Minotauro e Wanderlei na noite de gala do MMA brasileiro

Com todo respeito a todas as grandes conquistas dos nossos grandes ícones, mas sempre que me pedem para escolher a cobertura mais marcante destes quase 30 anos que venho acompanhando o nosso esporte não tenho dúvidas em apontar o Pride Final Conflict em 2003. Afinal de contas, não há como imaginar uma noite mais vitoriosa para o MMA nacional que aquela. Não só pelo fato de os dois maiores ídolos nacionais terem vencidos desafios duríssimos, garantindo a hegemonia brasileira no esporte ao conquistarem, diante de 67 mil japoneses que lotavam o Tokyo Dome, os cinturões mais importantes do MMA, mas principalmente pela presença de Glória Maria, na época a principal repórter do Fantástico.

Por mais que o MMA tenha crescido nos últimos anos, nenhuma matéria sobre MMA foi tão assistida quanto esta que chegou a dar 42 pontos de audiência no Fantástico. Ainda hoje um recorde na história do esporte.

MINOTA, DO INFERNO AO CÉU

O rei das finalizações contra o rei dos nocautes. Assim era noticiada no Japão a batalha dos dois gigantes pesos-pesado do Pride, Rodrigo Minotauro e Mirko Cro Cop. Se Rodrigo tinha a motivação da presença do Fantástico, o Croata sabia que o evento seria transmitido ao vivo em TV aberta para seu país.

A luta entre Minota e Cro Cop valeria o cinturão interino dos pesados, uma vez que Fedor recusara lutar com o croata duas vezes.

Curiosamente Dana White, que junto Com Lorenzo Fertitta tinha ido ao Japão acompanhar seu representante no torneio (Chuck Liddel), dava como certa a vitória do Croata . “O Cro Cop é o atual No1 do mundo, pena que não tenho nenhum pesado para vencê-lo”, me disse a época o cartola.

O primeiro round começou com Minotauro trazendo o Croata para sua guarda, mas Mirko logo levantou e passou a marcar todas as tentativas de queda do brasileiro, dominando inteiramente as ações no primeiro round, punindo o brasileiro com chutes e socos e aplicando um knock down em Rodrigo, com seu famoso chute alto, no último segundo do round inicial. Rodrigo caiu com uma mão se defendendo e com outra avisando ao juiz que tinha condições de continuar. “Normalmente não coloco emoção nas minhas lutas, mas aquele chute me deixou louco e voltei para definir”, me contaria Minotauro horas depois.

Depois de dominar inteiramente o primeiro round, Mirko voltou relaxado no segundo e , logo em seu primeiro ataque, foi surprendido por um single leg do brasileiro, que após derrubá-lo, montou e aplicou uma série de socos, aproveitando o desespero do Croata para pegar seu braço. Sem dúvida alguma uma das viradas mais sensacionais da história do esporte.

Foto: Susumu Nagao

A CONSAGRAÇÃO DO MR. PRIDE

Mas o GP não começou tão bem para o Brasil, na luta alternativa, Murilo Bustamante, que, substituindo Arona, havia feito luta dura nas quartas de final contra Rampage, acabou sendo nocauteado por Dan Henderson ainda no 1o round.

Depois da derrota de Murilo para Henderson foi a vez de Quinton Rampage, que passou dois dias com um cigarro apagado no canto da boca, cumprir o que prometera na pesagem e literalmente fumar o compatriota Chuck Liddel na primeira semifinal do torneio.

Liddell, que chegara ao evento, na companhia dos patrões Dana e Lorenzo, prometendo unificar os cinturões do Pride e UFC, até começou fazendo um combate parelho, mas quando resolveu atacar se abriu e, após quase ser nocauteado no final do 1o round, não resistiu as mãos rápidas de Rampage. No 2o Quinton novamente acertou uma boa combinação e derrubou Liddel, definindo o duelo com socos de dentro da guarda a 3min10seg.

Depois da luta a equipe do UFC, trazida por Dana, (medicos e massagistas) partiu para o vestiário de Rampage para ajudá-lo a se recuperar.

Enquanto isso na outra semifinal o grande ídolo japonês Hidehiko Yoshida, que vencera Tamura na primeira fase do GP enfrentaria o campeão dos médios do evento, Wanderlei Silva. O apoio dos fãs que receberam o ídolo de pé em sua entrada no ringue não foi em vão.

