Pride 4: Três gerações de lendas num card histórico

Uma semana antes da primeira edição do UFC no Brasil (o UFC 17.5 em São Paulo) fui ao Japão pela segunda vez cobrir o Pride 4, um evento recheado de ícones do esporte de três gerações distintas. De lendas dos anos 80, como Marco Ruas, Rickson Gracie e Hugo Duarte; passando por destaques da geração dos anos 90, como Allan Góes e Wallid, até as grandes promessas da nova geração como Mark Kerr, Igor Vovchanchyn, Gary Goodridge e um tal Kazushi Sakuraba, que após vencer Marcus Conan no UFC 15.5 faria sua sexta luta de MMA, contra outro faixa preta de Carlson, Allan Góes.

RICKSON E O NASCIMENTO DO PRIDE

Após as seis vitórias consecutivas (quatro sobre lutadores japoneses) que renderam a Rickson Gracie os títulos das duas edições do Vale-Tudo Japan (VTJ) em 1994 e 1995, os promotores japoneses decidiram criar um evento especialmente para lavar a honra dos japoneses, colocando o maior ídolo nacional da luta, Nobuhiko Takada, para lutar contra o No1 da família Gracie. Como nesta época os japoneses ainda não conseguiam discernir luta real de Marmelada, dada a enorme popularidade dos eventos de Pro-Wrestling, onde Takada era o grande ídolo, acreditava-se piamente na terra do sol nascente na vitória de Takada sobre Rickson, daí o nome do evento ser PRIDE (orgulho).

Na primeira edição do evento (em outubro de 1997), Rickson só precisou de 4min47 segundos para finalizar Takada com um armlock.

Os japoneses não se conformaram com a derrota e convidaram Rickson para a revanche na quarta edição do evento, realizada um ano depois no mesmo Tokyo Dome. Só que desta vez além de Rickson estavam presentes no card alguns dos maiores nomes do esporte na época.

Apesar de não estar com sua capacidade máxima (60 mil pagantes) o Tokyo Dome estava bem cheio naquele 11 de outubro de 1998. Como de praxe, a KRS, empresa responsável pela organização do evento, não economizou na produção. Além de montar um palco enorme conectado ao ringue por uma passarela para apresentação dos lutadores, a empresa construiu dois dinossauros em tamanho real, que mexiam o pescoço e emitiam sons característicos.

AS DERROTAS DE RUAS, WALLID E HUGO

Na abertura do evento o ucraniano Igor Vochanchyn só precisou de 5min58seg para encurralar Gary Goodridge nas cordas e demolir o americano com uma seqüência de socos.

E a noite não começou bem para o Brasil. Favoritos absolutos contra oponentes japoneses, Marco Ruas (1,85m/105kg) e Wallid Ismail  acabaram sendo surpreendidos.

Quando a luta começou o criador do Ruas Vale-Tudo tentou pegar as costas de Alexander Otsuka, que saiu e deixou o brasileiro cair por baixo. No final do round Ruas, conseguiu uma raspagem, caindo montado e terminando o round com uma mata-leão encaixado.

No Segundo round, porém, Ruas voltou irreconhecível e deixou que o japonês o derrubasse. Percebendo o cansaço do brasileiro, Otsuka chegou a meia guarda de onde passou quase todo o round punindo o brasileiro, chegando a abrir um corte em seu supercílio. No final do round Ruas mal conseguia levantar e disse que não conseguiria continuar, obrigando seu parceiro de treinos Bas Rutten e Roberto Leitão a jogarem a toalha. “Não sei o que aconteceu, mas no final do Segundo round não conseguia nem levantar o braço”, me disse após a luta Marco, que ao chegar no Brasil descobriria uma alteração sanguínea em sua taxas de acido úrico.

Wallid Ismail era outro que demonstrava total tranquilidade antes da luta contra o judoka japonês Akira Shoji. “Nunca estive tão bem fisicamente”, me disse na conferencia de imprensa o discípulo de Carlson. Assim como Ruas, Wallid dominou o primeiro round, botou o japonês para baixo algumas vezes e chegou a montada em duas oportunidades, mas Shoji conseguiu escapar. Depois de 10 minutos caçando o japonês, o faixa preta de Carlson cansou e acabou sendo obrigado a aceitar a trocação, onde o japonês mostrava clara superioridade. E foi desta maneira que a luta se definiu. Sem conseguir derrubar o japonês Ismail levou a pior. Com uma sequência de socos, Shoji levou o juiz a decretar o nocaute técnico.

HUGO DUARTE: “É TRAÇÃO NAS QUATRO, NUNCA VI UM CARA TÃO FORTE”

De todos os brasileiros no card do Pride 4, ninguém tinha a menor dúvida de que Hugo Duarte era o que tinha a tarefa mais indigesta. Com nove vitórias seguidas Kerr já era longe o lutador mais temido do mundo nesta época. Para piorar o wrestler estava treinando há quase um ano com Bas Rutten e Marco Ruas em Los Angeles.

