.

Já na luta principal da noite, Amaury Bitetti não teve dificuldades para derrubar e finalizar o kickboxer americano, Maurice Travis com um mata-leão a 3minutos de luta.

Nas outras duas lutas do evento, Henrique Lango (Freestyle) obrigou Claudionor Fontinelli (Muay Thai) a desistir com socos da montada a 10 minutos do 1º round, enquanto o boxer Sérgio Gaúcho venceu Paulo de Jesus (kickboxing) com socos da montada a 5min10 (Paulo escapou do ringue).

CANECÃO LOTADO, MAS COM 130 PAGANTES

No final do evento, como era comum na época, as contas não fecharam. É importante frisar que contribuiu muito para isso a mentalidade que ainda impera na comunidade das artes marciais até os dias atuais (Se o promotor é amigo, não se paga ingresso), o que acabou impedindo Yan Bonder e Ricieli Santos de conseguirem o caixa suficiente para pagar as bolsas. Mesmo com o Canecão quase cheio, os promotores amargaram parcos 130 pagantes, o que mal dava para pagar a bolsa do lutador americano. Resultado: Para pagar as outras bolsas, os promotores tiveram que vender um carro às pressas. No final ainda ficou faltando a bolsa do principal destaque do evento, Alan Carvalho da Luta-Livre. “Eu senti que a corda ia arrebentar para o lado mais fraco, pagaram todo mundo do Jiu-Jitsu, só ficou faltando um do Dedé e o meu garoto, que deu o principal show da noite e ia ficar sem receber. Então tive que tomar uma atitude mais ríspida. Fui na redação dos caras e “apreendi” uns computadores. Graças a Deus logo depois deu tudo certo e eles acertaram conosco”, lembra Eugênio

Meses depois a revista O Lutador acabaria falindo e o talentoso Yan Bonder, acabaria deixando definitivamente o mercado editorial de lutas.