Depois de passar dois meses treinando com Sakuraba, que já enfrentara o curitibano em três oportunidades, Yoshida endureceu com Wanderlei no 1o round, quando conseguiu clinchá-lo e levar a luta para o chão.

No 2o round, porém, o Mr. Pride partiu com tudo para cima do japonês, que mesmo impressionando a todos ao aceitar a trocação, acabou cansando virando presa fácil para os ataques do brasileiro, que venceu na decisão dos juízes e partiu bastante desgastado para a final.

CINTURÃO COM BURSITE TENDINITE

No intervalo fui ao vestiário de Wanderlei onde Sérgio Cunha fazia uma massagem no campeão sob os olhares atentos do mestre Rudimar, Rafael Cordeiro e Cristiano Marcelo. Ali fiquei sabendo que além do cansaço, Wanderlei estava com duas contusões sérias, uma bursite no cotovelo e uma tendinite no biceps, que o impediram de treinar nas últimas semanas. Mesmo assim o clima no vestiário era de vitória. Foi aí que vi a diferença que faz a cojugação da boa cabeça de um lutador e um bom córner. “Este cinturão é seu campeão e não tem quem tire… Heeeeyyyy”, gritavam os mestres Rafael e Rudimar a todo instante, enquanto Wanderlei parecia tirar uma soneca.

Enquanto isso do lado de lá, Rampage, também vinha de uma luta dura a diferença é que talvez não tivesse a experiência de Wanderlei, que já havia lutado dois torneios no Brasil, fazendo três lutas na mesma noite e sem luvas. Nesta hora o psicológico faz a diferença. E fez.

A última luta da noite, vinha cercada de muita expectativa uma vez que no Pride 25, oito meses antes, após nocautear Randleman, Quinton desafiara Wanderlei ao microfone. “Quero você garoto”. Na oportunidade brasileiro subiu ao ringue e o empurrou dizendo: “Este ringue é meu”. Esta cena foi amplamente mostrada pelos japoneses e acabou sendo excelente para aumentar ainda o entusiamo com a final.

Wanderlei começou com a agressividade de sempre, mas Rampage conseguiu derrubá-lo chegando ao sem quilos, de onde passou a desferir joelhadas e socos. Já com um pequeno corte no supercílio Wand repos a guarda e dominou os braços do oponente, recebendo um cartão amarelo, mas conseguindo o que queria: voltar a luta em pé.

A partir daí Wanderlei partiu para cima e, após atacar com serie de socos, dominou o pescoço do americano e acertou uma joelhada. Quinton riu e recebeu como resposta dois diretos. Foi então que o curitibano acertou mais duas joelhadas e alguns dietos que obrigaram o juiz a interromper definindo o campeão do GP a 6min40s do 2o round. “Fiquei parado seis meses devido a operação no joelho, como era o campeão da categoria, poderia ter ficado de fora esperando o campeão do GP, mas fiz questão de lutar, porque este é o preço que o campeão tem que pagar, os covardes se sentem bem por não serem ameaçados. Ganhar ou perder é detalhe o importante é que partir para dentro”, declararia Wanderlei no vestiário, logo após a luta.

A REVANCHE COM BELFORT – Já naquela época Wanderlei cogitava fazer uma revanche com Belfort, caso este vencesse Couture no UFC. “Eles estão querendo unificar os cinturões dos dois eventos, se o vitor vencer o Couture sera um prazer bater gostoso nele, sera um prazer nocauteá-lo. Quero provar que aquela primeira luta foi um lapso. Entretanto só aceito enfrentá-lo se for campeão do UFC. Para encostar a mão no Silva agora só com o cinturão, senão vá para o final da fila”, me disse a época o campeão do GP. Quem diria que 17 anos depois esta novela ainda estaria em cartaz.

VÍTIMA DA GUERRA FRIA

Naquela época, a guerra entre as equipes brasileiras Chute Boxe e BTT, marca registrada do Pride, também se refletia nos bastidores, onde os managers Motoko Ushida (BTT) e Koichi Kawasaki (Chute Boxe) viviam se bicando.

