Primeiro herói negro do esporte brasileiro, Waldemar Santana completaria 92 anos nesta quarta

Se estivesse vivo, nesta quarta-feira (28/10), Waldemar Santana estaria completando 92 anos. Nesta semana marcada pela aposentadoria do maior ícone do MMA brasileiro, nada mais emblemático do que dedicar o Baú desta semana ao primeiro herói negro da luta no Brasil.

A vida de Waldemar Santana e sua importância na história das artes marciais não se resumem apenas às 3h45min, tempo que durou a luta que travou com Hélio Gracie e sua vitória, que o consagrou como um dos melhores lutadores do vale-tudo. Vai muito além disso, e começa no início da década de 50, quando um jovem atleta e capoeirista, com 22 anos, decidiu deixar Salvador, sua terra natal, para correr atrás de seus sonhos. Partiu para a capital federal da época, o paradisíaco Rio de Janeiro, sede da academia da família Gracie, já conhecida por sua fama no treinamento de jiu-jitsu.

A aproximação de Waldemar com os Gracie ocorre logo depois da luta entre Hélio Gracie e Kimura, em 1951. Na época Hélio e seu irmão estavam inaugurando uma nova Academia Gracie na avenida Rio Branco e convidaram Waldemar para ser roupeiro e faxineiro.

O baiano aproveitava todo tempo livre que tinha para treinar e aos poucos foi se revelando um talento, passando a servir de sparring para os mais graduados como João Alberto Barreto, Hélio Vigio e Carlson Gracie, de quem se tornou amigo.

Um dia faltou água, Waldemar esqueceu as torneiras abertas durante a noite e inundou a academia encharcando os tatames e deixando Hélio Gracie furioso. Waldemar foi demitido, mas depois de um tempo voltou a treinar, com consentimento do mestre. Não mais como empregado, mas como aluno e lutador da academia. Tudo corria bem até Waldemar receber uma proposta para enfrentar Hamilton Silva (Biriba) com quem tinha uma pendenga pessoal. O problema é que a luta ocorreria no Palácio de Alumínio, a meca do Catch as Can (lutas combinadas) na cidade. Consultado por Waldemar, Hélio não quis permitir que o aluno lutasse no evento e ameaçou expulsá-lo. Waldemar ainda tentou convencê-lo que a luta seria para valer, explicando que precisava muito de dinheiro, mas Hélio deixou claro que o expulsaria caso aceitasse o desafio. Sem nenhuma perspectiva de fazer parte da equipe A que representava a academia Gracie na época, Waldemar acabou lutando. De fato foi uma luta pra valer e Santana venceu fácil, mas o mestre não quis conversa e o expulsou o insultando publicamente ao chamá-lo de “Negro Safado”.

O episódio geraria uma enorme celeuma na época com o jornalista da “Ultima Hora” Carlos Renato, criando a narrativa de que o aluno humilhado deveria responder ao mestre nos ringues. A história ganhou espaço em todos os veículos da época e Waldemar acabou desafiando o mestre Hélio, que aos 42 anos resolveu aceitar o desafio do aluno 19 anos mais novo.

A luta ocorreu no dia 24 de maio de 1955 no ginásio da ACM com ampla cobertura da imprensa na época. Após 3h45 de Vale-Tudo Waldemar definiu o combate arremessando Hélio num kataguruma e complementando a queda com um chute no rosto, que levou Hélio a nocaute.

HÉLIO X WALDEMAR POR NÉLSON RODRIGUES

A violência daquele combate levaria a proibição do Vale-Tudo no Rio de Janeiro e mereceria crônicas em todos os jornais da cidade, inclusive uma de Nélson Rodrigues, Intitulada “O Preto que tinha alma preta” na qual o dramaturgo analisa fortemente a questão racial na época. “O que houve ontem na ACM foi uma forra ancestral do negro sobre o branco…. E eu senti como se o golpe que liquidou Hélio Gracie fosse desferido pelo pé de um S. Benedito”.

O nocaute brutal sofrido por Hélio Gracie geraria um interesse imediato numa resposta da família, desta vez representada por Carlson Gracie.

Carlson vingaria o tio Hélio numa luta de Vale-Tudo que lotou o Maracanãzinho em 1956. Mas mesmo após de ser derrotado pelo Gracie, Waldemar continuaria com seu status de grande ícone esportivo. Vale lembrar que nesta época o Brasil ainda vivia o trauma do Maracanazo em 1950. Só em 1958 o escrete canarinho, liderado por Pelé, traria nossa primeira copa do mundo.

Além de Carlson Gracie, com quem Waldemar lutou em cinco oportunidades (1 vitoria para o Gracie e 4 empates), o Leopardo Negro lutaria diversas vezes com outros grandes ícones de sua geração, como Ivan Gomes, Euclides Pereira e até mesmo com o japonês Masahiko Kimura, a quem enfrentou em Salvador nas regras do Vale-Tudo.

TRIBUTO A WALDEMAR

Quer conhecer mais sobre a história do Leopardo Negro? Então confira o RESENHA PVT especial que fizemos com sua filha, Waldimara Santana. Relembramos as principais lutas de seu pai, fatos curiosos sobre a amizade entre ele e o mestre Hélio, homenagens em marchinhas de carnaval e a importância de seu legado para as gerações atuais. Veja também a galeria de fotos abaixo com momentos marcantes da carreira de Waldemar.