Sabendo das dificuldades que o general da Luta-Livre enfrentaria, Carlson Gracie, com seu coração enorme, resolveu botar as rivalidades de lado e ficar no córner de Hugo, que só tinha seu aluno (Bigú) e o preparador físico (Jorge) ao seu lado.

Durante boa parte do primeiro round Hugo conseguiu manter Kerr em sua guarda com os braços travados. Quando o Americano conseguia se ajeitar para bater Hugo respondia por baixo e voltava a dominar seus braços.

No início do segundo round, Kerr conseguiu acertar um soco que abriu o supercílio de Hugo. Devido ao forte sangramento a luta chegou a ser interrompida. Quando os médicos autorizaram o retorno do brasileiro, Kerr pareceu perder a paciência com a tática de amarração de Hugo e decidiu não entrar mais na guarda do brasileiro. Com pisões e chutes Mark acabou definindo a luta ao quebrar o pé esquerdo do brasileiro no fim do 2o round.

Hugo, motivado por Carlson, ainda voltou para o terceiro round, mas sem conseguir andar nem fazer guarda acabou virando presa fácil para Kerr que chegou a montada. Hugo escapou pulando para fora do ringue e os juízes interromperam a 2min32s do 3o round. “É tração nas quatro rodas, estouro de boiada mesmo, nunca vi um cara tão forte”, reconheceu Hugo.

HUGO CRITICA RUAS E SELA PAZ COM JIU-JITSU

Nesta entrevista, realizada no Lobby do hotel no dia seguinte a luta, Hugo Duarte, com a perna engessada, acusou o ex-parceiro de treinos Marco Ruas de passar seu jogo para Kerr. “Todos os movimentos que ele fez nas lutas anteriores, que daria margem para eu atacar joelho e americana, ele não repetiu lutando comigo. O Ruas passou todo o meu jogo para ele”.

O general da Luta-Livre fez questão de agradecer o apoio de Carlson Gracie. “O pessoal da Luta-Livre me chamou de maluco quando aceitei esta luta. Mas desde o primeiro dia que cheguei no Japão o Carlson me fez acreditar que dava para endurecer esta luta e me dando um enorme apoio na beira do ringue. Depois desta atitude do Carlson esta mais que na hora de acabar com esta guerra entre Jiu-Jitsu e Luta-Livre”.

Allan dá seminário de Jiu-Jitsu em Sakuraba

Já Allan Góes, deu uma verdadeira aula em Kazushi Sakuraba, que começava a aparecer com vitórias sobre Conan, Vernom White e Carlos Newton.

Sakuraba passou os 3 rounds completamente perdido na guarda do brasileiro. Quando ficava em pé era atingido com pedaladas, Quando entrava na guarda levava socos e quando tentava se afastar era desequilibrado e raspado. Em duas oportunidades Allan chegou as costas do japonês. Em uma delas chegou a encaixar o mata-leão, mas Sakuraba foi salvo pelo gongo. Como as regras só previam que a luta fosse definida por nocaute ou finalização, o combate terminou empatado. Certamente Allan Góes fez Sakuraba corrigir buracos no seu jogo e aumentar muito a carga de treinos. A maior prova disso é que, após esta luta, o “Gracie Hunter” enfileiraria 6 brasileiros (Belfort, Ebenezer, Royler, Royce, Renzo e Ryan) até ser nocauteado por Wanderlei Silva no Pride 13 em 2001.

RICKSON FINALIZA E PEDE OPONENTE MAIS DURO

Na luta principal da noite Rickson mais uma fez finalizou Takada com um armlock. O japonês estava mais preparado neste segundo confronto criando mais dificuldades para o brasileiro, mas em nenhum momento o deixou em situação de perigo.

Os dois permaneceram clinchados durante quase todo o 1º round. Até que quando faltava pouco mais de 2 minutos para o final o japonês conseguiu derrubar o Gracie, mas quando tentava encaixar seu calcanhar na axila foi raspado. Rickson logo chegou a montado, partindo para o armlock que obrigou o japonês a desistir a 30 segundos do fim do round. Ao final da luta Rickson fez seu tradicional discurso agradecendo aos fãs japoneses e descartando os rumores de aposentadoria. Chegando a pedir um oponente mais duro. O Gracie voltaria aos ringues japoneses dali a 2 anos para fazer sua ultima luta em maio de 2000. Após vencer Funaki, o filho de Hélio Gracie iniciou as negociação para enfrentar o “Gracie Hunter” Sakuraba, mas a trágica morte de seu filho, Rockson, em dezembro daquele ano acabaria levando ao final prematura da carreira de Rickson Gracie.