O Jungle Fight 116, realizado neste sábado (27), na capital paulista, ratificou o reinado de Elora Dana na divisão dos moscas feminino e consagrou Arcângelo Anjo como o novo campeão dos meio-médios. Mais que conquistar o cinturão, o amazonense protagonizou, ao lado de Vanderlei Sou Glo, uma das melhores lutas de 2023 em todo o mundo.

Com vantagem na envergadura, invicto e defendendo o título, Vanderlei Sou Glo foi o senhor dos dois primeiros rounds, aplicando um festival de joelhadas e cotoveladas no desafiante. Parecia questão de tempo para Arcângelo Anjo desabar. Mas o amazonense resistiu bravamente.
No terceiro round, Arcângelo Anjo renasceu. Como um zumbi, ele avançou ao ataque e de caça se tornou o caçador no combate, devolvendo joelhadas e cotoveladas – incluindo giratórias – em Vanderlei Sou Glo, que foi minguando diante da resiliência do desafiante.
O combate levantou o ginásio do Pelezão. O público ficou ensandecido pela sangrenta batalha. A vitória de Arcângelo Anjo veio numa decisão dividida. Foi a nona vitória em 13 lutas do novo campeão do Jungle Fight. Ainda dentro do cage, o novo campeão disse de onde tirou forças para virar o combate.
“Lembrei de quando a minha mãe falou que meu pai bebia água de gás de ar condicionado porque não tinha como beber água. Lembrei de tudo o que passei”, vibrou o lutador de 27 anos. “Luto há 10 anos. Se eu estou aqui, foi porque Deus permitiu. Deus me blindou e me protegeu. É inexplicável”.
A batalha impressionou até mesmo o prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes, que assistiu ao evento na beira do cage. “Que luta, hein. Foi uma guerra!”, exaltou. “Fiquei muito emocionado. Quando um atleta vem aqui e fala sua história, tudo o que passou, a gente tem que exaltar. Foi um evento maravilhoso e eu fiquei muito feliz por ter sido em São Paulo, a capital da luta. Parabéns ao público e aos atletas”.
Elora Dana mantém cinturão
Enquanto isso, na divisão dos moscas feminino, nada mudou. Faelly Vitória até acertou um bom chute na cabeça de Elora Dana, mas em vez de acuar a campeã, o golpe a despertou. A amazonense contra-atacou derrubando, pegando as costas e aplicando um mata-leão, tudo isso no primeiro round.
O Jungle Fight 116 teve ainda outros destaques, como o impiedoso nocaute de Murilo Bento sobre Leonardo Silva, com uma canelada na cabeça. Em outra virada na noite, Joel Saviano finalizou Oton Dantas com um mata-leão a 8 segundos para o término da luta em que estava sendo derrotado.
“Sensacional! O que o Arcângelo e o Vanderlei proporcionaram hoje foi o que o Jungle Fight prega. Foi a cereja do bolo de mais um card espetacular. Foi lindo ver o ginásio lotado, o público de pé, em polvorosa. O prefeito Ricardo Nunes ficou impressionado. Agradeço a ele e ao vereador George Hato por investirem no esporte, por darem oportunidade para esses atletas”, destacou Wallid Ismail.
Confira abaixo os resultados do evento:
Jungle Fight 116
São Paulo, SP
27 de maio de 2023
Arcângelo Anjo venceu Vanderlei Soul Glo por decisão dividida (48-47, 47-48 e 48-47)
Elora Dana finalizou Faelly Vitória Picanço com um mata-leão aos 4min52s do R1
Carlos Vini Boy finalizou Mateus Fidélis com um mata-leão aos 2min41s do R2
Joel Salviano finalizou Oton Dantas com um mata-leão aos 4min52s do R3
Alessandro Soldado venceu Lucas Forquim por decisão unânime (triplo 29-27)
Hyago Silva finalizou Welerson Oliveira com um cross-face aos 4min06s do R1
Vitor Costa finalizou Edson Silva com uma guilhotina aos 3min48s do R1
César Augusto finalizou Lucas Tavares com um mata-leão a 1min35s do R1
Renan de Freitas venceu Alexsandro Cangaty por nocaute técnico aos 2min50s do R3
Murilo Bento venceu Leonardo Silva por nocaute técnico aos 3min40s do R1
Giovanni Galeto venceu Kauê Vaz por decisão unânime (triplo 30-27)
Rafael Nunes finalizou Joseph Yohan com um mata-leão aos 3min51s do R1


















Em 1955, Pelé ainda não tinha trazido o primeiro caneco para o Brasil. E pior que isso. Nossa torcida ainda se recuperava do trauma do “Maracanazo”. Nesta realidade quem tinha status de herói era Hélio Gracie, que mesmo tendo perdido para o japonês Kimura (30kg mais pesado) numa luta de Jiu-Jitsu, já havia vencido muitos desafios de Vale-Tudo nos anos 30 e 40, passando a ser o queridinho da mídia.
Consultado por Waldemar, Hélio não quis permitir que o aluno lutasse no evento e ameaçou expulsá-lo. Waldemar ainda tentou convencê-lo que a luta seria para valer, explicando que precisava muito de dinheiro, mas Hélio deixou claro que o expulsaria caso aceitasse o desafio. Sem nenhuma perspectiva de fazer parte da equipe A que representava a academia Gracie na época, Waldemar acabou lutando. De fato foi uma luta pra valer e Santana venceu fácil, mas o mestre não quis conversa e o expulsou. O episódio geraria uma enorme celeuma na época com o jornalista da “Ultima Hora” Carlos Renato, criando a narrativa de que o aluno humilhado deveria responder ao mestre nos ringues.
O nocaute brutal sofrido por Hélio Gracie geraria um interesse imediato numa resposta da família, desta vez representada por Carlson Gracie. Carlson vingaria o tio Hélio numa luta de Vale-Tudo que lotou o Maracanãzinho em 1956. Mas mesmo após de ser derrotado pelo Gracie, Waldemar continuaria com seu status de grande ícone esportivo. Além de Carlson Gracie, com quem Waldemar lutou em cinco oportunidades (1 vitoria para o Gracie e 4 empates), o Leopardo Negro lutaria diversas vezes com outros grandes ícones de sua geração, como Ivan Gomes, Euclides Pereira e até mesmo com o japonês Masahiko Kimura, a quem enfrentou em Salvador nas regras do Vale-Tudo. O próprio Kimura narrou esta luta em sua biografia, reconhecendo que levou uma surra do baiano e a luta só foi declarada empate porque ele conseguiu chegar até o final.
Em 2022 a luta mais longa da história recebeu uma homenagem do poder publico através do projeto Negro Muro, que viabilizou uma bela pintura do artista Cazé em um muro localizado bem a frente da ACM, onde Hélio e Waldemar lutaram em 1955. Na cerimônia de inauguração, além da filha de Waldemar, Waldimara, estava presente João Alberto Barreto. Aluno mais fiel de Hélio Gracie e parceiro de treinos de Waldemar Santana. Carlson Gracie também recebeu uma homenagem em agosto de 2019, quando foi inaugurada uma estátua sua em tamanho natural, na saída do metrô de Copacabana, a poucos metros da academia onde formou tantos campeões. A comunidade da luta agora aguarda ansiosa a aprovação do projeto que prevê uma estátua dos criadores da dinastia Gracie, os irmãos Carlos e Hélio, juntos.