Infelizmente neste Pride eu acabei sendo a vítima. Ao ver a manager do BTT me ajudando a preencher os papéis de credenciamento, Kawasaki, quis mostrar seu poder e arquitetou junto a organização que negassem o meu credenciamento para fotografar a beira do ringue (como já conseguira em 3 outras edições). Apesar da cobertura jornalística ser interessante para ambas as equipes e nada ter a ver com politicagens, o líder da Chute Boxe nada fez para reverter o quadro, o que me deixou muito chateado, afinal de contas eu era o único fotógrafo brasileiro no evento.

Mas numa noite histórica daquela, marcada pela capacidade de superação de dois guerreiros brasileiros, sabia que não poderia esmorecer. Sem condições de fazer boas imagens no local onde me credenciaram “a quilometros do ringue” decidi usar a minha “criatividade brazuca”. Aproveitei a distração dos seguranças na hora em que as luzes se apagaram para a cerimônia de abertura e escalei uma torre que servia de base para as cameras que passavam por cima do ringue. Não foi o ideal, como seria a ringside, mas pelo menos de lá consegui imagens de um ângulo diferente que acabaram rendendo a capa da revista Tatame. Vale ressaltar que mesmo com toda a perseguição do Sr. Kawasaki e omissão da equipe curitibana, Wanderlei foi estampado na capa daquela edição histórica. 

Glória Maria: “Nunca vi algo tão gradioso quanto o Pride”

Considerada a mais importante e influente repórter da Rede Globo naqueles tempos, Glória Maria chegou ao Japão com a certeza que faria uma matéria sobre a popularidade dos lutadores brasileiros no Japão. “Toda a direção da Globo, assim como eu, é absolutamente contra qualquer tipo de violência… Mas não vim aqui mostrar a luta, até porque não considero o Vale-Tudo um esporte”, me disse a repórter durante o café da manhã dois dias antes do evento.

Mas após conhecer Wanderlei e Minotauro e acompanhar de perto a idolatria dos fãs japoneses numa reportagem onde os dois se enfrentavam no videogame, a jornalista foi mudando de opinião. “Eu tinha uma imagem dos lutadores como trogloditas, o surpreendente foi perceber que não é nada disso. Conheci rapazes normais e inteligentes”.

No dia da luta Glória, após assitir a uma orquestra sinfônica com quase 60 componentes fazendo a abertura do Pride para quase 70 mil fãs totalmente ensandecidos, a jornalista  já parecia hipnotizada. “Já vi shows e espetáculos no mundo inteiro e nunca vi algo tão gradioso quanto isso”.

Quando as lutas começaram, a profissional deu lugar a torcedora e Glória simplesmente perdeu a linha. “Nos dias que antecederam o Pride eu convivi com cada um dos lutadores acompanhando as dificuldades e superações, por isso veio uma coisa meio de novela, porque todos os brasileiros começaram mal. O Murilo perdeu, ai o Wanderlei teve dificuldades com o Yoshida, naquele momento eles não eram mais lutadores distantes, eram amigos próximos que eu tinha feito, então quando vi meus amigos em dificuldades, é claro, torci, gritei… Na luta do Rodrigo eu xinguei tanto aquele Croata. No final foi maravilhoso, o Rodrigo virou a luta e venceu e o Wanderlei idem. Foi realmente muito emocionante, surpreendente eu nunca imaginei que pudesse torcer tanto numa luta”, disse Glória, que já na conferência de imprensa se assumia como fã.

“Para mim foi a descoberta de um esporte, uma modalidade de luta que, te confesso, odiava e agora dou a mão a palmatória. Foi um espetáculo além de qualquer expectativa”.

O resultado de tanta motivação foi mostrado no Fantástico da semana sequinte. Após decupar mais de 8 horas de fita, a jornalista mostrou o MMA a milhões de brasileiros, em uma material excepcional de 6 minutos e totalmente despida de preconceitos.

A repercussão da reportagem foi tão boa que na semana seguinte Glória esteve na casa de Minotauro para mostrar aos fãs brasileiros como vivia aquele ídolo tão conhecido no Japão e ainda desconhecido no Brasil.

No final, depois da reportagem que fez na casa de Minotauro a jornalista, do alto de seus 25 anos de experiência, me revelou ter aprendido uma lição: “a gente nunca deve julgar as coisas pela aparência e nem à distância, temos que entrar no olho do furacão para ver como ele é”.

Fotos: Marcelo Alonso e Susumu Nagao.